segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Quarto mandato de Lula e minhas memórias de décadas

 No último dia 25 de outubro de 2026, me levantei logo no início da manhã e fui votar. Na minha sessão, observava as pessoas. Muitas usando roupas vermelhas, com adesivos. Outras usavam roupas amarelas, camisetas da seleção brasileira. Estas estavam divididas entre o meu candidato, Lula, e o outro. Havia pessoas efusivas, mas a maior parte estava mais contida. Eu também. O medo me continha. Senti mais medo do que nas eleições anteriores, em 2022 e em 2018. Minha pele não desenvolveu calosidades a partir dessas ocasiões.

Depois de votar, fui ter com minha irmã, almoçamos, e logo no início da tarde segui para Goiânia, onde cumpriria jornada de trabalho na manhã da segunda-feira.

Pretendia não acompanhar os noticiários nem as apurações. Mas tinha expectativas em relação à manhã seguinte: como eu estaria me sentindo? O que teria ocorrido?

Eu comecei a me compreender como um ser político ativo quando ingressei na universidade para o primeiro curso de graduação, em 1980. Estávamos, ainda, em plena ditadura militar. O reitor da universidade era militar da marinha, tendo sido indicado pelo presidente da república há muitos anos. O primeiro semestre do curso era constituído por disciplinas do núcleo básico, tais como língua portuguesa, língua inglesa, estudos dos problemas brasileiros 1, introdução à sociologia, educação física. Estudantes de todos os cursos estavam juntos em grandes grupos que tinham aulas nos anfiteatros do Instituto Central de Ciências, o ICC, popularmente conhecido como minhocão, dada sua extensão.

Logo no primeiro semestre, indo para a aula deparei-me com uma barricada de carteiras à porta do anfiteatro. Constatei que todas as portas de salas de aula estavam interditadas. Os estudantes estavam em greve. Caloura, ainda não tinha ideia sobre como se davam essas dinâmicas. Busquei pelo professor responsável pela aula daquele dia. Estava em sua sala, tranquilamente, lendo algum livro. Respondeu que os estudantes não tinham vindo, estavam em greve. Que ele registraria falta para todos. Mas também avisou que, mesmo que eu quisesse aula, não ministraria aulas.

Saí dali meio confusa. Mas entendi que eu também eu estava em greve.

Aquela mobilização não teve longa duração. Mas depois, nos semestres seguintes, se repetiriam várias mobilizações, e eu passaria a me integrar não só aos estudantes ligados ao curso que eu estava fazendo, mas aos centros acadêmicos e ao diretório central dos estudantes, vinculado ao qual montamos um grupo de teatro.

Foram anos ativos, com muitas assembleias das quais tomavam parte milhares de estudantes, vigiados por policiais e seus cães. As greves envolviam passeatas, ocupações da reitoria, instalações no campus da universidade, idas ao ministério da educação. As assembleias muito concorridas contavam com a presença de políticos que atuavam na oposição.

Quando terminei a graduação, comecei a dar aulas numa escola da iniciativa privada. Era 1984, ano quando foram deflagradas as mobilizações pelas “diretas já”. Havia manifestações em todos os lugares. O voto direto para eleger quem assumiria a presidência da república compareceu como reivindicação nas ruas com força crescente. O amarelo foi escolhido como a cor que representou esse pleito. Eu dava aulas com uma fita amarela do lado do coração, ou amarrada no braço.

Aquele ano foi agitado. Negociou-se, então, um governo civil, de transição, eleito ainda pelo voto indireto. Tancredo Neves compareceu como liderança capaz de conciliar a voz que vinha das ruas e as demandas do congresso, àquele momento. Sarney era seu vice. A chapa foi eleita. Mas, em 1985, um dia antes da posse, tarde da noite, eu estava no ponto de ônibus, esperando para voltar para casa depois de dar aulas numa escola no Guará 1. Um rapaz chegou com o rádio ligado. Ouvi o noticiário sobre o estado grave de saúde em que se encontrava o Tancredo, internado às pressas no Hospital de Base de Brasília. Senti um frio percorrer o corpo todo. No dia 21 de abril oficializou-se a sua morte. Fontes de dentro do hospital dizem que ele teria morrido de fato no dia 20, mas aguardaram o dia 21 para anunciar, por ser uma data simbolicamente importante para o país. Meu pai também morrera no dia 21 de abril, alguns anos antes.

O que seria agora?

Negociações de poder em curso, Sarney assumiu e governou o país por 5 anos, num período tumultuado do ponto de vista econômico e também político.

Naquele mesmo ano de 1985, ante as dificuldades para conseguir trabalho com salário minimamente decente, acabei fazendo concurso para a FUNAI. Para a prova escrita, li o livro “Vítimas do milagre: o desenvolvimento e os índios do Brasil”, do antropólogo norte-americano Shelton H. Davis. Não me lembro como esse material me chegou às mãos, àquela época. O fato é que cheguei para a seleção munida de uma discussão interessante sobre como a política desenvolvimentista, o chamado milagre econômico protagonizado pela ditadura militar, repercutiu entre as comunidades indígenas brasileiras, resultando em mortes e destruição as quais ainda hoje não somos capazes de dimensionar.

