literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
terça-feira, 19 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Algumas memórias (nem um pouco glamurosas) da ECO 92
Eu trabalhava na antiga Fundação Educacional do Distrito
Federal. Nós professores estávamos em greve, num embate muito difícil com o
governo distrital. E a situação da equipe por mim integrada era particularmente
delicada, pois participávamos de um projeto que atendia meninos e meninas em situação
de risco, em funcionamento num circo no centro da cidade. Dele tomavam parte
várias Secretarias: de Saúde, do Serviço Social, de Segurança, de Cultura, além
da área de Educação. Mas entendíamos que nossa posição política também era
referência de formação para os nossos estudantes, e por isso decidimos lidar
com as tensões que a situação nos colocava.
Ao mesmo tempo, o país se mobilizava para participar, no
Rio de Janeiro, da ECO 92. E a direção do projeto decidiu que um grupo dos
nossos estudantes não ficaria de fora do acontecimento. Dois professores de
teatro prepararam uma apresentação cênica que tratava da condição dos meninos,
de animais ameaçados de extinção, de meio ambiente. Foram providenciadas
algumas participações do grupo em programações paralelas ao evento oficial. Eu fui
chamada a acompanhar o grupo, considerando que era coordenadora pedagógica do
setor de escolarização, e tinha ascensão sobre os meninos. Dada a
excepcionalidade da situação, acolhi a missão.
Fui informada que teria hospedagem no Rio de Janeiro, e
contaria com o suporte dos professores responsáveis pela formação do grupo e produção
da apresentação. Éramos duas professoras, três professores, e doze alunos,
todos rapazinhos.
Quando chegamos, de ônibus, ao Rio de Janeiro, soubemos
que ficaríamos hospedados na antiga FEBEM, em Quintino Bocaiúva, todos num
único alojamento coletivo, dormindo em beliches, sem acesso a telefone e outros
modos de comunicação. Dias muito difíceis se desenrolariam, então. A cidade
encontrava-se numa espécie de convulsão: gentes de todas as partes não queriam
perder o melhor lugar na arquibancada para assistir alguma coisa que ninguém,
de fato, sabia ao certo o que seria, mas que acreditavam ter uma importância
história e uma potência transformadora – de que mesmo? Os meninos foram
contaminados pela febre coletiva, e nós, que os acompanhávamos, éramos
responsáveis por sua segurança, em uma situação de muita vulnerabilidade, sem
dispor de muitos recursos para lidar com aquela situação.
Desde esse lugar periférico, marginal, internados numa instituição
voltada para menores infratores, a ECO 92 nos parecia uma farsa de mau gosto,
capaz tão somente de provocar desconforto, além do espetáculo midiático que
atendia a projetos outros, de natureza política e econômica, dos quais não tínhamos
qualquer participação. As apresentações do grupo de teatro aconteceram de modo
precário, para públicos distraídos.
Ao final de alguns dias, retornamos para o Distrito
Federal. Os meninos vinham radiantes, depois de terem conhecido o mar, a Lapa,
o Pão de Açúcar, Copacabana... Eu retornei ao movimento grevista, que durou
mais algum tempo. Sua conclusão também resultou em frustração: voltamos ao
trabalho, às rotinas de reposição de aulas, sem quaisquer dos ganhos
reivindicados. Durante a última assembleia, sentindo o peso da frustração, decidi
que não sucumbiria a lamentações, que não gastaria minhas energias com
queixumes: trabalharia duro para sair daquela situação, buscando condições mais
dignas para atuar.
Seria coincidência (penso que não) o que acontece exatos
vinte anos depois? Hoje, junho de 2012, a Rio+20 capitula frustrando expectativas de militantes,
sonhadores, gente que alimentava algum entusiasmo com o evento. Hoje, também,
nós professores das universidades federais estamos em greve, juntamente com os
funcionários da área técnico-administrativa, e os estudantes, para explicitar a
necessidade de se rever as condições salariais, de trabalho, os projetos do
ensino superior, público e de qualidade.
A FEBEM, em Quintino Bocaiúva, no Rio de Janeiro, agora se chama Fundação
Centro Brasileiro Infância e Adolescência Quintino Bocaiúva. Se mudaram os
nomes, a situação dos menores em situação de risco no país não conheceu melhora
desde então. Tampouco a dos professores...
sábado, 16 de junho de 2012
Libélulas
antes de acasalar
duas libélulas brincam
nas águas do ducha-car
Terra Gwayá, 2 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
quarta-feira, 13 de junho de 2012
O trem da História só passa uma vez
Para os estudantes que vão redescobrindo
o poder político de seu grito,
o poder político de seu grito,
de seu gesto, de sua determinação.
Ingressei na universidade no primeiro semestre de 1980.
Tinha ainda 17 anos, e logo me deparei com uma greve deflagrada pelos
estudantes. Os anos mais duros da ditadura militar começavam a perder força,
mas ainda não tínhamos o direito ao exercício democrático nas diversas
instituições. Mas no DCE, o direito à voz era assegurado, e as decisões eram
tomadas com base no voto. Mesmo sabendo que havia os dedo-duros infiltrados, que denunciavam militantes, ações programadas,
etc.
