Pouco tempo depois que eu cheguei a Goiânia, atuando como
docente do ensino superior, ocorreu de uma petrea cruzar meu caminho, assim,
num repente.
Eu vinha caminhando desde o auditório da faculdade, em
direção à rampa que me levaria às salas de aula, fazendo o percurso pelo jardim
interno. Passei por um trecho sem calçada, que tinha um pouco de musgo seco,
num tom de verde muito escuro. Naquele dia, o chão estava coberto por
pequeninas estrelas lilases. A visão do lilás sobre o musgo verde escuro me tirou
da rota. As estrelinhas ocupavam a área em grande número. Delicadas e leves,
deixavam-se oscilar com a brisa. Fiquei ali, parada, em êxtase, observando-as. Depois percebi
um caule não muito grosso que se retorcia, subindo pela parede de alvenaria. Fui
seguindo seu desenho, até chegar ao último piso, de onde se derramava em cachos
de flores, de onde elas se lançavam, em breves danças aéreas, até repousar
sobre o chão aveludado do musgo verde escuro.
Se a experiência da ordem da aesthesis refere-se ao momento
em que algo afeta os sentidos de tal forma que cause uma espécie de suspensão,
por certo, ali, não foi outra a experiência que me tomou.
Segui meu percurso, sem tirar os olhos nem das estrelinhas
no chão, nem dos cachos aéreos na altura do último piso, nem do caule retorcido
elevando-se em aderência à parede de alvenaria.
Demorei um pouco para saber o nome daquela planta, que quase
ninguém conhecia. Aliás, poucos lhe haviam dado atenção. Petrea volubilis, assim
é chamada no meio científico. Mas é popularmente conhecida como viuvinha, ou flor
de São Miguel, dentre outros nomes.
Comecei a imaginar a possibilidade de ter um exemplar dela
na varanda do apartamento. Embora soubesse que ela é uma planta de sol pleno, e
numa varanda o tempo de contato direto com a luz solar é pequeno, resolvi
tentar. Comprada a muda, acomodei-a num vaso que considerei de tamanho
razoável. Ela cresceu, e não demorou para me presentear com as estrelinhas. Mais
que isso, entre os galhos secos emaranhados, uma rolinha veio fazer seu ninho,
há coisa de 4 anos. Desde então, muitos filhotinhos já nasceram ali, ensaiando
seus primeiros voos entre as folhas da petrea.
Sem o sol pleno, as flores são ligeiramente mais claras e os
cachos não têm tantas flores. Ainda e assim, o chão se cobre das pequenas
estrelas e meu coração de alegrias.
Em tempo: quando uma florzinha cai, do caule fica uma
gotícula, como uma lágrima. Talvez por isso ela também seja conhecida como
viuvinha...