literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
domingo, 20 de setembro de 2015
Sobre borboletas e baratas
Para Afonso Medeiros
Meu querido Prof. Afonso Medeiros compartilhou,
recentemente, uma frase com a seguinte provocação: “Se você esmagar uma barata,
você é um herói. Se você esmagar uma borboleta, você é um vilão. A moral tem
critério estético.” Para colocar a provocação em negrito, acrescentou: "Um exemplo bem banal do porque, para alguns filósofos, a estética precede a ética..."
Como as baratas têm ocupado uma parte importante dessas
reflexões que vão me tomando quando o pensamento vaga, aparentemente à toa (mas
só aparentemente, pois ao fazê-lo vai tecendo possibilidades outras no
exercício de indagar sobre o mundo), a provocação me arrebatou. Por acaso, à
noite, na sala da minha casa, lá vinha, desde a varanda, uma barata adulta,
ligeira, ágil, fazendo uma curva, indo se esconder por baixo de uma prateleira. Todos essas passos foram executados de modo mais rápido que o meu reflexo, antes de eu constatar que eu estava descalço e não
tinha nada à mão para enfrentá-la. Iniciaria-se, então, uma atividade divertida na
noite: o duelo entre mim e a barata.
Definitivamente, baratas não são rudes, monstruosas,
grotescas. Ao contrário, são inteligentes, atentas, montam estratégias. Além disso,
pesquisadores (sim, há quem se interesse por pesquisar a vida das baratas!) têm
constatado que são gregárias não num sentido caótico como possa nos parecer (estupidamente antropocêntricos que somos), mas organizadas em núcleos familiares. E não suportam
ficar sozinhas. Se alguém quiser torturar uma barata até à morte, coloque-a
numa solitária. Ela não resistirá à tristeza da solidão. Pois bem: todas essas
coisas me ocorrem sempre que eu sigo para algum duelo com uma barata.
Essa, especificamente, depois de me ter escaneado, ficou
debaixo do móvel, na espreita. Se eu me distraísse, iniciava uma fuga, fazendo
corridas até certa distância. Avaliando o insucesso de sua tentativa, voltava
ao abrigo, mais rápida que da primeira vez. Por vezes, eu a percebia à sombra,
imóvel, me olhando. Qualquer movimento, e de novo desaparecia num vão qualquer.
Sempre à espreita. Ela, escondida, e eu, à luz, já munida de um par de chinelas à mão.
Agora, às minhas ponderações sobre a vida das baratas, veio
se somar a outra pergunta: e se fosse uma borboleta? Talvez eu me olvidasse do
mundo a observá-la, sem querer que ela deixasse o ambiente... talvez eu até me
lembrasse da lagarta feia, sem muito encantamento... mesmo assim, poucas seriam as chances
de eu me dispor a um duelo com ela.
Por que? Pensei que, na borboleta, as cores estão separadas,
organizadas, simétricas, vívidas, enquanto que, na barata, as cores se
misturaram, resultando naquilo que minha avó chamava de cor de burro quando
foge. Na borboleta, a dança das cores nos hipnotiza, enquanto que, na barata, o
tom marrom da mistura nos afasta, lembrando caos, sujeira, mistura
descontrolada...
Buscando a etimologia da palavra estética, chegamos à noção
de experiência profunda, ou impactante sobre os sentidos. Ora, uma e outra
proporcionam experiências significativas aos nossos sentidos: encantamento e
repulsa. O belo e o feio.
Então o velho filósofo Flusser me vem em auxílio, com suas não menos inquietantes provocações. No livro que compila as últimas aulas ministradas na Alemanha pouco antes de sua morte, ele indaga sobre o sentido e o lugar da arte no cenário contemporâneo. Constrói, então, o fio de seu raciocínio, a partir da ideia de que a arte seja uma experiência capaz mudar nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, a partir do modo como impacta os nossos sentidos, ou seja, pela experiência estética. Nesse ponto, ele indaga qual teria sido a obra humana que mais fortemente teria afetado os nossos sentidos, no século XX, de modo a alterar nossa percepção do mundo. E responde: a bomba atômica. Desafiando artistas e estetas, ele constata que a obra de arte mais potente produzida pela humanidade nesse século teria sido a bomba atômica.
