sábado, 25 de outubro de 2014

terceira nota sobre fronteiras

...
cada um acredita naquilo que escolhe acreditar
e depois esquece que se trata de escolha
e transforma as crenças em verdades não negociáveis

o problema não está nas crenças
mas no seu tratamento como verdades acima de todas as contingências
essa é a fronteira onde tudo começa a se complicar...
...



domingo, 19 de outubro de 2014

da série "pausas necessárias"... 2




... e depois que o sol baixa um pouco, e diminui o calor, bom mesmo é ficar ali, sentada na calçada, passando a limpo a vida dos outros, contando conversa fiada, em boa companhia. Até de noitinha...




da série "pausas necessárias"...




... porque já se iniciou o horário de verão, e o calor passa dos 35ºC...






sábado, 18 de outubro de 2014

el olvido...



Hay quienes imaginan el olvido
como un depósito desierto / una
cosecha de la nada y sin ambargo
el olvido está lleno de memoria

(¿Cosecha de la nada?
Mario Benedetti,
 en El olvido está lleno de memoria)




quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Roteiro para pássaros




No andar superior, a luz natural não entra no corredor que se estende ao longo de todo o edifício, ligando as escadas localizadas nos extremos. Com pé direito alto, há duas fileiras de sancas no teto, rasgos no gesso, com lâmpadas fluorescentes que ficam acesas o dia todo.

Um pássaro desavisado, explorando seu território, senhor das artes do voo, entrou no prédio pelo vão lateral, próximo às escadas, alcançando a área do corredor. Sem encontrar o que lhe valesse a pena, decidiu sair dali. Orientado por suas crenças, seguiu a luz: supunha que a luz o levasse ao espaço aberto. Voou para o alto, e entrou na última sanca do corredor, de onde a lâmpada fluorescente oculta fazia jorrar luz. Ficou ali, sobressaltado com os sons do lugar, os movimentos. Batia-se contra a parte superior da sanca. E pousava novamente na borda, sempre perto da luz. A luz era sua segurança. Mas também sua prisão. Melhor falando: sua crença na luz era sua prisão.



Algumas pessoas deram-se conta de sua presença. Alguns, habituados a compartilhar fotos de animaizinhos qualificados como fofos, encantavam-se com o bichinho naquele espaço. “Olha o passarinho! Que lindinho!”. Outros questionavam “Como ele vai sair?” Mas todos estavam muito ocupados para deter-se no próprio percurso, compreender o trágico da situação, e buscar alguma solução.

Eu o encontrei já no segundo dia de sua saga. O segundo dia, da escala humana, deve corresponder a alguns anos na escala de passarinhos, imagino. Minha primeira providência foi desligar a luz da sanca. Imaginei que ele pudesse ser provocado a buscar outra fonte de luz, e assim sair dali. Contrariando minhas expectativas, na sombra ele acalmou-se, aninhou-se a um canto. Acho até que dormitou, por ali. Corredor escuro, logo passava alguém, e acendia a luz. O pássaro voltava à agitação. Depois da terceira ou quarta tentativa, percebi que minha estratégia estava fadada ao fracasso.

No final do dia, o pássaro estava lá, agitado, debatendo-se na extensão da sanca iluminada pela luz fluorescente. Pessoas passavam, olhavam-no, faziam comentários de compaixão, e seguiam seus rumos. A falta de compreensão, por parte do pássaro, sobre a contingência que o aprisionava, a crença que o mantinha nos limites estreitos da sanca, a certeza do aprisionamento não percebido como tal, tudo isto me comoveu, e me conectou ao pássaro. Pensei nas nossas próprias crenças a nos impedir de compreender nossas condições, nossos aprisionamentos, fontes de angústia e aflição. Fiquei ali, por algum tempo, acompanhando sua movimentação. A fadiga ia tomando conta do corpo miúdo.





Lembrei-me de perguntar à moça que cuida da limpeza sobre a existência de alguma vassoura para faxina do teto, com cabo mais longo. Ela compadeceu-se do pássaro. Foi preciso amarrar dois cabos à vassoura, para alcançar, precariamente, a área da sanca. O pássaro sentiu-se ameaçado, agitou-se ainda mais nervosamente, fugiu por trás da vassoura, passando rente à lâmpada. Cheguei a pensar que a tentativa também resultaria em insucesso. Mas um estudante, que também vinha observando a situação, começou a trabalhar com a vassoura. Apagamos a luz. O pássaro saiu da sanca, para entrar na sanca vizinha.

