domingo, 29 de dezembro de 2024

Chegada do trem à estação, ou, mais de um século depois, os sustos provocados pela IA


 Multiplicam-se os relatos sobre a primeira sessão coletiva em Paris, quando os irmãos Lumière apresentaram os brevíssimos registros em filme do trem chegando à estação e de operários saindo da fábrica ao final do expediente. Sempre se destaca o susto das pessoas, especialmente ante a possibilidade de serem atropeladas pelo trem vindo em sua direção. Tal impressão repetiu-se em incontáveis sessões posteriores. E na medida em que os recursos técnicos e tecnológicos para a produção fílmica se ampliaram, as sessões no cinema ganharam potência nos filmes de ficção e não ficção, conduzindo seus públicos a sensações intensas, surpresas, sustos, vertigens.


A grande questão está na ideia, recorrente ainda hoje entre a maioria das pessoas, de que a imagem em movimento projetada no cinema tem potência de registro de verdade. O que é um equívoco, mesmo quando se tratem das assim nomeadas produções documentais. Estas, apesar de serem produzidas seguindo um protocolo diferenciado em relação às ficcionais, não são prova de verdade, mas discurso construído a partir de pontos de vista muito específicos sobre determinadas questões. Muitas vezes, os filmes documentais dizem menos de seus contextos do que filmes ficcionais, até os filmes fantásticos, de ação ou de ficção científica, que, embora não tenham pretensão de provar quaisquer verdades, acabam sendo testemunhos potentes das circunstâncias nas quais são concebidos e realizados.


Assim, tem-se em conta que vídeos e outras peças do audiovisual compartilhados à larga nas mídias mais diversas não têm, no ponto de partida, o pressuposto de prova de verdade. Nem o pressuposto, nem o compromisso. São discursos, defendem certos pontos de vista, e para tanto fazem uso dos elementos constituidores das imagens em movimento sonorizadas. Quase sempre, contudo, reivindicam a condição de verdade, como parte do esforço de convencimento de suas argumentações.


Nesses termos, os recursos propiciados pelas plataformas de inteligência artificial, disponibilizadas para usos os mais diversos, incluindo produção audiovisual, provocam surpresas e impressionam na mesma escala que a projeção dos filmes dos irmãos Lumière no final do século XIX. E a base dessa capacidade de impressionar está, sobretudo, assentada na constatação de que imagem em movimento como prova de verdade pode ser uma farsa produzida por estruturas cada vez mais complexas da tecnologia digital. Tais estruturas podem produzir os discursos que quiser, à disposição de usuários com os mais diversos propósitos, ou, até quem sabe, à disposição das próprias máquinas, reiterando o sobressalto, também antigo, de a humanidade ser suplantada, ou mesmo extinta por suas criações.


Parece, mesmo, que ainda estamos ali, naquele 28 de dezembro de 1895, sem sair do Salon Indien do Grand-Café de Paris desde então, sob os efeitos da projeção dos breves filmes realizados por Auguste e Louis Lumière, fazendo uso de sua invenção, o cinematógrafo.

 



segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Sobre linguagem neutra e outras considerações

Ah, a língua que falamos, quantos mistérios guarda, de quantas histórias é entrelaçada, de que modos sistematiza nossos valores e nosso imaginário!

O modo como uma língua se organiza sistematiza as formas de pensamento da comunidade que dela faz uso para se comunicar. Mais do que se comunicar: para sistematizar o pensamento, para organizar aquilo que conhece, que sabe sobre o mundo, e para estruturar o mundo em que cada qual se encontra. As relações entre a língua, os modos como se faz uso dela e a comunidade falante são dinâmicas, em transformações mútuas e contínuas. Uma mesma língua falada num determinado momento histórico, por uma comunidade, estará modificada duas décadas depois, assim como também estará sua comunidade.

Pensar numa cultura, numa comunidade ou numa língua fixadas no tempo, sem modificações, é pensá-las mortas.