Então o velho filósofo Flusser me vem em auxílio, com suas não menos inquietantes provocações. No livro que compila as últimas aulas ministradas na Alemanha pouco antes de sua morte, ele indaga sobre o sentido e o lugar da arte no cenário contemporâneo. Constrói, então, o fio de seu raciocínio, a partir da ideia de que a arte seja uma experiência capaz mudar nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, a partir do modo como impacta os nossos sentidos, ou seja, pela experiência estética. Nesse ponto, ele indaga qual teria sido a obra humana que mais fortemente teria afetado os nossos sentidos, no século XX, de modo a alterar nossa percepção do mundo. E responde: a bomba atômica. Desafiando artistas e estetas, ele constata que a obra de arte mais potente produzida pela humanidade nesse século teria sido a bomba atômica.
A visão do cogumelo resultante da bomba é recorrente em
nosso imaginário. Aterroriza e seduz ao mesmo tempo. Lembra o quanto somos
cruéis, perversos, mesmo quando não admitimos. É a prova cabal da ausência de neutralidade do conhecimento científico. E no artístico também. Escancara a nossa
finitude da pior e mais bela forma.
Ao pensar na bomba e nos corpos humanos que se desfazem pelo
efeito da radiação, volto à barata, à espreita, debaixo do móvel da sala. Se a
bomba pode eliminar a espécie humana, e também as borboletas, no bolo dos 90%
das espécies viventes da face do planeta, elas, as baratas, ao menos a maioria
delas, teriam mais chances de sobreviver, exatamente pelos hábitos que nos causam
repulsa: habitar esgotos, andar por frestas, espreitar às escondidas. E por sua enorme e invejável capacidade de
adaptação.
A possibilidade de que elas sobrevivam a nós reforçaria o desejo
de extingui-las, numa espécie de raiva movida pela inveja, mesmo que de modo
não consciente?
Aquela barata, a minha visitante noturna, em particular,
poderia até sobreviver à bomba. Mas não sobreviveu ao impacto da minha chinela,
depois de uma longa dança de idas e vindas, tentativas frustradas de fugas, e
pacientes observações mútuas. Não me sinto heroína. Apenas acrescentei um ponto
a mais nos duelos travados com sua espécie, à qual destino profundo respeito. A propósito, nesse duelo, tenho bem menos pontos que elas, vencedoras na maior parte das vezes. Aliás: vencedoras hors concours, pois sobreviverão à nossa espécie!
Nenhuma borboleta veio visitar as flores da
minha varanda, ultimamente.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
sábado, 15 de agosto de 2015
Queimem a bruxa na fogueira!
Nem faz tanto tempo assim. Na Idade Média, período ao qual
os "iluminados" dos séculos XX e XXI chamam, também, de Idade das Trevas, um dos
eventos recorrentemente lembrados como exemplo da ignorância imperante à época é a caça
às bruxas. A bem da verdade, embora se atribua à Idade Média, a caça às bruxas
aconteceu na Europa do início do período moderno, do final do século XIV ao
começo do século XVIII. Destaca-se o fato de que a Suíça tenha sido o país
europeu que mais promoveu execuções (muito pouco se fala disso...), e Friburgo
foi terceira cidade europeia no ranking de execuções. Foi também uma das
primeiras cidades a instituir os processos por bruxaria sem a assistência de
inquisidores religiosos.
Era preciso haver uma confissão, para que uma bruxa fosse condenada.
Mas não era muito difícil fazer uma mulher confessar práticas de bruxaria. Bastava
quebrar-lhe as pernas, arrancar-lhe as unhas, afogá-la. O suplício da tortura
era tão insuportável, que a fogueira comparecia como uma possibilidade
de libertação do inferno. (Sem dúvidas, foi uma escola inestimável aos centros
de tortura física existentes ainda hoje).
Não raro, as narrativas a esse respeito reportam a
ignorância vigente e a manipulação da igreja, resultando, entre tantos fatos,
em cruéis atos punitivos de cunho religioso. Mulheres que desenvolvessem quaisquer
práticas consideradas estranhas, diferenciadas, podiam ser apontadas como
bruxas. Acusadas, muitas eram levadas à fogueira, pois a morte pelo fogo seria
a única forma de depurar e salvar o espírito corrompido pelo corpo.
