literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
sábado, 28 de abril de 2012
quinta-feira, 26 de abril de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
sábado, 21 de abril de 2012
Insone
Para J. Bamberg
Havia uma espécie de descompasso entre sua percepção da
passagem das horas, dos dias, e o tempo marcado nos relógios, nos
calendários...Talvez por isso mesmo, ele se cercava de aparatos que marcavam a
passagem do tempo: ponteiros analógicos com suas setas agudas apontando
segundos e minutos, luzes digitais pulsando horas, tabelas numéricas cartesianas
entrecruzando informações sobre dia da semana e do mês. E lembretes anotados
manualmente, fixados na geladeira, sobre a mesa, em bloquetes, papéis soltos,
desgarrados ao tempo-vento... Tudo em vão: o relógio sempre marcava uma hora
que ou era muito mais cedo ou muito mais tarde do que ele imaginava. E na
folhinha, ele nunca sabia ao certo o dia do mês ou da semana.
Acontece que ele se ressentia de uma acentuada
sensibilidade para o emaranhado entrecruzamento de muitas linhas de tempo, suas
tensões, suas dores, suas expectativas, suas memórias. Suas histórias humanas, demasiadamente humanas... As linhas, tantas, e nem
um pouco retas, diluíam-se umas nas outras, confundiam-se e à sua própria
percepção. Talvez cada relógio pudesse ser escalado para marcar um desses
tempos. Mas relógios não sabem marcar outra coisa que não o tempo esquadrinhado
para organizar dias em 24 horas, horas em 60 minutos, minutos em 60 segundos. Esse
esquadrinhamento não acolhe emaranhados temporais de tantas existências,
desejos, desenhos, sonhos, dores... dores noite a dentro, reivindicando da
consciência que se mantenha desperta, que não repouse, que não se entregue.
Afinal, parece mesmo é que todos os relógios e
calendários contam, gota a gota, dias marcados por dores. Dias que se prolongam
em noites insones, em horas cuja extensão não é medida em minutos, mas em
esperas. E ele se perde dessa contagem, sonhando com tempos outros, quando também
não dormia, atravessando as noites em coreografias dançadas, em bailes gososos
banhados a músicas cujo compasso acompanhava os batimentos do seu coração.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
Jamais saberemos como seria se não tivesse sido como foi... ou: a flecha do tempo é irreversível.
Para Pina Bausch, Win Wenders e Christina Garcia
Marília, a louca da corte. Teatro Garagem. Brasília.1987.
Direção: Delson Antunes
No elenco: Ivan Marques, Muna Amad, Moisés, Dina Brandão, José Alves Neto, Feitosa, Kalissa Nawá.
Direção: Delson Antunes
No elenco: Ivan Marques, Muna Amad, Moisés, Dina Brandão, José Alves Neto, Feitosa, Kalissa Nawá.
Roqueiros, prostitutas, suicidas, figuras góticas, noivas abandonadas, políticos decadentes circulavam entre andaimes de uma construção jamais terminada. Desfiavam versos que brotavam dos submundos da capital federal, nos estertores da ditadura militar. A corte habitada por Marília louca...
Durante o espetáculo, num certo momento, eu saía do palco, e me posicionava ao lado da plateia. Os demais atores desenvolviam a cena, preparando o ambiente para que eu começasse a interação com pessoas do público. Quando um rapaz vestido de policial subia na plataforma mais alta, eu sabia onde cada um estava posicionado, e esperava pelo som seco da chave sendo acionada pelo operador da mesa de luz. Palco e público eram inundados por luz. Aproveitando o susto, eu saía, atirando perguntas aleatoriamente, contra uma e outra pessoa. Esbravejava. Na próxima vez que eu for a Brasília, eu trago um rato do cerrado para você!
Fazia uma meia lua, e ia retornando aos poucos para o palco. Eu não precisava olhar: sabia para onde cada um tinha seguido, enquanto eu executava a cena. Dávamos curso ao espetáculo, formando uma espécie de escada humana, que era escalada por outra atriz, enquanto declamava versos desesperados. O momento já era outro, outra tensão, outra intenção.
Durante o espetáculo, num certo momento, eu saía do palco, e me posicionava ao lado da plateia. Os demais atores desenvolviam a cena, preparando o ambiente para que eu começasse a interação com pessoas do público. Quando um rapaz vestido de policial subia na plataforma mais alta, eu sabia onde cada um estava posicionado, e esperava pelo som seco da chave sendo acionada pelo operador da mesa de luz. Palco e público eram inundados por luz. Aproveitando o susto, eu saía, atirando perguntas aleatoriamente, contra uma e outra pessoa. Esbravejava. Na próxima vez que eu for a Brasília, eu trago um rato do cerrado para você!
Fazia uma meia lua, e ia retornando aos poucos para o palco. Eu não precisava olhar: sabia para onde cada um tinha seguido, enquanto eu executava a cena. Dávamos curso ao espetáculo, formando uma espécie de escada humana, que era escalada por outra atriz, enquanto declamava versos desesperados. O momento já era outro, outra tensão, outra intenção.
Na minha sequência, enquanto aguardava o momento de interagir
com a plateia, de fora, por um instante, eu podia observar o espetáculo,
antevendo os movimentos de cada um. Eu já houvera internalizado toda a dinâmica
das cenas, as passagens de uma para a outra, e as sequências todas. Podia fechar
os olhos, e imaginar o espetáculo do início ao fim. No entanto, me inquietava constatar
que, enquanto estava ali, observando os demais, eu vislumbrava um espetáculo
que não era o mesmo vivido, experimentado, imaginado pelos outros atores do
elenco. Mesmo com os olhos fechados, não podia imaginar de outro modo que não desde
o lugar que eu ocupava - o que eu conhecia, o que minha memória reconhecia. Qualquer esforço para perceber o espetáculo do ponto de
vista dos demais era em vão: o ponto de vista de outro, que não o meu, se me
escapava, mesmo que eu já trouxesse, inscrita no corpo, a cartografia dos movimentos, dos percursos de cada um, entrecruzando-se com os meus. O bailado
que executávamos, eu o reconhecia sempre a partir de mim. E isso me soava quase
como sentença, condenação, prisão.
Como seria ver a cena em que eu interagia com o público
desde a plataforma ocupada pelo ator vestido de policial? Ou do posto ocupado
pela menina que subiria a escada humana, e já se preparava para isso, enquanto
eu executava minha cena? A totalidade escapa entre os vãos da minha percepção...
Mais que isso: se, em lugar de seguir um percurso, eu
seguisse outro, em que eu teria alterado o curso dos fatos? Não é possível
saber, pois não há como verificar, comparar as diferentes possibilidades em
igualdade de condições, inclusive as temporais.
A flecha do tempo é irreversível, e não há qualquer
simetria possível nas experiências humanas. Nas não humanas? Jamais saberei...
domingo, 15 de abril de 2012
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