Como soe ser com as culturas de um modo geral, as dinâmicas de transformações se dão nas tensões estabelecidas entre forças que tendam à conservação do que já está posto e as forças que busquem instaurar o novo. A instauração do novo, sem resistência, causa tantos danos quanto a manutenção do já posto sem renovação. Em meio a tais tensões, a vida em sociedade se institui, em efervescência.

As diferentes línguas propiciam diferentes percepções e concepções de realidade, que não são passíveis de tradução entre si. Ou seja, cada língua oferece ferramentas específicas para organizar o pensamento e a percepção do mundo de modos específicos.

Tendo isso em conta, e considerando a língua portuguesa falada no Brasil, podemos buscar algumas especificidades e forças transformadoras observadas nas últimas décadas. Por exemplo, o fato de que o modo subjuntivo da conjugação verbal vai caindo em desuso na mesma medida em que avançamos no aprofundamento das tecnologias para a organização das informações, do pensamento e, mais recentemente, dos textos. O modo subjuntivo apresenta uma possibilidade em grande medida inacessível para máquinas que operam na linguagem binária. Por exemplo, entre o que foi e o que não foi, o subjuntivo apresenta possibilidades, naquilo que poderia ter sido, ou teria sido, ou seria...

Fico sempre impressionada como não há quem se levante em defesa do subjuntivo. Não raro, percebo expressões de estranhamento ante a própria terminologia: de que trata o subjuntivo? Avançamos, afinal, para um mundo sem as nuances temporais que essa modalidade verbal permite. Quem sente falta, a propósito?

Curiosamente, se, no tocante aos modos e tempos verbais, o uso da língua portuguesa no Brasil tende a essa simplificação, traduzida no desuso do subjuntivo, que resulta na redução às escolhas entre a afirmação e a negação diretas, por outro lado, ultimamente se tem testemunhado o debate a respeito da definição de gênero, delimitado na perspectiva binária, conforme as referências normativas dominantes em nossa sociedade: ele ou ela, homem ou mulher, macho ou fêmea.

Algumas línguas contemporâneas abrem algumas brechas para o eventual uso de pronomes neutros, muitos desses, contudo, destinados à referência de objetos e outras formas substantivas que não pessoas: it, no inglês, por exemplo. Ao mesmo tempo, ganham força as discussões sobre as orientações de gênero na sociedade contemporânea ocidental, abrindo flancos para a manifestação de orientações outras que se situam fora da clássica orientação homem-mulher, masculino-feminino, atrelada às formas biológicas de formação.

As pressões e as demandas sociais tomam a frente. Logo atrás encontram-se as normas sociais, seguida da legislação, que tentam dar respostas às demandas. A língua vem depois, se reordenando continuamente, para traduzir em palavras e estruturação frasal esses modos de viver. Nesses processos todos, forças divergentes de debatem, entre conservar e transformar, entre manter e mudar.

É nesse contexto que, há algum tempo, começou-se a questionar, em primeiro lugar, o fato de a língua portuguesa (não só a portuguesa, mas essa é a minha língua materna, por isso penso a partir dela) fazer uso do masculino para incluir todos os gêneros, e a palavra homem como termo universal que inclui homens, mulheres, crianças, velhos e todos quantos mais. Tal regra persiste, mas tem sido contestada em quase todas as frentes, restando poucos usuários que insistem em sua manutenção. 

Junto aos questionamentos e à constatação da necessidade de se rever essa questão, começou-se a buscar formas alternativas de representação dessas demandas nos textos escritos. Assim, houve quem fizesse uso dos indicativos dos gêneros feminino e masculino para a escrita de substantivos, adjetivos, pronomes etc., em referências sempre a homens e mulheres, professores e professoras, pais e mães, meninos e meninas, entre outros. Apareceram também escritas com frases tais como: Ele/a é bonito/a. Um pouco além, houve quem utilizasse o sinal @ em lugar da indicação de gênero: El@ é bonit@. Estas estratégias representam projetos de inclusão, mas com algumas limitações. As duas primeiras são estritamente binárias do ponto de vista de gênero. O uso do sinal @, embora pareça mais aberta, é excludente em outras instâncias, especialmente no tocante às pessoas surdas e cegas, por apresentar obstáculos à tradução e à compreensão seja na língua de sinais, seja no braile. Além disso, o uso do @ resolve, parcialmente, a escrita, mas não resolve a fala. Do mesmo modo, o uso da barra é um problema para a língua falada.