O pássaro voava sempre para cima, e em direção à luz. Ele acreditava que assim conseguiria sair. Suas crenças o aprisionavam. Era preciso força-lo no sentido oposto às suas crenças, para retirá-lo dali. Se não conseguíssemos, ele morreria. O rapaz considerou a possibilidade de machuca-lo, como forma de fazer com que ele descesse. Pensei que talvez não fosse uma boa ideia. Um pássaro ferido precisa de cuidados para sobreviver. Sobretudo depois de ter passado por uma situação estressante. Mas qual a opção alternativa àquela?

O rapaz empunhou o longo cabo da vassoura com firmeza e ternura, hábil como quem empina pipa. Foi determinado. O pássaro enredou-se na vassoura, saiu da sanca, desequilibrou-se, entregou-se, veio ao chão. Antes que chegássemos até ele, alçou voo numa diagonal, em direção ao final do prédio, onde o vão aberto ofereceu-lhe a noite fresca, varada pelos cantos das cigarras, e pelas conversas dos estudantes do terceiro turno.

À porta de saída do prédio, um cão sujo, sem dono, dormia sobre o tapete tão encardido quanto seu próprio pelo, indiferente às conversas e movimentações em redor. Livre, talvez...

Quem, à minha revelia, usará da força para, contrariando minhas crenças, me libertar de todas as sancas nas quais tenho me metido, e permanecido, no decurso do tempo?









domingo, 28 de setembro de 2014

Carta a Lutiere, Taísa e Gabriel


Desde pequena, fui dada a algumas esquisitices (quem não terá sido, afinal?). Uma delas está numa espécie de adiamento para adentrar situações muito desejadas, ou carregadas de afeto. À maneira daquelas pessoas que deixam a melhor parte da refeição para degustar ao final. Assim, podem prolongar a memória do sabor nas papilas.

Por exemplo, quando eu tinha 6 anos, e ganhei a boneca dos meus sonhos, demorei-me vários dias para pegá-la, admiti-la como minha, e supor a possibilidade de brincar com ela. Na verdade, a boneca estava muito além do que, em meus sonhos, eu fora capaz de imaginar. E isso me arrebatava. O casal que ma deu tinha a expectativa que eu me lançasse sobre o presente, abrisse a caixa, e saísse dançando com a boneca que tinha quase o meu tamanho. Penso que, no primeiro momento, tenham ficado frustrados ante o meu recuo. Eles não podiam perceber as alterações no meu batimento cardíaco, os sentidos à flor da pele, e a convulsão que se passava nos embates entre os sonhos, a imaginação e a visão do que se abria à minha frente, anunciado como "presente para mim". Passado o embate, cerca de um mês depois, eu já circulava pelos campos levando minha companheira em passeio.

Coisa parecida ocorreu, novamente, no começo deste mês de setembro, quando fui surpreendida por um encontro marcadamente especial na beleza e no afeto. Estar ao abrigo de Lutiere, Taísa e Gabriel, em Santa Maria, foi um privilégio. Lutiere e Taísa me perdoarão, mas o lugar de honra nesse espaço afetivo é do Gabriel, sem dúvidas. No dia da partida, Lutiere presenteou-me com uma embalagem dentro da qual, descreveu-me, havia dois desenhos assinados por ele: um retrato do Gabriel, para mim, e outro desenho para Carla, querida amiga em comum. A embalagem fora feita com tamanho cuidado, que se assemelhava a um casulo. Agradeci o acolhimento, o presente, e parti, trazendo o volume, sem saber muito ao certo como me portar com ele, certa de que ali pulsava sensibilidade.

Chegada à minha residência, acomodei o casulo entre objetos de valor, e adiei qualquer ação a ser feita em relação a ele. Algum tempo depois, justifiquei-me com a decisão de só abri-lo em companhia da Carla, conquanto seu conteúdo também se destinasse a ela. 

Quase um mês transcorrido, finalmente, rompi as cascas sobrepostas, para revelar o conteúdo daquela estrutura casular, ante os olhos ansiosos de Carla, que tomou posse do seu desenho, cujos traços ela já conhecia por meio de fotografia. E eu me comovi, mais uma vez, ante a visão das feições do meu pequeno amigo Gabriel, abraçado ao seu gatinho. Também ante a visão de traços ao mesmo tempo delicados e fortes, marcados e sutis, explodindo cores e texturas, latejantes. O artista e o pai, entrelaçados num só, transpiram em cada centímetro quadrado do desenho. E eu transbordo de gratidão e afeto sendo destinatária desse mimo.

Hoje pela manhã, fui despertada por revoadas barulhentas de maritacas. Manhã alegre, cheia de vida. Que o seu domingo seja assim, também.


Retrato de Gabriel (detalhe). Desenho de Lutiere Dalla Valle.