sexta-feira, 17 de maio de 2013

Transitivo




estende-se ao horizonte, belo, revolto mar
a certa altura, não é possível saber se o que avisto ainda é mar, chuva, ou já o céu...


terça-feira, 14 de maio de 2013

Uma gata na coleira



Gatos são animais que não se subjugam. Ao menos, eu imaginava que não se subjugassem...

A senhora sentia-se só. Um dia alguém lembrou que seria bom ter um animalzinho por perto. Muitos estudos têm apontado o convívio com animais domésticos como remédio para alguns males da vida contemporânea: depressão, solidão, etc. Ela também pensou que gostava muito da natureza, e concluiu que seria bom, mesmo, ter um animalzinho. Um gato, talvez. Por uma bandeira política, em defesa dos projetos femininos, preferiu uma gata.

Foi a uma loja especializada em animais domésticos, escolheu o filhote, e levou-o consigo, para iniciar um novo tempo – em sua vida, e na vida do filhote. Vivendo num apartamento, comprou pequenos brinquedos para gatos, organizou a caminha para a gatinha dormir, sobre a sua própria cama. Reorganizou a rotina para abrigar a nova moradora.

Nos primeiros tempos, a gatinha não saiu do apartamento, tampouco subiu nas janelas. Quando ficou maiorzinha, ganhou uma coleira, com uma corrente elegante que se prendia à mão de sua proprietária. Então começou a fazer os primeiros passeios fora de casa: levada a caminhar em baixo do prédio, nas calçadas, na grama. Sempre com a coleira amarrada ao pescoço, presa à corrente controlada pela dona.

A gatinha rosnava, balançando a ponta do rabo de um lado para o outro. Andava arqueando o corpo, parecia esforçar-se, todo o tempo, para encontrar alguma maneira de se livrar da prisão. Sua dona explicava aos vizinhos que eram sinais de alegria. A senhora já não se sentia só, nem mais padecia de depressão. Praticava a caridade de zelar pelo pequeno animal e ajudar a preservar a natureza... Sim, tornara-se uma pessoa muito melhor...



domingo, 12 de maio de 2013

"Nosso Norte é o Sul..."




Joaquin Torres-Garcia. Mapa invertido. 1943.



Joaquin Torres-Garcia é um artista uruguaio, pintor construtivista, intelectual importantíssimo na produção relativa ao contexto da América latina. É considerado entre os mais importantes do século XX. 

uma aranha mijou na minha boca...


Quando sopravam os primeiros ventos frios do fim do outono, e a umidade baixava sensivelmente, logo estouravam pequenas bolhas em minha boca. Doloridas, demoravam para cicatrizar. Então minha avó olhava, e decretava: "A aranha mijou na boca da minha fia!"

Custosa, essa aranha! Onde já se viu, mijar na boca de crianças indefesas, e inadvertidas!

Pela facilidade de contágio, estima-se que, atualmente, um percentual muito alto da população seja portadora do vírus tipo herpes simplex, embora uma parcela dessas pessoas nunca venha a sofrer com suas manifestações. Pior que as bolhas doloridas e o desconforto causado pelo lábio ferido, é o fato de não ter tratamento definitivo: uma vez contaminada, a pessoa não se livra mais do vírus, que passa a habitar seu organismo, de forma latente a maior parte do tempo. O medicamento disponível no mercado, que não oferece a cura, mas anuncia que pode interferir no DNA do vírus, visando alterar seu ciclo de ação, custa mais que duas centenas de Real. Tão caro, que o preço do genérico soa quase como um alento: pouco menos que uma centena de Real.

Mês de maio adentro, cansaço extremo, tensão, primeiras noites frias, umidade baixa, a aranha visitou meu sono, e, de presente, deixou uma boa mijada em minha boca. Coisa feia, essa mania de mijar na boca dos outros...



domingo, 5 de maio de 2013

mundo cão

...
hoje estou mais para amores perros, dogville, ou qualquer dos contos do Kafka, do que para mágico de Oz, ou mesmo qualquer odisseia no espaço... 
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não nos iludamos: a natureza humana não é boa, nem má. O que não lhe ameniza os traços da face perversa...
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acho que estou um pouco impaciente...


2001: Uma odisséia espacial. Stanley Kubrick. 1968.
Amores perros. Alejandro González Iñárritu. 2000.
Dogville. Lars von Trier. 2003.
O mágico de Oz. Victor Fleming. 1939.