Como desdobramento dessas tentativas, alguns segmentos sociais passaram a inserir uma terceira forma de articulação de gênero na escrita e fala, esta, referente às orientações não binárias. Ao lado de ela e ele, acrescentou-se a forma elo. A frase então passou a poder ter as seguintes construções: ela é bonita, em referência a uma pessoa de orientação feminina; ele é bonito, referindo uma pessoa de orientação masculina; elo é bonite, que inclui pessoas de orientação não binária. É importante ressaltar que a forma neutra não inclui todas as orientações, como seria o caso de @, mas refere-se à orientação não binária. Ou seja, ao cumprimentar a todes aqui presentes, não cumprimento todas as pessoas presentes, mas as pessoas de orientação não binária.

A adoção dessa terceira referência de gênero na língua não é consensual, e estabelece territórios de disputa entre as mais diferentes bandeiras.

Pessoalmente, tenho me proposto o exercício de forçar a ampliação dos recursos já disponíveis pela língua na direção do seu uso de modo neutro. Por exemplo, em lugar de escrever: Você, leitor, leitora, leitore deste texto sobre linguagem neutra, escolho escrever: Você que lê este texto sobre linguagem neutra. Assim, pretendo manter a interlocução com qualquer substância viva que, de alguma forma, e a seu modo, se aproxime do texto em pauta. Tal exercício não é simples, e tem apresentado desafios na estruturação do pensamento, a cada linha escrita, a cada argumento construído. Por outro lado, apesar do rigor no tocante à construção de uma perspectiva includente radical, no mais das vezes, em sua leitura, esse demarcador passa despercebido por quem faça a leitura. Ou seja, recorrentemente, quem o leia não se dá conta da indistinção não só de gênero, mas de qualquer outro marcador social, cultural, de gênero, biológico, enfim.

Nesses termos, entendo que, muitas vezes, o uso da terceira forma, na definição da orientação não binária, cumpre sobretudo a função de ressaltar, inevitavelmente, tal necessidade. Trata-se de uma bandeira erguida.

Por isso mesmo, sem abrir mão do exercício continuado de uso da língua de modo includente radical, quando solicitada, não me recuso a fazer o uso da linguagem neutra, especialmente naquelas situações que concorram à defesa de direitos legítimos, da ética, do respeito à pluralidade, por mais desafiador que isso seja.

Mas continuo exercitando as possibilidades da língua conforme posta, empurrando seus limites para mais além, traçando outros mapas, tentando redesenhar horizontes, para, dentro dela, fazer outros usos, disponível para as possibilidades de transformar os meus modos de pensar, de ser e de estar no mundo.

 

 

 

 

 


domingo, 15 de setembro de 2024

Mundo da arte

 Para Rafael

O jovem inquieto e metódico planeja e, passo a passo, vai executando seu caminho cujo destino é o mundo da arte. É artista respeitado. Seu trabalho é meticuloso, disciplinado, tem potência, pulsa em permanente ebulição. Ele faz, desfaz, refaz, com crivo e critérios até mesmo mais rigorosos do que os de curadores e comissões de julgamento.