O concurso estava organizado em três etapas extensas. A primeira, com prova escrita e psicológica; a segunda, um curso-treinamento, quando tivemos aulas de antropologia, história, geografia, políticas públicas, primeiros socorros, linguística, dentre outros tópicos. Foram dois meses com aulas o dia todo. Nesse percurso, conheci Berta Ribeiro, Carmem Junqueira, Ivar Busato, Carlos Rodrigues Brandão, Sydney Possuelo.

Aprovada nessa etapa de treinamento, fui encaminhada para a última etapa, estágio de três meses a ser realizado já em área. Pretendia-se que o estágio fosse realizado no território onde o estagiário pudesse ser alocado quando se efetivasse a contratação. Assim, com algumas poucas roupas na mochila, segui para o vale do Guaporé, onde encontrei o indigenista Sílbene de Almeida, no posto indígena Manairisu, junto ao povo hahaintesu.

Naquele ano, o primeiro ano de gestão do Sarney na presidência, a FUNAI teve designados 6 presidentes. A instabilidade era muito grande naquela área, sob a ameaça de garimpeiros, madeireiros e fazendeiros, todos inimigos declarados das comunidades indígenas. Por consequência, eram também inimigos de quem os defendesse.

Ante a insegurança da própria FUNAI com as quantas trocas na presidência, e a falta de perspectiva efetiva de contratação, retornei. De volta a Brasília, assumi a vaga de um concurso na rede pública de ensino, para o qual eu havia sido aprovada, mas não tinha sido contratada à época da primeira convocação por um encaminhamento de má fé do funcionário que me atendeu, em relação ao qual não soube me defender. Enfim. Passava a ser professora da rede pública, enquanto aguardava os encaminhamentos da FUNAI. Ao mesmo tempo, filiei-me ao sindicado dos professores. Não demorou para que eu tomasse parte ativa dos movimentos grevistas em curso.

Não tendo sido contratada pela FUNAI, transcorri a segunda metade dos anos 1980 atuando como docente e assumindo o papel político de quem debate entre os pares, com estudantes e a comunidade em geral os papéis sociais de cada qual, as estruturas hierárquicas que aprofundam desigualdades, as precariedades salariais, as condições de trabalho, dentre outras temáticas caras ao ofício docente.

As assembleias reuniam milhares de professores no gramado diante do congresso nacional, ou na sombra do estádio Mané Garrincha. Ao final, sempre seguíamos, em passeata, até o ministério da educação, ou até a sede do governo do Distrito Federal. Os governadores ainda eram indicados pelo presidente. Entre 1985 e 1988, os embates foram com o governador José Aparecido. Depois, os embates se aprofundaram com o governador Joaquim Roriz, com projetos mais ambiciosos de permanência no poder.

Quando se iniciou a campanha para presidente, o primeiro a ser eleito por voto direto desde a instauração da ditadura militar, em 1964, alinhei-me à campanha de Luís Inácio Lula da Silva, diante do delírio do outro candidato, Collor de Melo, e sua vociferação contra os marajás. Lembro de um final de tarde, quando estacionei meu fusca à frente de um supermercado, um menino que vivia por ali veio me perguntar se eu votaria no Lula. Respondi que sim. Ele sorriu e me abraçou. Sentia-se representado. Mas a população em geral teve medo do operário sindicalista. Preferiu o playboy delirante que já cometera tantas insanidades em anos anteriores, certo da impunidade. Collor foi eleito. Congelou os dinheiros de toda a população. A inflação subiu a patamares assustadores. Os jovens foram para as ruas, com o rosto pintado de verde e amarelo, bradar contra ele. Eram os caras-pintadas. Eu estava lá, entre eles, empunhando uma bandeira totalmente negra, em contraste com as cores da bandeira.

Collor deixou a presidência, que foi assumida por Itamar. Antes disso, Roriz havia saído do governo do Distrito Federal, integrando a equipe de Collor, para poder se candidatar novamente ao DF, tendo sido eleito pelo voto direto. As tensões entre a classe docente e ele continuaram, até que, em 1994, foi substituído por Cristóvão Buarque, professor da Universidade de Brasília e primeiro reitor eleito, depois de deposto o reitor que era militar da marinha.

A essa época, decidi retomar os estudos, tendo sido aprovada para fazer o mestrado em educação. Quando voltei à universidade, na condição de estudante de pós-graduação, fiquei muito impressionada ao constatar que o diretório central dos estudantes estava totalmente desarticulado. Até houve a tentativa de eleição de uma diretoria, quando um cãozinho de estimação dos estudantes recebeu mais votos que qualquer outra candidatura. Além disso, chamou-me a atenção o fato de que, em meados dos anos 1990, eram os docentes que faziam greve, muitas vezes criticados pelos estudantes por interromperem as atividades em aula.

