domingo, 20 de dezembro de 2015

Duas mulheres, duas artistas, uma saudade

 p/ Selma Reis e Nilce Eiko

Ontem partiram duas mulheres cujos trabalhos estão entremeados à minha vida com doses especiais de afeto.

Nilce, nossa querida Eiko, uma artista sensível, que tive o prazer de conhecer numa sala de aula, eu, no papel de professora, ela, no papel de estudante, inquietas, ambas, aprendendo juntas.

Selma Reis, que não conheci pessoalmente. Apesar de não acompanhar amiúde seu trajeto como artista, saber de sua morte foi como ter apagada a voz que, em música, marcou partes da minha vida de modo indelével. Estranho sentimento...

Pela memória de Nilce, disponibilizo um vídeo com a música “Meu veneno”, de Milton Nascimento e Ferreira Gullar, cantada por Selma Reis.

vídeo disponível aqui


Pela memória de Selma Reis, cantora e atriz, disponibilizo uma imagem do trabalho de Nilce Eiko Hanashiro.



Porque a vida é finita, e finda, e somos frágeis, e estamos apenas de passagem...




             






segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Um estranho animal...

Foto: Gabriel Chaim
disponível em http://www.gabrielchaim.com/ 




Que animal estranho é esse, da espécie autorreferida como humana...

Constrói aparatos, complexas estruturas, geringonças de complicado funcionamento. Procria, ampliando a população em progressão geométrica. Destrói e mata ainda com mais velocidade. Destrói a si mesmo, aos próprios aparatos e estruturas. Mata representantes da própria espécie. Mas também mata e destrói animais de outras espécies, seus aparatos, suas construções.

E é capaz de sentar-se, em meio aos escombros, com olhar altivo, pleno de orgulho por seus feitos.

Esse animal me inspira medo...





segunda-feira, 30 de novembro de 2015

papel para carta...

Para minha mãe que hoje completa 88 anos,
e se ressente por não mais receber cartas...

Cheguei à papelaria, me aproximei do balcão. A moça, solícita, ofereceu-se para me atender. Você tem bloco de cartas? Ela me olhou de um modo estranho, como se eu tivesse pedido um quilo de carne assada, talvez. Envelope para cartas? perguntou-me, com uma entonação na voz que parecia mais querer corrigir um possível erro que eu teria cometido. Não, bloco para escrever cartas. Eu já começava a sorrir por dentro, tendo compreendido a situação. Ela me trouxe um bloco de anotações, com folhas quadradas, pequenas. Insisti: um bloco com folhas de papel para escrever cartas. Já viu algum? Ela parou, pensou. Buscou na memória alguma referência ao que eu lhe solicitava. Sentiu-se impotente. Há muito tempo não se vende papel para escrever carta... sentenciou.

Saí dali com uma certeza: voltarei a escrever cartas para postar via correios. E o primeiro desafio será encontrar blocos com papel de cartas.






domingo, 22 de novembro de 2015

O olhar daquele que vem de longe


Assim que embarquei e me acomodei na poltrona, ao lado esquerdo do corredor, o meu companheiro de viagem chegou, com uma mochila. Meio tímido, cumprimentou-me, e se acomodou. Chamou-me a atenção seu modo discreto, e o cuidado que teve em organizar-se sem invadir o espaço da minha poltrona. Perguntou-me a que horas chegaríamos a Goiânia. Constatei, ali, sua pouca familiaridade com o percurso da viagem.

Seguimos: eu, tentando cochilar um pouco, ele, atento à paisagem visível pela janela. Depois pegou um caderno de capa amarela, com um lápis desses que têm uma borracha embutida na ponta oposta à com a qual se escreve ou desenha, e começou a escrever. Confesso que fiquei curiosa, ante comportamento tão pouco usual.

Já fora da cidade, perguntei-lhe se era a primeira vez que iria a Goiânia. Sem nenhum sotaque, respondeu Sim, estou no Brasil há três dias, sou dos Estados Unidos. Talvez ante minha expressão de surpresa pela desenvoltura com que falava o português brasileiro, completou a informação Minha família é de Goiânia. Fizemos uma breve pausa no diálogo. Ele tomou a iniciativa Você sabe onde fica o Setor Pedro Ludovico? Pela primeira vez percebi o sotaque norte-americano. Sorri em silêncio: pronunciar o nome Pedro Ludovico não é mesmo exercício muito fácil para estrangeiros, mesmo os bem treinados, como ele. Respondi que sim, e tentei situá-lo em relação à rodoviária, onde desembarcaríamos. Alguém virá esperar por você? Sim, já o estavam aguardando.

Por vezes, fotografava alguma cena que lhe chamasse mais a atenção. Anotava coisas no caderno de capa amarela. Achei que ele gostaria de saber que em Anápolis havia uma réplica da Estátua da Liberdade. Ele riu Como a de Nova York? Confirmei. Já no viaduto, fotografou a réplica, achando divertido: Legal!

Seu olhar era inaugural: via, pela primeira vez, as coisas sobre as quais provavelmente ouvira falar desde sempre. Via, pela primeira vez, as paisagens das quais sua família original provavelmente sentisse saudades. Talvez sentisse saudades, ele, daquilo que não conhecera, mas soubera por outrem. Reconhecia a si e ao lugar ao qual pertencia sem antes ter estado ali.

Já desembarcados, desejei-lhe boa estadia. Ele ficou aguardando a liberação da bagagem. Segui, me perguntando se é possível restaurar o encantamento do primeiro olhar.