Estima-se ter havido entre 40 mil e 100 mil execuções em
quatro séculos, na Europa. Provavelmente, mais de meia centena de milhares de mulheres
foram queimadas vivas em fogueiras públicas, por se atreverem a desenvolver
práticas desaprovadas pelos homens santos da igreja, pelos senhores do poder. Uma
história inequívoca e trágica de discriminação e exercício do poder masculino
no jugo das mulheres.
Mas há de se notar: essa história não acabou...
Mudam os séculos, mudam os modos de organização social,
mudam os homens santos (que são sempre homens...), mudam as igrejas, mudam
os sacerdotes e os senhores do poder (que são sempre homens...). Mudam as
fogueiras e as práticas de bruxaria... Mas não mudam as relações de poder.
No Brasil, o machismo ganha feições variadas, muitas vezes
dissimulado, mas também configurando assustadores dados estatísticos na forma em violência explícita, de ordem física ou moral.
Neste momento,
uma bruxa está sendo levada à fogueira. Para legitimar o ato, os santos (?!!) sacerdotes convocam
o clamor popular. Pergunto: que crimes cometeu a bruxa? Vamos lá, deixemos a razão conduzir nossa reflexão. Ela não terá cometido mais crimes, nem piores, do
que os cometidos pelos homens que a precederam, ou pelos que a sucederão. (Sim,
ela será sucedida por homens: eles decidiram que se acabou a brincadeira...). O crime maior dessa bruxa em julgamento sumário foi,
sendo mulher, atrever-se a querer jogar o jogo dos homens, com os homens. Bruxa!
Não vai aqui nenhuma defesa de todos os encaminhamentos
equivocados, de todas as besteiras e desfaçatezes que ela tenha cometido à
frente do cargo maior do Poder Executivo da República do Brasil. No entanto,
não dá para disfarçar o fato de que o julgamento e a sentença para a primeira
mulher presidente no país são muito mais impiedosos do que seria para um homem
no mesmo posto e situação. Mais que isso: o julgamento e sentença são
presididos pela Santa Inquisição Masculina, à qual a maior parte da população se submete, emocionalmente
conduzida. O chamado "coro popular" é formado por vozes de homens que defendem seus lugares de mando e vozes de mulheres
submissas, embora se creiam senhoras de seus destinos.
Que a Presidente da República seja chamada à razão, sim! Que
cada segmento da sociedade brasileira assuma sua parcela de responsabilidade no
tocante ao momento crítico pelo qual passamos neste momento, sim! Que assumamos,
cada brasileiro, a responsabilidade pela nossa omissão, pelo nosso quinhão (por
menor que seja) de participação na mentalidade corrupta que grassa, sim!
Definitivamente, eu não sairei às ruas neste 16 de agosto de
2015, nem no dia 20, nem atenderei qualquer outro chamamento para conduzir a
bruxa à fogueira! Não tomo parte de qualquer prática persecutória,
discriminatória. Não me coloco no lugar de nenhum juiz do tribunal da Inquisição.
De meu gesto não resultará nenhuma bruxa na fogueira.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
tempos de delação premiada...
p/ minha querida Laura Coutinho
Tempos de perplexidade, estes
quando os que cometem crimes ainda podem ser premiados caso aceitem o papel de delatores...
E todos pronunciamos a expressão "delação premiada", atribuída a condenados e suspeitos, sem pensar sobre suas implicações...
Enquanto isso, cidadãos cumpridores da legislação vigente, e atentos às normas sociais, cada vez mais amiúde encontram-se ao desamparo do Estado, da justiça, dos órgãos de proteção a quem quer que seja...
Compreender é um exercício a nos convocar... mas talvez nem consigamos atender à convocação...
Esboçar marcadores éticos nesse contexto? Trata-se de desafio fadado ao insucesso, ao menos a curto prazo...
Urgente, mesmo, é descobrir como sobreviver... com alguma sanidade, se possível...
Quem viver, verá...
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