terça-feira, 28 de julho de 2015

De não saberes


Não sei falar mandarim
Não sei calcular viagens à Lua
Não sei quantas colônias de bactérias habitam meu corpo
Não sei fazer sapatos, nem ternos, nem chapéus
Não sei consertar redes elétricas, nem construir pontes, nem implodir edifícios

Não sei o que vim fazer aqui...

Na lista das coisas que não sei, talvez o primeiro item deva ser:
Não sei quais são todas as coisas que não sei

E esse não saber é o maior de todos...




sexta-feira, 24 de julho de 2015

CARTA AOS ESTUDANTES DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS



Desde maio último os funcionários das áreas técnicas e administrativa estão em greve, com as atividades paralisadas. Reivindicam questões salariais, mas também têm em pauta as condições de trabalho. Nesse período, quase ninguém percebeu os efeitos da greve por eles deflagrada, pois quase tudo continuou funcionando minimamente, quase dentro da normalidade, apesar de todos os problemas que já se apresentavam. Nesse mesmo período, em muitas universidades federais o movimento grevista foi deflagrado também pelos professores, dadas as condições absolutamente precárias do ponto de vista dos orçamentos e funcionamento em geral com que as instituições estão operando desde o início do ano. Alguns poucos meios de comunicação têm se dignado a divulgar alguns dados a respeito. Mas muito menos do que deveria ser...

A cada passo, as informações que chegam aos gestores das instituições federais de ensino superior, seus funcionários e professores, aumentam a preocupação e evidenciam a inviabilidade de manter minimamente o funcionamento regular.

Não tenhamos dúvidas, nem alimentem ilusões: a universidade que todos esperam encontrar no retorno do recesso não será a mesma que foi deixada ao final do primeiro semestre. O profundo corte orçamentário terá repercussões graves, cuja abrangência eu ainda não consigo imaginar, mas, sabemos, é muito extensa.

Na UFG, muitos funcionários terceirizados já foram demitidos. Pessoas com quem trabalho há quanto tempo, em agosto, já não estarão lá. Os serviços por eles prestados estão paralisados, ou serão paralisados em seguida. Muitas atividades desenvolvidas por professores como parte obrigatória de suas atuações no tripé docência/pesquisa/extensão estão suspensas (seriam mantidas às custas dos próprios professores?...).

Fazer de conta que nada disso esteja acontecendo é, no mínimo, tapar o sol com a peneira. Neste momento, é necessário pensar sobre o que seja o efetivo exercício de cidadania. É necessário pensarmos nosso papel social e nossas tomadas de posição em relação aos projetos de sociedade que pretendamos defender. Ressalto: defender na ação, não em discursos oportunistas, nem nos bate-bocas das redes sociais...

Este é um momento propício para a defesa da universidade, de seus projetos, das condições efetivas de formação de profissionais em nível superior e em pós-graduação, por todos os segmentos da comunidade que integram a UFG. Tomar parte nesse processo também é formação, na compreensão de uma formação mais ampla, efetivamente engajada.

Em lugar de se disseminarem lamentações e queixas sobre o que esteja, ou não, funcionando, lamúrias vitimizadas e vitimizantes, está na hora de se assumir o lugar responsável de cada um no projeto da educação pública de qualidade, e se defender a instituição onde, por excelência, ela possa ser promovida.

Por essa razão, há um indicativo de greve dos professores a ser iniciada no dia primeiro de agosto, somando-se à greve já em curso dos funcionários administrativos e técnicos. Não, não se tratam de férias prolongadas. Não, não queremos a universidade parada. Ao contrário. Será preciso que todos – professores, estudantes e funcionários das áreas técnicas e administrativas – ocupemos a universidade. Será preciso que, juntos, possamos discutir, perguntar sobre as condições necessárias para assegurarmos a universidade que queremos, a nossa universidade. Não percam de vista: os estudantes fazem parte disso. Não se omitam, neste momento!

Por fim, pergunto a vocês: A quem interessa a universidade inoperante?






terça-feira, 21 de julho de 2015

O que se pode aprender com uma postagem sobre dillenia, no facebook?



Na plataforma digital de relacionamento social, pululam questões, denúncias, declarações, afetos e desafetos, notícias, as últimas descobertas científicas, e também as mais falsificadas... também pululam os grupos com bandeiras as mais diversificadas, cujos membros empunham gritos de guerra no mais das vezes sem sequer compreender-lhes os sentidos...

