Minha máquina de lavar roupas já completou 22 anos de trabalho, tendo dado poucos problemas nessas duas décadas. A última vez que tinha sido necessário conserto foi há mais de 10 anos. Mas desta vez ela mostrou-se prostrada, sem força para bater a roupa. Liguei para a empresa que faz a manutenção. Veio o técnico, um rapaz jovem, sorriso largo, grandão, cuidadoso. Depois de verificar tudo, explicou-me que seria necessário levar a máquina para a empresa, para trocar o mecanismo dela. Disse também que colocaria um conjunto de pés novos para ela ficar mais alta. No mesmo dia, algum tempo depois, veio um senhorzinho e levou a máquina.
No dia seguinte, foram iniciadas as obras de recapeamento na minha rua. Na data prevista para a devolução da máquina, o acesso ao meu prédio
estava comprometido. Passaram-se uns 4 dias até que pude avisar à equipe que o
caminho estava livre para trazerem a máquina. Algumas horas depois, ela voltou.
Mas não vieram os pés. E quando, à noite, fui trabalhar com ela, apresentou um
barulho muito forte na batida da roupa, além de outros detalhes que chamaram a
atenção.
Liguei para a empresa. No mesmo dia, o técnico sorridente
voltou. Examinou a máquina. Conversou um pouco. Constatou que o mecanismo novo tinha problema. Ele trocaria o mecanismo e faria alguns ajustes na loja. Quando o
senhor veio buscar a máquina, trouxe outra, de reserva, para eu usar enquanto a
minha estava no conserto.
Na semana seguinte, minha máquina retornou. No mesmo dia, ao
testar, constatei que a cesta estava solta e girava, fazendo um barulho forte, enquanto
a roupa era batida. Filmei o funcionamento e enviei para a empresa. No mesmo
dia, o técnico veio, alegre. Montou, desmontou, ajustou parafusos, mediu,
equilibrou. E foi contando histórias. Contou como se encantou por consertar máquinas
de lavar roupas, falou de seu casamento, dos estudos até o ensino médio. Contou também que cada máquina de lavar roupas, de acordo com o modelo, é portadora de um problema crônico congênito. Mas aquela não tinha nenhum desses problemas, apenas estava ficando velhinha. Brincou
com a máquina, enquanto ia verificando as peças e seu funcionamento. Fez os
testes. Ele mesmo não ficou muito satisfeito com a sonoridade dela. Considerou a
possibilidade de ser necessário trocar um capacitor. Pediu que eu fizesse o
ciclo completo de lavagem, observando. Se o defeito aparecesse
novamente, eu o avisaria diretamente, pelo telefone, sem precisar da mediação da
empresa. Depois brincou, dizendo que eu precisava conversar com a máquina, que
ela gostava de ouvir histórias. Rimos muito.
Depois que ele foi embora, deixei a máquina lavando um pouco de
roupas, cumprindo um ciclo completo. No enxágue, manifestou o defeito. Filmei e
enviei para ele. Fiz o comentário: acho que não estou conversando direito com
ela... risos. Ele logo me respondeu: amiga, amanhã meio-dia eu levo o
capacitor! No dia seguinte, pontualmente, ele chegou, trazendo o capacitor e um sorriso largo. Me cumprimentou, cumprimentou a máquina, perguntou a ela: você estava sentindo
falta das minhas histórias, amiga? Rimos. Ele me explicou que tinha ligado para
a fábrica da máquina, buscando orientações sobre o seu modelo. Contou, com os olhos brilhando, que tinha conversado com um senhor idoso que integrou a equipe de criação
daquela máquina. Estava bem inteirado de seu funcionamento.
Enquanto desmontava a parte traseira, contou-me que era filho de
família quilombola, de uma região onde há um terreno com um buraco sem fim. Nessa
mesma região, está a casa onde D. Pedro teria passado algumas temporadas, com
túneis à volta para fugas estratégicas. Falou com carinho sobre a mãe, a avó, as tias, as irmãs, a esposa. Sentei-me
no chão, para ouvi-lo, enquanto ele cuidava da máquina. A moça
da faxina viu a cena, distanciou-se, para depois comentar comigo que sentiu vontade de rir pelo inusitado. Comentou que ele não era técnico, mas
psicólogo da máquina de lavar roupas. Rimos.
Depois de trocar o capacitor, de testar a máquina nas várias
etapas, meu novo amigo seguiu. Deixou recomendações. Pediu que eu o avisasse
sobre qualquer problema. Despediu-se da máquina e repetiu a sugestão de que eu
conversasse com ela e lhe contasse histórias.
Decidi colocar um nome nela. Depois de considerar algumas possibilidades,
escolhi Valquíria, pronunciado sílaba a sílaba, com a cabeça
girando para um lado e outro, imitando a batida da roupa: Val-quí-ria!
Valquíria está bem. O capacitor novo lhe deu novo fôlego e
força. Cheguei a considerar a possibilidade de solicitar um capacitor novo
também para mim. Depois desisti. As conversas com o psicólogo-técnico fizeram bem
a ela. Fizeram bem a mim também.