domingo, 4 de março de 2018

Exercícios de alteridade: abelhas e pessoas


Para Rutinha, meu amor


Abelhinha, o que você está fazendo aqui?

Abelhinha, sai daí! Me deixe trabalhar!

Abelhinha, abelhinha, você está arriscando sua pele... tô avisando... tô com vontade de lhe dar uma panada...

Abelhinha! Eu vou encerrar você dentro do armário! Sai daí!

Ai, ai... ela é completamente surda!

Você voltou? Rapaz! Bichinho teimoso!

Oh, minha filha, eu tô armada! Se eu fosse você, tomava cuidado comigo! (com uma faca na mão, enquanto cortava legumes...)

Ah, então você vai sentar na panela quente? Senta! Problema seu. Eu não tenho nada com isso...

Acho que ela ouviu...



Conversas matinais da minha irmã, nas lidas na cozinha, enquanto umas três abelhas voejam, procurando alguma matéria prima para fazer mel...






quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Árvore



Foto: Renato Cirino, 2018


Árvore
Manoel de Barros

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus
seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul
E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.












terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Chama a polícia! Ou chama o caminhão da coleta de material reciclável!


Era cedo ainda. Ouvi várias pancadas contra alguma superfície densa de metal, acompanhadas de vozes masculinas exaltadas. Havia uma briga em curso. Uma das vozes ganhou mais volume que a outra, gritando Polícia, polícia, polícia! A discussão teve prosseguimento, e algumas vezes a polícia era evocada, em vão. A briga foi perdendo volume, até que a rua retomou relativa calma.

Algum tempo depois, repetiram-se as pancadas. Vozes exaltadas voltaram a reverberar entre os edifícios. Dessa vez, uma voz masculina e outra feminina. A mulher não chamou a polícia, mas exaltou-se muito, aos gritos, com xingamentos de toda ordem.

Algumas pessoas aglomeraram-se à beira de uma calçada, para ver o que se passava, fora do campo de visão desde o vão entre os prédios.

Ao longe, a música ligeira do caminhão de lixo reciclável sinalizava sua passagem. O som aproximou-se e foi se distanciando, rapidamente.

Não demorou para que mais uma vez se ouvissem pancadas, e uma terceira voz, também feminina, bradasse em confronto com a mesma voz masculina.

Ao longe, o som do caminhão que coleta lixo reciclável continuava seu caminho, acompanhado da música inconfundível.

Cerca de duas horas depois, o som da sirene da viatura policial ocupou todo o espaço entre os edifícios, e em torno, e além. Já não havia pancadas, nem gritos...

Em que dias passa o caminhão de coleta para a reciclagem da sociedade?





sábado, 20 de janeiro de 2018

Em edição...



Foto: Renato Cirino


Mais um filme do Sistema CooperAção Amigos do Cinema sendo realizado.
Roteiro, Produção e Direção: Alice Fátima Martins
Assistentes de Direção: Lara Satler, Renato Cirino
Fotografia: Lara Satler, Renato Cirino e Fábio Rocha
Grande equipe técnica e elenco de estrelas luzidias. 
Aguardem!






segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A louca do guarda-chuvas ataca em 2018



Fui comprar a passagem de retorno. Muitas pessoas aguardavam, com apenas um guichê em funcionamento. Assumi meu lugar na fila, e posicionei o guarda-chuvas verde atravessado debaixo do braço esquerdo, apontando na direção da próxima pessoa que ficou logo atrás de mim. Com o tempo, aprendi a usar dessa estratégia para lidar com a falta de educação dos que vão avançando mesmo sem a fila ter caminhado. Principalmente homens, que se acham no direito de ir chegando cada vez mais perto, a ponto de roçar nas costas. O guarda-chuvas estabelece uma área de reserva. Sobretudo quando eu faço o giro do corpo, e ele desenha um arco, ameaçando espetar quem tenha adentrado esse território.

Mas nem todos entendem o recado, e muitos ainda se dão por ofendidos e ameaçados com o estratagema. Foi o que aconteceu naquele dia. Não demorou para que eu sentisse a ponta do guarda-chuvas espetar a barriga do senhor que estava logo atrás de mim. Mantive a calma, e torci para que ele, a partir dali, mantivesse a distância mínima. Mas ele desviou um pouco mais à esquerda, e avançou. Então eu girei o guarda-chuvas mais à esquerda, e senti que o espetei novamente. Ele contornou à direita, e manteve o avanço. Girei o corpo, e o guarda-chuvas novamente o alcançou. Então ele reagiu, advertindo que eu tivesse mais cuidado com aquele guarda-chuvas. Foi a deixa para eu lhe dar a resposta já ensaiada e usada em quantas situações anteriores: O senhor é que deve manter distância. O guarda-chuvas está aí exatamente para que o senhor não se aproxime mais do que isso. Portanto, se não quer ser espetado, recue. Ele reagiu, fazendo-se de ofendido. Já com a voz impostada, reverberando em toda a fila, determinei: O senhor, por favor, recue! Mantenha distância!

Algumas pessoas da fila olharam. O senhor recuou. Eu voltei à minha posição inicial. Uma senhora logo à minha frente, depois de alguns instantes, olhou-me discretamente e, com um sorriso, falou: Gostei de ver. Trocamos algumas palavras. Eu lhe contei que sempre uso o guarda-chuvas como estratégia de defesa.

Mais tarde, cruzou comigo novamente, no saguão da rodoviária. Desejou-me um bom ano. E recomendou: Continue a usar o guarda-chuvas! Continuarei, sim!