Mas sua produção fílmica enfrenta resistências para ser aceita nos festivais regionais e nacionais. Ele se pergunta sobre as dissonâncias entre seu trabalho e as expectativas dos júris e dos organizadores dos eventos. Transforma essas questões em assunto de investigação. Sua indagação ganha força, sobretudo, quando tem a mesma produção aceita em festivais no exterior, alguns de grande porte e extensão internacional. Do mesmo modo, experimenta acolhida em salões de arte. Dos salões regionais aos nacionais, passa a experimentar a alegria de ver seus trabalhos aceitos, expostos, admirados por diferentes públicos e segmentos do mundo da arte. Passa, então, a ter reconhecimento, a ter o próprio estilo reconhecido, nominado. Colecionadores desejam adquirir exemplares de seu trabalho.

Naquela noite, seria aberta uma grande exposição, resultado de um edital público, que chegou à escolha de um seleto conjunto de obras completas para serem produzidas e mostradas com destaque, além de outros trabalhos. A proposta dele estava entre as obras a serem apresentadas completas. Assim, logo à vista de quem ingressasse no grande salão, estavam expostas suas fotografias inquietantes. Todos os curadores, membros do júri, jornalistas, estudantes de artes, digital influencers passaram por ali, conversaram com ele, fizeram perguntas, tiraram fotos. Não havia dúvidas de que ele se tornara referência notória no circuito artístico.

Em meio à intensa movimentação, depois de muitas fotos e comentários e cumprimentos, incluindo autoridades políticas locais, ele constatou que duas das suas fotos estavam de ponta-cabeça. Os montadores, igualmente encantados com seu trabalho, não se deram conta de que as duas fotos estavam viradas, com as posições invertidas, enquanto as fixavam, cuidadosamente. Ele ficou inquieto, não conseguiu mais se concentrar nas conversas, evitou fazer fotos diante do trabalho. Procurou pela pessoa responsável pela montagem, para pedir ajuda. Não encontrou. Voltou. Entre receios, tirou, ele mesmo, as fotografias da posição inicial, reposicionando-as, agora corretamente. Este lado para cima.

Respirou aliviado. Ninguém percebeu o movimento ágil de troca. Tampouco perceberam que havia sido feita a troca. Nem os admiradores, nem os críticos, nem os curadores... Nem o próprio responsável pela montagem da exposição percebeu a alteração. Para eles, pareceu não fazer lá muita diferença, mesmo...

Goiânia, 13 de julho de 2024

 

domingo, 25 de agosto de 2024

Sobre ser brasilense


A palavra brasileira, ou brasileiro, para definir quem nasce no Brasil, talvez seja a única forma em que a definição da nacionalidade faz uso de um sufixo que indica uma ocupação profissional: ferreiro, sapateiro, coveiro... Indica, também, um recipiente ou depósito: braseiro, bueiro, esterqueiro...

Dentre as palavras para definir outras nacionalidades, em língua portuguesa, encontram-se aquelas formadas com vários sufixos, dentre os quais -aio: uruguaio, paraguaio; -es: português, inglês, francês, escocês; -ano: italiano, norte-americano, indiano, peruano, mexicano, venezuelano, iraniano, sul-africano... Em relação ao Brasil, esse sufixo define campos de conhecimento a partir de centros de estudos em geral estrangeiros: encontram-se aquelas pessoas que se dedicam aos estudos brasilianos em literatura, política, cultura, cinema, etc. O sufixo -ense também figura para a definição de nacionalidade, é o caso de canadense. No Brasil, esse sufixo é usado para definir a naturalidade em relação tanto à unidade federativa ou ao município onde as pessoas tenham nascido: catarinense, paranaense, maranhense, goianiense, brasiliense. 

O sufixo -ense apresenta uma vantagem dentre os demais, por sua natureza inclusiva, ao abrigar femininos, masculinos e todas as demais variações possíveis dos seres nascidos naquele território: país, unidade federativa, distrito, município, vila...

Também no caso do Brasil, a língua portuguesa prevê outras duas palavras, desconhecidas da maior parte das pessoas, para definir nossa nacionalidade: brasiliano e brasilense. 

Isso posto, escolho me assumir brasilense, e não mais brasileira, nem brasiliana. Note-se a ausência da letra i em meio à palavra, o que a diferencia de brasiliense, em referência a alguém que tenha nascido em Brasília.