Foi assim que, fazendo parte de um dos incontáveis grupos ativos, deparei-me com uma questão que me despertou o interesse, por tratar-se de assunto diretamente vinculado à minha própria experiência. Um dos membros postou a foto de uma fruta pouco conhecida, perguntando se alguém lhe sabia o nome.

Há tempos venho observando a planta que dá essa fruta. Suas folhas são plissadas, as flores são belas, e os frutos são, no mínimo, instigantes. Da primeira vez quando me deparei com ela, fui em busca de seu nome e histórico. Levantadas as informações, delas me esqueci, e perdi suas pistas. Como tem sido recorrente em nossas vidas, hoje em dia.

Feita a postagem, rapidamente algumas pessoas começaram a tentar respostas à pergunta do internauta, alternando nomes com imagens de outras frutas. Desde o meu olvido, comecei a acompanhar as tentativas, em silêncio. Mas logo percebi que as pessoas não sabiam de que planta se tratava, e estavam atribuindo a ela nomes e referências erradas. Fiquei aflita, pois conhecendo a planta, sem lhe saber o nome, não conseguia encontrar referência nos buscadores da rede mundial de computadores. Fiz uma única postagem, advertindo que não era nenhuma das plantas já referidas, que se tratava de uma planta de origem asiática (disso eu me lembrava), e, portanto, não era nativa. Mas alguns ainda insistiam em plantas nativas, apesar da minha observação.

Até que alguém, mais curiosa que eu, e mais sistemática, já fizera uma pesquisa sobre a planta, e disponibilizou, na postagem, todas as informações: nome científico, nomes populares, ciclos, origem, características, etc. Ufa! Como é bom encontrar alguém que tem a resposta buscada, e disposta a partilhar as informações. Essa foi a primeira aprendizagem mais importante decorrente da postagem em questão.

O que parecia resolvido, no entanto, acabou revelando outro complicador, este talvez insolúvel, relativo ao comportamento em rede.

Apesar da resposta dada, da questão esclarecida, sem deixar margens para dúvida, as pessoas continuaram escrevendo respostas sem ler as anteriores. Assim, muitos insistiam em atribuir nomes errados à imagem do autor da postagem, postavam outras imagens, comentavam propriedades de outras frutas, perguntavam sobre a original, e ainda, enfatizando seu interesse na questão, pediam a alguém que esclarecesse a questão (já esclarecida...).

Vez e outra, o autor da postagem advertia seus leitores e seguidores que a questão já estava resolvida, bastava que lessem os posts anteriores, e, gentilmente, repetia a resposta. Mas, indiferentemente ao fato de a resposta estar ali, à vista de todos, os demais prosseguiam fazendo sugestões, pedindo respostas.

O episódio mostrou-me, de modo a não deixar dúvidas, o quão superficial tem sido a leitura de informações feita pela esmagadora maioria dos usuários das redes digitais. Emitem-se pareceres, julgamentos, sentenças a partir da apropriação de uma ou duas frases, palavras, sugestões encontradas aligeiradamente no início ou fim de alguma postagem.

A suposta multifonia propiciada pelas redes sociais em ambiente digital resulta, de fato, de um exercício insano de falar, de postar mensagens, sem que se leia, sem que se busque estabelecer relações mais substanciais com as falas/postagens dos demais.

Esta, a segunda grande aprendizagem resultante dessa postagem. Dela, também fui tomada por alguns sustos e preocupações. Dentre essas, a constatação de que as questões coletivas, na melhor das hipóteses, reunindo pessoas com as melhores intenções, ganham esse tipo de discussão...

Mad times... os dessa toada...

Replico os três últimos comentários, registradas às 9:45 do dia 21 de julho. Outros virão, por certo. Mas estes dizem bem da insanidade revelada a partir dessa postagem:

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Resposta n – Por favor, quando descobrirem, postem dizendo que fruta é, e se é comestível.
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Resposta n + 1 – Gente. A pergunta foi respondida a muito tempo leiam as postagens mais antigas. A planta chama - se Dillenia indica. É uma planta exótica do sudeste asiático. Sim ela é comestível mas por ser fibrosa a melhor forma de come-la é fazendo suco ou geléia. Não é cagaita nem marmelo!!!!!. Parem de perguntar e leiam os posts antigos!
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Resposta n + 2 – Esta fruta se chama FRUTA PAO. a massa dela serve para colocar na farinha quando o pao esta para ser amassado.
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Desesperador...