quinta-feira, 12 de julho de 2012

Ainda sobre fronteiras




O grupo de pesquisadores saiu, no início da noite, num micro-ônibus, da fronteira em direção à capital do Estado, para dali seguir por avião às suas cidades de origem. Estavam animados com os resultados do evento científico, e também pelo trânsito pela borda do país, região limítrofe, a transformar-se em outro país, outra gente, outros falares...

Fronteira. Palavra tão recorrente nas discussões sobre cultura contemporânea. Suas porosidades são anunciadas. Fronteiras: até parece que elas estão lá para serem negadas, desconstruídas. A missão é mostrar sua inoperância em tempos que fazem questão de desconhecê-las, desconsiderá-las. Talvez por isso mesmo, a ideia de fronteira política e geográfica parecia algo tão exótica ao grupo de pesquisadores.

E então sucedeu o que era provável, mas que não constava na lista de expectativas, ao menos não daquele grupo especificamente. Mal iniciada a viagem, o micro-ônibus foi parado, para fins de vistoria, por um destacamento de policiais federais. Com cães farejadores, percorreram todos os espaços da condução, examinaram bagagens, passageiros e motorista.

Os passageiros, respeitáveis pesquisadores, professoras e professores que portam uma bagagem cultural de se respeitar, foram tratados como bandidos. No mínimo como suspeitos potenciais. Apavoraram-se com a brutalidade da ação. Desesperaram-se, a bem da verdade. A operação estendeu-se por mais de uma hora.

Ao fim e ao cabo, dado o avançado da hora, e o estado de tensão em que todos se encontravam, retornaram à cidadela da fronteira, para seguirem no dia seguinte muito cedo. Temerosos, ainda, de passarem, mais uma vez, por situação semelhante.

Ilude-se quem acredite na flexibilização ou mesmo na derrubada das fronteiras. Elas continuam erigidas, ameaçadoras, demarcando territórios regidos por leis que não as ensinadas nos cursos de Direito, nem vigentes nos códigos oficiais da nação.



quarta-feira, 11 de julho de 2012

Agosto, mês das pipas, já está chegando!


Este é o primeiro lembrete de 2012, para que, depois, ninguém diga que esqueceu:
Lá vem chegando o mês de agosto. 
Com ele, as tardes de sextas feiras, quando vamos brincar com nossas pipas no ar!
E arraias, pandorgas, papagaios, com rabiola, sem rabiola, compradas prontas, feitas em casa!
E viva a diversidade!






quinta-feira, 5 de julho de 2012

Greve de professores x greve de motoristas de ônibus. Ou: para evitar que não haja desgaste das peças...




Noutro dia, o síndico do meu prédio me procurou. Queria que eu o ajudasse na revisão de um comunicado a ser divulgado entre os condôminos. Num ponto do texto, ele explicava certa providência tomada, justificando que era para “evitar que não houvesse desgaste das peças”. Chamei sua atenção para o fato de que ele estaria assumindo que tal procedimento era para provocar o desgaste das tais peças. Ele não compreendeu muito minha explicação. Lemos, juntos, o trecho, tentei mostrar de outra maneira o efeito reverso da estrutura da frase que ele montara. Ao final, mais confiando em mim do que compreendendo o problema, pediu-me que eu mesma corrigisse, para ele imprimir a versão final. Comentou, com um sorriso afável: “Ainda bem que posso contar com uma professora para me ajudar...” Ele tem curso superior, com formação na área de informática, e diploma obtido numa faculdade de iniciativa privada. Atua no mercado há muitos anos.

Ontem, foi amplamente divulgada a greve dos rodoviários, em Recife, já em seu segundo dia. De um lado, a população pena para conseguir se deslocar pela cidade, de outro lado, motoristas e patrões não chegaram, ainda, a um acordo. Esses dados informam, afinal, já ter havido rodada de negociação. Enquanto isso, a greve de professores, estudantes e funcionários nas universidades federais de todo o país vai completando seu segundo mês (e não o segundo dia...) com quase nenhum espaço sério de informação nas mídias diversas, e sem qualquer aceno de negociação por parte do governo federal.

Começo a achar que eu me equivoquei, e o síndico estava certo: os caras estão mesmo evitando que não haja desgaste das peças...

Salve o Corinthians...



terça-feira, 3 de julho de 2012

... a cidade é assim...






Poema em linha reta



Fernando Pessoa


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu, tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Em verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos.

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Poemas de Álvaro de Campos)



domingo, 1 de julho de 2012

Mais vale um pássaro na mão...



O dia seguia calorento, já quase sol a pino, quando o Xodó voltou de mais uma de suas caçadas no campo. Manchas avermelhadas de terra em seu pelo branco denunciavam que tinha havido luta. Na boca, trazia presos um pássaro pequeno e uma lagartixa. Entrou pela varanda, cansado. Sentindo-se em território seguro, deitou sobre o piso frio, para refrescar o ventre. Num gesto de alívio, fechou os olhos um instante. Uma filigrana de relaxamento percorreu seu sistema nervoso. O pássaro, que, embora tonto, não estava morto, sentiu o imperceptível afrouxamento da mandíbula felina que o mantinha preso aos dentes do seu algoz. Não perderia a única oportunidade de agarrar-se à vida. Num átimo de tempo, reuniu toda a sua pequena força, e voou agilmente, até a copa da árvore mais próxima. Seu bater de asas assustou o gato, que girou rapidamente a cabeça na direção para onde fugira a ave. Então a lagartixa, que se fizera de morta até ali, sem estar, também reconheceu o momento de sua salvação. Escapuliu-se na direção oposta. Deslizou rápida até a fresta mais próxima, e dali desapareceu. Xodó estava cansado demais para enfrentar qualquer outro embate. Compreendeu que ganhara duas batalhas, mas perdera seus reféns. Permaneceu ali, deitado, recobrando as energias. Mais tarde, ganhou um prato de comida preparado para ele por minha mãe. Se mais vale um pássaro na mão do que dois voando, também mais vale uma caça morta na boca do que um pássaro e uma lagartixa meio tontos, mas prontos para fugir.