Cidadã brasilense, habitante do Brasil Central.




terça-feira, 11 de junho de 2024

O professor quer dar aula... mas o que ensina o professor?

 

foto: Jossier Boleão

Naquela terça-feira, pela manhã, o professor iniciou o dia determinado a dar sua aula. Logo cedo dirigiu-se ao prédio de sua faculdade, que não ficava muito longe, mas também não muito perto de sua casa. No dia anterior, tinha enviado mensagem eletrônica aos alunos de sua disciplina, confirmando as atividades do dia. Estava certo de que estariam esperando por ele (a propósito, era um professor movido por muitas certezas!).

Contudo o movimento grevista discente ainda estava em curso. Os estudantes da universidade vinham assumindo posições cada vez mais consistentes e coerentes em suas reivindicações e na crítica feita tanto à gestão institucional quanto ao orçamento destinado às universidades federais. Em suas reivindicações, apontavam desde a falta de papel higiênico nos sanitários, à falta de segurança nos campi, vários problemas em relação ao refeitório, a redução no financiamento de bolsas para permanência de estudantes de renda inferior, até a necessidade de discussão sobre os ajustes do calendário acadêmico considerando as circunstâncias atuais da comunidade universitária.

O movimento grevista estudantil foi reconhecendo sua própria força, ganhando fôlego e visibilidade. Os estudantes aprenderam e ensinaram em sua mobilização. Na manhã daquela terça-feira, o comando de greve do movimento estudantil teria reunião com a reitora, finalmente, para as negociações.

Ao mesmo tempo, a greve dos servidores das áreas administrativa e técnica também tinha continuidade, com poucos avanços na negociação em âmbito federal. Apesar disso, a reitoria escolhera dar prosseguimento às atividades na universidade como se não se ressentisse da ausência desses servidores. Em contrapartida, os estudantes, fortalecidos em suas relações de pertencimento, reforçavam tanto a importância da greve quanto a importância das funções institucionais por eles exercidas.

Mas o professor não abria mão de sua missão: dar aula. A greve dos docentes fora encerrada e ele estava determinado a dar prosseguimento aos conteúdos de sua disciplina. Chegando à faculdade, contudo, encontrou todas as salas fechadas, bloqueadas com cadeiras, painéis, armários e toda sorte de mobiliário. Os alunos o aguardavam, no corredor, temerosos de serem prejudicados com faltas ou avaliações caso não comparecessem. Cioso de seu exercício docente, ele os conclamou para ajudarem a liberar o acesso, desfazendo o bloqueio montado pelo comando de greve do movimento estudantil. Assim, retiraram as cadeiras, o armário, o painel. Ele abriu a sala e todos se acomodaram nas carteiras reorganizadas. O professor começou a aula abordando conteúdos imprescindíveis à formação daqueles estudantes, tinha certeza disso. Sentia-se forte, o professor, fortalecidas suas convicções. Os estudantes aprendiam com ele.

Aprendiam o quê? O que aprendiam, com ele, de modo que não esqueceriam, que passariam a compartilhar, como convicção? Aprendiam o conteúdo desenvolvido durante aquela aula? Provavelmente sim, mas com alguma chance de, pouco tempo depois, dele já terem se esquecido. Por outro lado, não se esqueceriam, porquanto teriam incorporado a aprendizagem, os ensinamentos sobre um posicionamento que minimiza, ou desconsidera, ou mesmo confronta o pertencimento a uma categoria em mobilização política, o pertencimento a um movimento de estudantes que questiona, que levanta sua voz para perguntar sobre as condições políticas e econômicas da educação e seus agentes, e sua comunidade como um todo.

Para aquele professor, a greve não passava de um ruído, uma perturbação momentânea, que logo passaria. Foi isso que seus estudantes aprenderam.

