segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Quarto mandato de Lula e minhas memórias de décadas

 No último dia 25 de outubro de 2026, me levantei logo no início da manhã e fui votar. Na minha sessão, observava as pessoas. Muitas usando roupas vermelhas, com adesivos. Outras usavam roupas amarelas, camisetas da seleção brasileira. Estas estavam divididas entre o meu candidato, Lula, e o outro. Havia pessoas efusivas, mas a maior parte estava mais contida. Eu também. O medo me continha. Senti mais medo do que nas eleições anteriores, em 2022 e em 2018. Minha pele não desenvolveu calosidades a partir dessas ocasiões.

Depois de votar, fui ter com minha irmã, almoçamos, e logo no início da tarde segui para Goiânia, onde cumpriria jornada de trabalho na manhã da segunda-feira.

Pretendia não acompanhar os noticiários nem as apurações. Mas tinha expectativas em relação à manhã seguinte: como eu estaria me sentindo? O que teria ocorrido?

Eu comecei a me compreender como um ser político ativo quando ingressei na universidade para o primeiro curso de graduação, em 1980. Estávamos, ainda, em plena ditadura militar. O reitor da universidade era militar da marinha, tendo sido indicado pelo presidente da república há muitos anos. O primeiro semestre do curso era constituído por disciplinas do núcleo básico, tais como língua portuguesa, língua inglesa, estudos dos problemas brasileiros 1, introdução à sociologia, educação física. Estudantes de todos os cursos estavam juntos em grandes grupos que tinham aulas nos anfiteatros do Instituto Central de Ciências, o ICC, popularmente conhecido como minhocão, dada sua extensão.

Logo no primeiro semestre, indo para a aula deparei-me com uma barricada de carteiras à porta do anfiteatro. Constatei que todas as portas de salas de aula estavam interditadas. Os estudantes estavam em greve. Caloura, ainda não tinha ideia sobre como se davam essas dinâmicas. Busquei pelo professor responsável pela aula daquele dia. Estava em sua sala, tranquilamente, lendo algum livro. Respondeu que os estudantes não tinham vindo, estavam em greve. Que ele registraria falta para todos. Mas também avisou que, mesmo que eu quisesse aula, não ministraria aulas.

Saí dali meio confusa. Mas entendi que eu também eu estava em greve.

Aquela mobilização não teve longa duração. Mas depois, nos semestres seguintes, se repetiriam várias mobilizações, e eu passaria a me integrar não só aos estudantes ligados ao curso que eu estava fazendo, mas aos centros acadêmicos e ao diretório central dos estudantes, vinculado ao qual montamos um grupo de teatro.

Foram anos ativos, com muitas assembleias das quais tomavam parte milhares de estudantes, vigiados por policiais e seus cães. As greves envolviam passeatas, ocupações da reitoria, instalações no campus da universidade, idas ao ministério da educação. As assembleias muito concorridas contavam com a presença de políticos que atuavam na oposição.

Quando terminei a graduação, comecei a dar aulas numa escola da iniciativa privada. Era 1984, ano quando foram deflagradas as mobilizações pelas “diretas já”. Havia manifestações em todos os lugares. O voto direto para eleger quem assumiria a presidência da república compareceu como reivindicação nas ruas com força crescente. O amarelo foi escolhido como a cor que representou esse pleito. Eu dava aulas com uma fita amarela do lado do coração, ou amarrada no braço.

Aquele ano foi agitado. Negociou-se, então, um governo civil, de transição, eleito ainda pelo voto indireto. Tancredo Neves compareceu como liderança capaz de conciliar a voz que vinha das ruas e as demandas do congresso, àquele momento. Sarney era seu vice. A chapa foi eleita. Mas, em 1985, um dia antes da posse, tarde da noite, eu estava no ponto de ônibus, esperando para voltar para casa depois de dar aulas numa escola no Guará 1. Um rapaz chegou com o rádio ligado. Ouvi o noticiário sobre o estado grave de saúde em que se encontrava o Tancredo, internado às pressas no Hospital de Base de Brasília. Senti um frio percorrer o corpo todo. No dia 21 de abril oficializou-se a sua morte. Fontes de dentro do hospital dizem que ele teria morrido de fato no dia 20, mas aguardaram o dia 21 para anunciar, por ser uma data simbolicamente importante para o país. Meu pai também morrera no dia 21 de abril, alguns anos antes.

O que seria agora?

Negociações de poder em curso, Sarney assumiu e governou o país por 5 anos, num período tumultuado do ponto de vista econômico e também político.

Naquele mesmo ano de 1985, ante as dificuldades para conseguir trabalho com salário minimamente decente, acabei fazendo concurso para a FUNAI. Para a prova escrita, li o livro “Vítimas do milagre: o desenvolvimento e os índios do Brasil”, do antropólogo norte-americano Shelton H. Davis. Não me lembro como esse material me chegou às mãos, àquela época. O fato é que cheguei para a seleção munida de uma discussão interessante sobre como a política desenvolvimentista, o chamado milagre econômico protagonizado pela ditadura militar, repercutiu entre as comunidades indígenas brasileiras, resultando em mortes e destruição as quais ainda hoje não somos capazes de dimensionar.