Em 1998, acompanhei um movimento docente naquela universidade, quando um grupo de professores fez greve de fome em protesto contra a política salarial de Fernando Henrique Cardoso, então presidente da república. Dentre esses docentes, havia uma professora de quem fui aluna, durante o mestrado. No início dos anos 2000, iniciei o doutorado em sociologia, ainda tendo Fernando Henrique Cardoso na presidência da república, em seu segundo mandato, e novamente Joaquim Roriz como governador do Distrito Federal, que respondeu por quatro mandatos, sendo os dois últimos consecutivos, entre 1999 e 2006. O movimento sindical dos professores sofrera também uma desarticulação iniciada durante a gestão do professor Cristóvão Buarque de Holanda à frente do governo distrital. Na universidade, a mobilização estudantil tentava se reerguer, sem muito fôlego.

Em 2002, finalmente, Luís Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da república. Iniciava-se ali um período de negociações e conciliação, de vida que segue em frente, com muito trabalho, mas também alento. Um tempo de crescimento. Em 2004, passei a integrar o corpo docente efetivo da Universidade Federal de Goiás, que experimentou um processo de expansão sem precedentes, bem como as demais universidades federais em todo o país.

Apesar do alinhamento com o governo federal, especialmente com as políticas do ministério da educação, havia questões a serem levantadas, tópicos a serem debatidos. Deparei-me então com um sindicato de docentes do ensino superior totalmente desconectado dessa pauta, interessado tão somente em assegurar território onde houvesse demarcações de poder. Foi a partir desse contexto que, em 2010, experimentei uma situação ímpar: o corpo docente da universidade decretou greve sem o reconhecimento por parte do sindicato. O movimento grevista precisou abrir frentes de discussão e uma mobilização ainda mais intensa para que o próprio sindicato reconhecesse a paralização e tomasse as providências necessárias para abrir frentes de negociação. E o fez sob algumas condições bem comprometedoras.

Em 2014 os estudantes se levantaram em mobilização intensa novamente, envolvendo tanto discentes do ensino médio quanto das universidades. Nossa faculdade foi ocupada pelo movimento. Mas havia uma ambiguidade naquela mobilização. Ao mesmo tempo que reacendia a força jovem para reivindicar seus direitos, abria portas para o avanço de frentes conservadoras e reacionárias para o enfraquecimento do governo instalado. À época, Dilma era a presidenta, a primeira mulher a assumir o mais alto cargo do poder executivo, destinatária de toda sorte de misoginias e discriminações.

Ainda hoje penso que precisamos aprender a manter as mobilizações, o pensamento crítico, quando os governos mais alinhados à esquerda estão em vigência, mas sem correr o risco de abrir brechas para que as correntes conservadoras e a ultradireita ganhem espaço. Ainda não sabemos fazer isso de modo mais amadurecido.

As mobilizações de então marcaram o início da fragilização do governo de Dilma, que abriu a vereda pela qual chegaria ao impeachment, tendo sido sucedida por seu vice, o Temer, que preparou o terreno para a extrema direita assumir o poder. Desde então, vive-se entre sobressaltos. Em 2022, quando Lula foi eleito, com uma diferença estreita de votos, foi um alívio. Acompanhei, dígito a dígito, o andamento da apuração pelo aplicativo do TSE. Mas neste ano de 2026, quando tudo parecia orquestrado (e de fato estava) para a volta do representante da família miliciana, o sobressalto foi aumentado exponencialmente. Não tive fôlego para acompanhar a apuração desde o início. Engajei-me apenas ao final, já incrédula com o que estava acontecendo.

Agora vamos acompanhando as repercussões dentro e fora do país quanto a esse resultado, e às dinâmicas que levaram a ele. Tenho a certeza de que há duas lições para casa, advindas de todo esse percurso: 1) precisamos aprender a manter viva a capacidade de participar ativamente na vida política do país mas preservando a integridade dos governos com perfil social, que defendem políticas públicas voltadas para a população mais vulnerável; 2) é preciso antecipar as gestões em ciclos, o que significa pensar na formação de pessoas que possam assumir a sucessão, sem serem submissas aos projetos em andamento, mas sem rompimentos com seus princípios basilares.

Nenhum regime democrático está dado por princípio, precisa ser defendido todo o tempo. Nenhum direito que se refira a pessoas vulneráveis ou discriminadas está assegurado desde sempre, a luta é incessante para que seja defendido e fortalecido. Lembro, aqui, as palavras de Eduardo Galeano, no livro A pedra arde: a luta pela liberdade é uma luta que nunca acaba. Para dar continuidade a ela, é preciso lembrar. Não podemos esquecer, nem apagar as marcas das lutas que já foram travadas.

 

 



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