 




sexta-feira, 31 de maio de 2024

Estrelinhas lilases

 




 

Pouco tempo depois que eu cheguei a Goiânia, atuando como docente do ensino superior, ocorreu de uma petrea cruzar meu caminho, assim, num repente.

Eu vinha caminhando desde o auditório da faculdade, em direção à rampa que me levaria às salas de aula, fazendo o percurso pelo jardim interno. Passei por um trecho sem calçada, que tinha um pouco de musgo seco, num tom de verde muito escuro. Naquele dia, o chão estava coberto por pequeninas estrelas lilases. A visão do lilás sobre o musgo verde escuro me tirou da rota. As estrelinhas ocupavam a área em grande número. Delicadas e leves, deixavam-se oscilar com a brisa. Fiquei ali, parada, em êxtase, observando-as. Depois percebi um caule não muito grosso que se retorcia, subindo pela parede de alvenaria. Fui seguindo seu desenho, até chegar ao último piso, de onde se derramava em cachos de flores, de onde elas se lançavam, em breves danças aéreas, até repousar sobre o chão aveludado do musgo verde escuro.

Se a experiência da ordem da aesthesis refere-se ao momento em que algo afeta os sentidos de tal forma que cause uma espécie de suspensão, por certo, ali, não foi outra a experiência que me tomou.

Segui meu percurso, sem tirar os olhos nem das estrelinhas no chão, nem dos cachos aéreos na altura do último piso, nem do caule retorcido elevando-se em aderência à parede de alvenaria.

Demorei um pouco para saber o nome daquela planta, que quase ninguém conhecia. Aliás, poucos lhe haviam dado atenção. Petrea volubilis, assim é chamada no meio científico. Mas é popularmente conhecida como viuvinha, ou flor de São Miguel, dentre outros nomes.

Comecei a imaginar a possibilidade de ter um exemplar dela na varanda do apartamento. Embora soubesse que ela é uma planta de sol pleno, e numa varanda o tempo de contato direto com a luz solar é pequeno, resolvi tentar. Comprada a muda, acomodei-a num vaso que considerei de tamanho razoável. Ela cresceu, e não demorou para me presentear com as estrelinhas. Mais que isso, entre os galhos secos emaranhados, uma rolinha veio fazer seu ninho, há coisa de 4 anos. Desde então, muitos filhotinhos já nasceram ali, ensaiando seus primeiros voos entre as folhas da petrea.

Sem o sol pleno, as flores são ligeiramente mais claras e os cachos não têm tantas flores. Ainda e assim, o chão se cobre das pequenas estrelas e meu coração de alegrias.

Em tempo: quando uma florzinha cai, do caule fica uma gotícula, como uma lágrima. Talvez por isso ela também seja conhecida como viuvinha...





 

 



quinta-feira, 14 de março de 2024

Um livro de anatomia para a moça que faz a faxina. Ou, sobre a desesperança na poesia de Drumond.

  

Ela é jovem, pele negra, e trabalha como faxineira do prédio de 8 andares. Limpa o que os moradores sujam, recolhe o lixo dos apartamentos, molha as plantas do jardim.

Numa dessas idas e vindas, ela, que me descobriu professora, quis conversar um pouco. Falou-me, entre receios, “estou cometendo uma loucura: comecei a fazer o curso de Nutrição”. Aquela cumplicidade dela comigo me encheu de alegrias. Conversamos sobre o curso, sobre suas expectativas. Depois, me coloquei à sua disposição para contribuir no que ela necessitasse.

Dias depois, ela perguntou se por acaso nós teríamos algum livro de anatomia. Ela queria emprestado, para estudar.

Minha área de pesquisa é bem distante da área de nutrição. Então fizemos, eu e meu marido, uma rápida pesquisa de títulos, e encomendei um tratado de anatomia considerado bom mas não tão caro. Demorou umas duas semanas para que ele chegasse.