As primeiras lições de cidadania foram logo ganhando
lugar. O trem da História só passa uma vez, e é preciso assumirmos posição.
Àquele tempo, nosso antagonista tinha feições claras, vociferava
ameaças abertamente, e cumpria o prometido quase sempre. Nossas assembléias
mobilizavam milhares de estudantes, e não raro eram compartilhadas por
políticos de esquerda que nos apoiavam. Em volta, centenas de soldados com cães
nos vigiavam, prontos a atacarem, à menor alteração de humor, ao menor indício
de que já fosse a hora de dar um basta.
Durante os quatro anos do meu curso de graduação, atuei
num grupo de teatro estudantil, participei de um sem número de assembléias, e lancei-me
com força a toda a mobilização de coisa de duas ou três greves de estudantes. Nessas
greves, não contávamos com o apoio dos professores, que registravam nossas faltas nas aulas, e
ameaçavam nos reprovar, o que poderia redundar em jubilamento. As palavras de
ordem pediam contratação de professores, verbas para os cursos, e
democratização da instituição, entre outras coisas.
Muitos jovens saíram do movimento para assumir carreiras
políticas. Alguns ocupam, hoje, cargos executivos no governo federal. Seus discursos
mudaram um tanto. Suas práticas ainda mais. Nem tudo é linear, nem todas as
relações são claras. Eu não cometeria a ingenuidade de pensar que todos, àquela
época, fossem movidos pelo mesmo ideário que me movia, e que vinha marcado por
valores morais e éticos depurados. Muitos interesses nem sempre revelados estavam
em jogo. Mas havia uma força outra, do coletivo, que parecia prevalecer, uma
solidariedade que imprimia o tom das mobilizações acima de motivações outras,
possíveis, prováveis.
Concluído meu curso, afastei-me da vida acadêmica durante
uma década, atuando na educação básica. Ali também as greves ocupavam os
calendários letivos, em embates que, embora sofridos, potencializavam nossa
energia e vontade de lutar por uma sociedade mais democrática, justa, por um
projeto de educação de qualidade, por condições melhores para se ensinar e
aprender. Foram muitas as passeatas pelo centro da cidade, assembléias em
frente ao Congresso Nacional, no estacionamento do Estádio Mané Garrincha. Milhares
de professores levantavam a voz e o braço. Eu fazia parte daquilo, e isso me
dava força para prosseguir.
Em meados dos anos 90, voltei à universidade, para fazer
o curso de Mestrado. O reitor, nesse período, já era eleito pelo voto de
professores, estudantes e funcionários. A democracia chegara à instituição
universitária, afinal, como sonháramos há pouco mais de uma década. Contudo, surpreendi-me
com a informação de que o DCE se havia desarticulado. Pior: nas últimas
eleições, não havia candidaturas que representassem de fato o corpo discente, e
não houve votação mínima para legitimar qualquer resultado.
Tive a impressão de que, instaurado o processo de eleição
do reitor e diretores das unidades acadêmicas, os estudantes tinham perdido a
clareza sobre porque lutar, quando lutar, contra quem lutar. Eram os professores
que faziam greve, sob as críticas e os queixumes dos estudantes, preocupados,
estes, em obter logo seus diplomas e se verem livres do suplício de estudar.
Durante o curso de Mestrado, houve uma greve longa de
professores, e um deles fez greve de fome. Foi uma luta intensa. Temi por sua
integridade, em vários momentos. Esses professores, alguns deles, foram estudantes
universitários nos anos 60 e 70, e haviam trazido de lá a vontade de lutar. Os estudantes,
ingressados na universidade já democratizada, não viam razão para embates. E se
opunham à luta dos professores.
Desde então, percebo que se perdeu uma aprendizagem
necessária no decurso das duas últimas décadas: a de que o exercício de
cidadania deve tomar parte de nossas formações, em qualquer instância, a todo
momento. E que é preciso explicitarmos as posições que assumimos ante a
sociedade, compreendermos as responsabilidades que nos cabem atuando nos vários
segmentos das dinâmicas sociais. É preciso, sobretudo, percebermos que, muitas
vezes, a ansiedade pelo cumprimento de certas metas de curto prazo desqualifica
nossa inserção no percurso da história, desqualifica o projeto social de que
tomemos parte. Não podemos viver como meros consumidores que reclamam no balcão
de atendimento do supermercado para que alguém – quem será? – tome a
providência necessária – qual será?
Cabe a nós mesmos tomar as providências necessárias, e
aprender a negociar nas diversidades, compreender os diferentes pontos de
vista, sem delegar responsabilidades.
Hoje constato que os corpos estudantis se esqueceram de
sua força como categoria. Os estudantes perderam-se de seus projetos sociais
coletivos: urgenciam diplomas que assegurem seu ingresso no mercado, não
importa a que preço. É a sociedade de consumo dando o tom dos comportamentos.
