Em pré venda pela Editora Patuá
Que alegria!
literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
Fui, com minha irmã, almoçar num sebo de livros que é também
café e restaurante. Livros novos e usados, espaço para eventos, auditório,
souvenires, mesas postas para saborear delícias. Minha irmã escolheu um prato
com iscas de filé e salada servida num aro de massa folhada delicioso. Eu escolhi
iscas de filé com salada e purê de batatas. Atrás da varanda, a vegetação verde
da quadra se movia com a brisa. O frescor do comecinho da tarde era tempero
que tornava ainda mais especial aquela refeição. Quando o garçom, um querido,
retirou os pratos, me detive a identificar o disco de vinil, um LP, que servia como sousplat.
Fiquei surpresa quando identifiquei a trilha sonora do filme A Missão,
composição de Ennio Morricone. O filme, lançado em 1986, dirigido pelo
britânico Roland Joffé, aborda a missão dos padres jesuítas na catequização
das comunidades indígenas, especialmente entre pessoas da nação Guarani.
Fiquei ali, às voltas com o disco. Ele estava preservado, quase sem arranhões, em perfeito estado. Olhando os vincos fiquei imaginando as músicas das quais não me esqueci.
O garçom acabou por me presentear o disco. Voltei para casa ainda mais feliz.
Toda terça-feira à tarde, vou à padaria do supermercado próximo à minha residência. Nesse dia, eles montam um balcão de pães artesanais, de fermentação natural, com diversos sabores. Todos são deliciosos. Muitas pessoas vão até lá, em busca dos pães. Quase todos são vendidos. Os que sobram são embalados com a informação da data de fabricação e vendidos nos dois dias seguintes, a preços mais baratos.
De modo geral, os pães e bolos e outras guloseimas produzidas ali são muito saborosos. Como também é saboroso o sorriso da senhora que atende, ao balcão, pesando, embalando, opinando, conversando sobre vários assuntos.
Na última terça-feira, fiquei observando o balcão. Não havia pães expostos. Ela percebeu e me falou: Não teremos os pães nem nesta nem na próxima semana! Fiquei preocupada, perguntei se tinha acontecido alguma coisa com o padeiro. Ela respondeu: Não! Ele está participando de um congresso e vai aproveitar para fazer um curso. Havia orgulho nos olhos dela, informando sobre seu colega de trabalho. Que maravilha! Sorri também. Mas, daqui a duas semanas você já pode vir, que estaremos com os pães novamente, ela completou.
Senti alegria por contar com os serviços de pessoas como aquela senhora e poder comer pães feitos por um profissional que não só participa de congressos e cursos, mas que tem uma assinatura intransferível. Ele cuida da fermentação natural, ele prepara as misturas para a massa, ele faz os pães, cada um, como quem escreve um poema, ou alinhava um conto.
A professora de Valença comentou seu encantamento com a palavra ‘nortear’, usada na língua portuguesa. No espanhol valenciano, não há. Fala-se ‘orientar’, palavra que se refere ao Oriente, à rota da seda, observou ela, para assentar o sentido de direção, direção correta. Ou seja, orientar-se, em última instância, é uma disposição para não perder a direção correta para um mercado de exploração, a seda, produzida no Oriente, durante os processos de colonização. Por isso, para a professora, a palavra ‘nortear’ parecia ter uma conotação mais interessante, por referir-se de modo mais explícito a um dos pontos cardeais, o Norte, que, nas bússolas, é o norte magnético, quando se deseja identificar posições e rotas. Para a professora, europeia, com raízes no Hemisfério Norte, essa referência ao ponto cardeal pareceu inocente.
A etimologia da palavra ‘orientar’ evoca a direção onde nasce o sol. Ou seja, refere-se ao ponto cardeal leste, indicando o caminho a seguir, em direção ao sol nascente. Mas a professora está correta no tocante ao fato de que foi atrelado a esse sentido o de cunho comercial e exploratório, da rota da seda chinesa.
No entanto, tampouco a referência ao norte pode ser considerada inocente. Enquanto a ouvia, pensei na frase do artista uruguaio Joaquín Torres-García, Nosso Norte é o Sul, em relação à sua obra América Invertida, de 1943. Nas discussões de que tenho tomado parte, mais recentemente, com ênfase nos processos de colonização, um marco é muito importante: os colonizadores atuam desde o Hemisfério Norte. As guerras mais devastadoras estão no Hemisfério Norte ou são financiadas por países e povos ali situados. Os impérios econômicos estão construídos no Hemisfério Norte embora exerçam influência em todos os continentes. Resulta que ‘nortear’ é uma palavra tão comprometida quanto ‘orientar’: contemporaneamente, ambas transitam por processos de dominação, colonização, exploração.