Ela, à porta de casa, recebeu o livro de muitas páginas. Passou a mão por algumas delas. Depois o abraçou. Ficou ali, abraçada com o livro de anatomia. Os olhos brilhavam. Foi contando sobre o quanto ela gostava de estudar, e de ler. Ela entendeu que o livro era emprestado. Disse-lhe que não, que era dela. Ela perguntou como iria pagar. Respondi que pagaria sendo uma ótima nutricionista. Ela sorriu e me disse que me traria as notas do semestre para eu ver.

No dia seguinte, retomamos a conversa. Ela já tinha lido parte do livro, estava feliz. E reiterou seu gosto pela leitura. “De que tipo de leitura você gosta mais?”, perguntei. Ela pensou... “Não gosto de romance... nem de poesia...” Fiquei surpresa. Ela achou por bem explicar “gosto da Clarice Lispector... e da poesia de Drummond...”. Que eu também gostava, comentei. Ela continuou “do Drummond eu gosto da melancolia...”. Aquela conversa ia me encantando cada vez mais. Então ela corrigiu “não é bem da melancolia... eu gosto é da falta de esperança... também não é isso, é da desesperança de Drummond que eu gosto”. E seus olhos brilhavam, apoiada no rodo, ao lado do balde com água suja.

Contou-me, então, que, depois de ter deixado a escola por alguns anos, voltou a estudar com o filho já adolescente. Terminaram o ensino médio juntos e entraram para a faculdade também ao mesmo tempo. Só que ele faz outro curso. Perguntei se ela já tinha lido Carolina de Jesus, ou Conceição Evaristo. Não tinha lido, mas conhecia, e sabia do teor de suas produções. Tinha interesse nesses escritos também. Mas gostava de livros que falassem sobre ciência, cientistas, e seu sonho foi alçando voo. Se ela gostava de ficção científica, perguntei. Que sim, respondeu, muito! Rimos juntas: "eu também gosto muito!"

Falou ainda um pouco sobre os filmes de que gosta. Citou alguns filmes sobre a vida de mulheres que a inspiram, referindo-se, sobretudo, a algumas mulheres cientistas.

Eu a abracei devagar, querendo voltar a sentir esperança. A esperança cuja falta era o que lhe causava encanto na poesia de Drummond.

 

 



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Duas pequenas histórias que me dão pistas sobre quem eu provavelmente seja

 



Pássaros feridos

Eu fazia regularmente o trajeto entre Goiânia e Brasília de ônibus. Nas idas e vindas, conheci pessoas, ouvi histórias, passei por dissabores...

Numa das viagens de Brasília para Goiânia, sentei-me ao lado de uma senhorinha bem idosa, que conversou animadamente comigo durante quase todo o percurso. Soube que ela morava sozinha, que as filhas iam diariamente vê-la. Que às vezes não era diariamente, mas estavam sempre por lá. Que gostava de ler. Que quando precisava sair, tinha um taxista que se tornara seu amigo... Quando estávamos quase chegando, ela ficou menos falante. Disse que a filha ou o genro estariam esperando por ela. Mas ao desembarcar, não os encontrou. Então me disse que precisava ir ao sanitário. Era um pouco longe de onde estávamos. Fui conduzindo suas duas malas e tentando ajuda-la na rampa longa que precisávamos descer antes de tomar o corredor ao final do qual estava o sanitário feminino. Ela entrou e eu fiquei, do lado de fora, cuidando da bagagem. O tempo passou. Sua demora já me despertava preocupação. Entrei levando as duas malas dela e minha mochila. Ela se olhava no espelho, tentando arrumar um casaco amarrado à cintura. Perguntou-me se aparecia alguma mancha por trás, em sua calça comprida. Observei com cuidado, não aparecia. Então ela me segredou que não conseguira controlar o intestino, e estava tentando disfarçar o pequeno desastre que acontecera. Estava tudo bem, lhe disse. E voltamos, devagar, para o ponto do desembarque. A filha com o genro ainda se demoraram um pouco para chegar. Nesse ínterim, ela anotou meu telefone. Quando ela, finalmente, encontrou-se entre os seus, nos despedimos. Alguns dias depois, ela me ligou, queria me fazer uma visita. Entre minhas atividades na universidade, aguardei por ela em casa, no meio da tarde de algum dia da semana. Ela chegou pontualmente, trazida pelo amigo taxista, que a aguardou. Veio elegante, sorridente. Estava feliz por me reencontrar. Eu também fiquei feliz por vê-la. Trouxe um pequeno pacote, que me entregou. Era um livro. Pássaros Feridos. Abri. Na primeira página, havia uma dedicatória da filha para ela, em celebração a uma data de aniversário de quase 10 anos atrás. Disse-lhe que eu não poderia receber o livro, pois era um presente que ela recebera da filha. Ela estava determinada: trouxera para mim, não o levaria de volta. A filha não daria pela falta do livro, nem perceberia. Ela tinha gostado muito e tinha certeza de que eu também iria gostar da leitura. Contou-me um pouco sobre o livro, falou-me um pouco sobre sua vida de idosa que vivia sozinha, perguntou um pouco sobre mim, e se foi.

