sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sobre viagens e cartografias


Para algumas pessoas, a maior parte delas, a ideia de viagem está atrelada à noção de deslocamento entre cidades. Alguém que tenha viajado muito terá estado em muitas cidades, e trazido muitas pequenas recordações de cada uma delas, impregnadas de histórias, cada qual. A cartografia desses viajantes aproxima-se, em alguma medida, do mapas geográficos.

Penso em viagens outras, que não dependem de empresas aéreas, trens, ônibus. Penso em viagens cujo projeto seja desbravar os árduos caminhos que ligam não cidades, mas pessoas. Por vezes, pressinto que a distância entre uma pessoa e outra é muito maior que a distância entre duas cidades de países distintos.

Minhas cartografias de viagem portam anotações sobre essas distâncias, e esses percursos. Há notas, também, sobre as distâncias entre as pessoas e os lugares que elas ocupam. Pois, estar num lugar não implica conhecer esse lugar, estabelecer meios de comunicação com ele, percebê-lo de modo intenso...

Quando ouço relatos de viagem, e breves descrições de lugares, paisagens, monumentos, muitas fotos, penso sobre os que vivem ali, seus sonhos, suas redes de relações , suas dores, seus medos, seus amores... E quando as pessoas me perguntam Você conhece tal cidade? antes de responder sim, ou não, eu me pergunto, em silêncio, quem a conhece? Seus habitantes a conhecem? Ter passado por ela faz de alguém um seu conhecedor?

Quando me falam sobre cidades, penso em seus habitantes. Além das pessoas, isso também inclui os pássaros que voejam por ali, e seus ciclos – coisa que não dá para se saber numa breve estadia, em viagem orientada por roteiros de cidades...




quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sobre uma advertência, e sobre "imagens extremamente fortes"


A notícia correu as redes sociais. Os detentos de uma penitenciária no Maranhão, durante uma rebelião, decapitaram 3 homens. Em seguida, fazendo uso da câmera de um aparelho celular, gravaram o cenário de horror. O vídeo foi encaminhado pelo Sindicato dos Servidores do Sistema Penitenciário do Estado do Maranhão a um jornal de grande circulação. Não há informações sobre como o vídeo tenha passado das mãos dos presidiários ao Sindicato. Mas é certo que foi feito para ganhar repercussão. Seus autores, mantidos no anonimato, obtiveram sucesso. No entanto, aqui, não disponibilizarei link de acesso ao vídeo, nem divulgarei imagens. Não corroborarei com seu projeto. Apenas esboço pensamentos desordenados, sensações deflagradas pela visão do horror.

Na matéria que li a respeito, antes do link de acesso ao vídeo, havia uma advertência aos incautos, avisando de que as cenas eram extremamente fortes. Mesmo assim, acionei o vídeo. Ele começa com um letreiro, reiterando o aviso sobre a natureza das cenas. As imagens que se seguem são feitas por alguém que empunha uma câmera voltada para o chão. Um homem de bermudas e chinelas. Ele permanece anônimo. Uma voz dá algumas instruções básicas. Lembra que tem que ajeitar o foco. Temo prosseguir. Penso em tudo quanto temos discutido sobre imagens digitais, cultura contemporânea, sociedade do espetáculo. Temo que tudo isso caia no vazio que possa ser provocado pelas imagens a seguir. Mas me mantenho firme, diante do vídeo. Apenas observo a duração, não chega a um minuto. Acho que ainda tenho fígado para esse trago. Sigo. O homem com a câmera na mão, apontando para o chão, também segue. Aparecem seus pés caminhando. Há movimentação em volta, muitas vozes agitadas. Logo entra no enquadramento uma mancha de sangue, e um corpo sem a cabeça. E outros corpos sem cabeça, e cabeças separadas dos corpos. Mãos anônimas ajeitam as cabeças decepadas para que apareçam melhor no vídeo.Troncos perfurados por incontáveis facadas, cobertos de sangue. Fim.

O sentimento provocado pelas imagens ganhou forma física no estômago. Mas não foi náusea, nem dor. Acho mesmo que foi um vazio. Vazio de humanidade. Vazio de sentido. Como se eu tivesse saltado num precipício. Pouco menos de um minuto, e eu sentia no estômago o frio cortante do vácuo capaz de me tragar.

... tem que ajeitar o foco. Ah, o foco!

Na anomia, o homem é o lobo do homem. O frio no estômago não vem dessa constatação. Mas de algumas perguntas e uma suspeita: na sociedade do espetáculo, que sentidos se constroem para a vida em sociedade? Que ética rege tais relações, se é que há alguma? Qual do papel dos dispositivos nesse contexto? Penso nos dispositivos penitenciária, câmera de vídeo e redes sociais. A que processos de subjetivação imagens como essas estão vinculadas? O que me parece mais perverso não é o ato, em si, mas a sua execução premeditada, com vistas ao espetáculo, e a disseminação do horror na forma do vídeo, nas redes sociais. A suspeita: cenas como essa não resultam de anomia, mas de projetos sociais cuidadosamente montados. Suspeito, também, que tudo quanto eu faça, todos os meus discursos e ações, de uma forma ou de outra, mesmo que à revelia da minha vontade ou intenção, acabem por corroborar com esses projetos.

Haveria como eu me negar a isso, do mesmo modo que me nego a disponibilizar, aqui, o link de acesso ao vídeo, mesmo sabendo o quão fácil é, para qualquer um, localizá-lo?

Que monstros nos habitam, cuja existência insistimos em dissimular?




segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

ANTI-VIAGEM (Waly Salomão)


Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.

Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?

Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?

Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal do Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.

Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
Meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um pára-choque.

Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.

Medito è beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:

EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.

Ou seja:
AGUARDE VENENO DA ÁGUA PARADA.

ÁGUA ESTAGNADA SECRETA VENENO.





domingo, 5 de janeiro de 2014

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Leminski

Paulo Leminski, in Polonaises

...
tenho andado fraco

levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio
o copo pelo meio

tendo andado sem pai

yo no creo en caminos
pero que los hay
                             hay






leminskiana inacabada