Por isso, entre inquietações que me assaltam neste
momento, alegro-me em constatar o retorno de um viço capaz de mobilizar
estudantes, de levantar sua voz, de devolvê-los à cena, como protagonistas, e
não como meras vítimas de processos políticos outros que não lhe dizem
respeito.
Estudantes fazem greve, sim! Estudantes são a razão da
existência das instituições universitárias! Os estudantes devem discutir os
destinos dessas instituições, do mesmo modo como projetam seus próprios
destinos! Este é o momento de aprendermos a fazê-lo, este é o momento de
exercitarmos!
O trem da História só passa uma vez. Que ninguém perca a
viagem. E se perder, que não fique se lamentando, entre queixumes, na estação,
acusando outrem por ter sido deixado para trás.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
domingo, 3 de junho de 2012
uma tragédia antiga, assustadora
Por que amanheci me lembrando dessa história? Por que suas imagens rebrilham na minha imaginação a todo momento, nesta manhã de domingo? Talvez escrever sobre ela possa aliviar sua intensidade e insistência em meus pensamentos...
Contou-me minha mãe, ela conheceu a família, ainda em sua infância, já há uns muitos pares de anos.
O casal morava numa casa pobre, na roça. Tinha três filhos, meninos. O mais velho devia ter uns 9 anos, o do meio uns 7, e o mais novo, era bebê, com não mais que 3 meses. A vida era dura, trabalho braçal diário, sem conhecer domingo ou feriado. O marido trabalhava na roça, cuidava dos poucos animais que serviam para o trabalho e para o alimento da prole. A mulher cuidava dos filhos, da casa, do marido, das plantas, dos animais domésticos.
Naquela noite, depois de jantarem arroz com charque, feijão e mandioca, e tomarem o leite que tinha sobrado do almoço, e depois de ela ter lavado todas as vasilhas, recolheram-se para dormir. Os meninos maiores numa cama de solteiro num quarto, e no outro quarto, o casal, numa cama maior, com o pequeno numa rede acima dos pais. A parede de madeira separava os ambientes, mas não isolava os sons. Logo que a lamparina foi apagada, o filho mais velho começou a reclamar do mais novo, que estava beliscando suas costas. Que parasse, determinou o pai. O mais novo contestou, defendendo-se que não estava beliscando o irmão. Ficaram ali, nos queixumes, e o mais velho aquietou-se. Então o mais novo começou a reclamar, que agora era o mais velho a lhe beliscar as costas. Que parassem logo com isso, insistiu o pai, já bravo. E logo a calma tomou conta da noite, e todos dormiram.
O pai levantou-se muito cedo, ainda escuro. Acendeu a lenha no fogão, esquentou a água, fez seu mate. Depois foi tirar o leite da única vaca que estava com cria por aqueles dias. Tomou uma caneca ainda morna, e foi para a roça. Avistou a mulher, que trocava as roupas do bebê, para começar as atividades do dia. O sol já ganhava alguma força em brilho e calor, mas nada dos meninos darem as caras. Então, com o pequenino nos braços, foi chamá-los, pois precisava que a ajudassem. Encontrou-os mortos, na cama, e entre eles uma cobra venenosa aninhada. Compreendeu, então, que os beliscões da noite anterior eram as mordidas da serpente. Desesperada, deixou o bebê num cochinho preparado para abrigá-lo, que ficava no chão da cozinha, e saiu correndo, aos gritos, chamando o marido. Ele, ouvindo a voz da mulher tomada por um horror que jamais ouvira antes, largou as ferramentas de trabalho em meio à plantação, e saiu correndo ao seu encontro. Esquecido das armadilhas que ele mesmo preparara para pegar animais silvestres, tropeçou no fio que acionou o gatilho da espingarda, cujo tirou fatal lhe atingiu no peito. Morto ficou ali, em meio à corrida.
A mulher, assustada com o tiro, foi ao seu encontro. Nem teve tempo para compreender que a viuvês chegara à sua vida num átimo de tempo, ouviu o choro intenso do bebê vindo da casa, e uma movimentação pouco normal protagonizada pelos animais. Instintivamente, deixou seu homem ali, caído, e voltou, encontrando o corpo do filho mais novo estraçalhado, sendo disputado pelos porcos, no quintal.
Qualquer sentido possível do viver lhe escapou nesse momento. Qualquer razão já não significava nada. Ficou ali, parada, numa solidão inexplicável, inimaginável. Foi encontrada por vizinhos, mais tarde, parada no mesmo lugar. Não tinha para onde ir. Não tinha o que fazer. Apenas recontava a sequência de fatos que se abatera sobre seu corpo franzino, mas parecia que não se tratava dela própria. Ela mesma já não sabia de si, já não estava ali, esvaziada de vontades, de possibilidades, de caminhos. Não retornaria, não voltaria a compreender nada mais.
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