Não me lembro mais do seu nome. Na dedicatória, a filha, que se chama Laura, refere-se a ela apenas como mãe, sem nomeá-la.

 

 

A balconista e o festival de cinema

Naquele ano, integrei o júri de um festival de cinema. Por isso, fui convidada para a abertura oficial do evento. Errei o horário, e cheguei uma hora e meia antes. A porta principal do teatro ainda estava fechada. Fim de tarde. No centro da cidade, era intenso o fluxo de pessoas encerrando suas jornadas de trabalho. Num calçamento à frente do teatro, sentei-me num banco público, fiquei observando o movimento. Logo sentou-se ao meu lado uma moça, alegre, à espera do namorado. Voltariam juntos para casa. Era balconista, contou-me, e estava com as pernas cansadas. Perguntada, contei-lhe que era professora e que aguardava para assistir à abertura de um festival de cinema. Tudo foi motivo de interesse para ela: eu ser professora, as artes, o cinema, o festival, o teatro. Embora trabalhasse ali do lado, nunca tinha entrado naquele teatro. Perguntou muitas coisas. E notou a equipe de reportagem recém chegada, com especial atenção ao repórter, que "era um gato", de acordo com sua avaliação. Rimos muito, abordando tantos assuntos de modo leve e despretensioso. Quando chegou o namorado, nos despedimos. Eu fiquei ali, observando as pessoas que começavam a chegar ao teatro já aberto ao público. Algumas dessas pessoas tinham estudado comigo, nos cursos de graduação ou na pós-graduação, outras trabalhavam comigo. Todas eram portadoras de uma atitude típica de intelectuais e artistas. Caminhavam com cuidado, os gestos eram quase performados. Talvez fossem mesmo. Tinham familiaridade não só com aquele espaço, mas também com os rituais que nele eram realizados. Comecei a sentir falta da balconista. Dei-me conta de que eu estava mais perto dela. Até pensei em me levantar e chegar ao hall do teatro. Se o fizesse, quebraria o encanto, encontraria pessoas, teríamos histórias para contar. Não consegui: fiquei ali, imóvel, sentada no banco de cimento, em meio à tarde que cedia espaço para a noite. Entendi que meu papel mais importante começaria no dia seguinte, nas sessões de projeção dos filmes que me caberia avaliar, ao lado de mais duas pessoas, formando o júri. Mexi-me no banco, quase inquieta. Faltando pouco para começar o ritual de instalação do evento, levantei-me, fui caminhando, devagar, para cada vez mais longe do teatro. Atravessei a avenida movimentada logo à frente. Depois outra rua um pouco menos movimentada, depois outras ruelas. Entrei à esquerda, à direita, outros semáforos, uma praça, uma rotatória, a calçada quebrada, buracos no asfalto, a brisa quase fresca com o início da noite... Cheguei em casa.

No dia seguinte, daríamos início aos trabalhos, normalmente.