Numa referência a Torres-Garcia, proponho o verbo ‘sulear’. Situada desde o Sul, posso me deslocar em todas as direções, para, ao final, sempre voltar para casa, entre afetos e alegrias, com algumas preocupações, mas com a força necessária para saber que o norte não é a única referência, tampouco o oriente ou o ocidente.
Um amigo querido, que vive na Patagônia chilena, relata que ali, a expressão "está de norte", ou "está norteando" refere-se a dias quando há temporal, tormenta de chuva e vento. Por outro lado, quando "está de sul" há bom clima, sol, ainda que venha o frio polar da Antártica.
Pois que possamos sulear nossos passos por caminhos que nos levem a searas profícuas. E que o clima seja bom.
Planalto Central do Brasil, ao Sul do Equador
No domingo, deixei o primeiro grupo de livros na Praça Universitária, dentro do projeto Livros Pássaros. Só retornei lá hoje, dois dias depois, para buscar rastros do que pudesse ter ocorrido desde então, e deixar o segundo grupo de livros.
No banco onde deixei um pequeno totem de livros, um morador
de rua estava dormindo. Quando me aproximei, percebi que ele usava quatro
livros para apoiar a cabeça. Sorri. Comecei a organizar os livros no canteiro
onde ficam os totens feitos com pedaços de tijolo e cimento. Estavam todos
derrubados. Montei quatro grupos de livros, e apoiei um pequeno pedaço de cimento
sobre cada um, para proteger do vento.
Outro morador de rua, curioso, me perguntou sobre os livros. Respondi que
eram para quem gostasse de ler. Você gosta de ler? Que sim, respondeu. Olhou,
de longe, e seguiu. O rapaz que dormia no banco espreguiçou-se. Sem pressa, levantou-se,
pegou sua mochila e foi embora. Fui verificar quais eram os quatro livros deixados
no banco. Só então percebi que havia, no chão, alguns dos bilhetes que deixei
dentro dos livros.
Fui me distanciando. Um rapaz sentou-se no banco, olhou os
livros, depois seguiu na direção oposta à minha.
Seguimos todos: eu, o rapaz, os moradores de rua, os livros... quem sabe dos nossos destinos?
Do que se trata? Minha casa é habitada por muitos livros. A maior
parte dos quais, depois de terem sido lidos, depois de terem integrado
pesquisas diversas, já não são usados. Os temas de pesquisa mudaram. Os referenciais
teóricos também. As interlocuções passaram a reivindicar outros pontos de vista. Por isso,
decidi libertar esses livros das gaiolas de armários e prateleiras, onde ficam,
hibernados, sem encontrar com quem conversar.
Na Praça Honestino Guimarães, popularmente conhecida como
Praça Universitária, há um bom tempo, um senhor organiza pequenos totens de pedra,
pedaços de tijolos ou cimento. Os totens se encontram em toda a extensão da
praça, debaixo de árvores, nos canteiros, ao lado das esculturas de artistas
reconhecidos. De aparência frágil, muitas pessoas passam, desmontando os
totens. Mas, no dia seguinte, eles estão lá, reconstituídos, ocupando outros
espaços. Se a estrutura dos totens é frágil, podendo ser facilmente desmontada,
a capacidade de reconstrução demonstrada pelo senhor que os organiza é enorme, bem como a
força sutil que o move nesse projeto.
Decidi, então, dialogar com os totens de cimento, construindo
totens com os livros nas mesmas áreas por eles ocupadas. Dentro de cada um dos livros, deixo uma mensagem para quem os venha
a encontrar:
Quando terminei de organizar o segundo grupo de livros, na praça, e fui me afastando, uma jovem passou por perto, diminuiu o passo, ficou olhando. Depois seguiu. Perguntei se ela tinha se interessado pelos livros. De longe, respondeu que tinha achado curioso. Falei que ela poderia olhar e tomar algum que lhe interessasse, se quisesse. Ela voltou, olhou os livros enquanto conversamos. Tinha interesse por livros de literatura. Eu não tinha deixado nenhum, nessa leva. Prometi que, no próximo grupo, levaria alguns de literatura. Contou que é estudante de medicina, que passa por ali todos os dias. Disse também que já viu o senhor organizando os totens de tijolos, mas nunca lhe ocorreu conversar com ele. Da próxima vez, vai conversar.
Seguimos, cada uma, nossos caminhos. Os livros pássaros já
começaram a produzir efeitos. Que sigam livres em seus voos.