O concurso estava organizado em três etapas extensas. A primeira, com prova escrita e psicológica; a segunda, um curso-treinamento, quando tivemos aulas de antropologia, história, geografia, políticas públicas, primeiros socorros, linguística, dentre outros tópicos. Foram dois meses com aulas o dia todo. Nesse percurso, conheci Berta Ribeiro, Carmem Junqueira, Ivar Busato, Carlos Rodrigues Brandão, Sydney Possuelo.

Aprovada nessa etapa de treinamento, fui encaminhada para a última etapa, estágio de três meses a ser realizado já em área. Pretendia-se que o estágio fosse realizado no território onde o estagiário pudesse ser alocado quando se efetivasse a contratação. Assim, com algumas poucas roupas na mochila, segui para o vale do Guaporé, onde encontrei o indigenista Sílbene de Almeida, no posto indígena Manairisu, junto ao povo hahaintesu.

Naquele ano, o primeiro ano de gestão do Sarney na presidência, a FUNAI teve designados 6 presidentes. A instabilidade era muito grande naquela área, sob a ameaça de garimpeiros, madeireiros e fazendeiros, todos inimigos declarados das comunidades indígenas. Por consequência, eram também inimigos de quem os defendesse.

Ante a insegurança da própria FUNAI com as quantas trocas na presidência, e a falta de perspectiva efetiva de contratação, retornei. De volta a Brasília, assumi a vaga de um concurso na rede pública de ensino, para o qual eu havia sido aprovada, mas não tinha sido contratada à época da primeira convocação por um encaminhamento de má fé do funcionário que me atendeu, em relação ao qual não soube me defender. Enfim. Passava a ser professora da rede pública, enquanto aguardava os encaminhamentos da FUNAI. Ao mesmo tempo, filiei-me ao sindicado dos professores. Não demorou para que eu tomasse parte ativa dos movimentos grevistas em curso.

Não tendo sido contratada pela FUNAI, transcorri a segunda metade dos anos 1980 atuando como docente e assumindo o papel político de quem debate entre os pares, com estudantes e a comunidade em geral os papéis sociais de cada qual, as estruturas hierárquicas que aprofundam desigualdades, as precariedades salariais, as condições de trabalho, dentre outras temáticas caras ao ofício docente.

As assembleias reuniam milhares de professores no gramado diante do congresso nacional, ou na sombra do estádio Mané Garrincha. Ao final, sempre seguíamos, em passeata, até o ministério da educação, ou até a sede do governo do Distrito Federal. Os governadores ainda eram indicados pelo presidente. Entre 1985 e 1988, os embates foram com o governador José Aparecido. Depois, os embates se aprofundaram com o governador Joaquim Roriz, com projetos mais ambiciosos de permanência no poder.

Quando se iniciou a campanha para presidente, o primeiro a ser eleito por voto direto desde a instauração da ditadura militar, em 1964, alinhei-me à campanha de Luís Inácio Lula da Silva, diante do delírio do outro candidato, Collor de Melo, e sua vociferação contra os marajás. Lembro de um final de tarde, quando estacionei meu fusca à frente de um supermercado, um menino que vivia por ali veio me perguntar se eu votaria no Lula. Respondi que sim. Ele sorriu e me abraçou. Sentia-se representado. Mas a população em geral teve medo do operário sindicalista. Preferiu o playboy delirante que já cometera tantas insanidades em anos anteriores, certo da impunidade. Collor foi eleito. Congelou os dinheiros de toda a população. A inflação subiu a patamares assustadores. Os jovens foram para as ruas, com o rosto pintado de verde e amarelo, bradar contra ele. Eram os caras-pintadas. Eu estava lá, entre eles, empunhando uma bandeira totalmente negra, em contraste com as cores da bandeira.

Collor deixou a presidência, que foi assumida por Itamar. Antes disso, Roriz havia saído do governo do Distrito Federal, integrando a equipe de Collor, para poder se candidatar novamente ao DF, tendo sido eleito pelo voto direto. As tensões entre a classe docente e ele continuaram, até que, em 1994, foi substituído por Cristóvão Buarque, professor da Universidade de Brasília e primeiro reitor eleito, depois de deposto o reitor que era militar da marinha.

A essa época, decidi retomar os estudos, tendo sido aprovada para fazer o mestrado em educação. Quando voltei à universidade, na condição de estudante de pós-graduação, fiquei muito impressionada ao constatar que o diretório central dos estudantes estava totalmente desarticulado. Até houve a tentativa de eleição de uma diretoria, quando um cãozinho de estimação dos estudantes recebeu mais votos que qualquer outra candidatura. Além disso, chamou-me a atenção o fato de que, em meados dos anos 1990, eram os docentes que faziam greve, muitas vezes criticados pelos estudantes por interromperem as atividades em aula.

Em 1998, acompanhei um movimento docente naquela universidade, quando um grupo de professores fez greve de fome em protesto contra a política salarial de Fernando Henrique Cardoso, então presidente da república. Dentre esses docentes, havia uma professora de quem fui aluna, durante o mestrado. No início dos anos 2000, iniciei o doutorado em sociologia, ainda tendo Fernando Henrique Cardoso na presidência da república, em seu segundo mandato, e novamente Joaquim Roriz como governador do Distrito Federal, que respondeu por quatro mandatos, sendo os dois últimos consecutivos, entre 1999 e 2006. O movimento sindical dos professores sofrera também uma desarticulação iniciada durante a gestão do professor Cristóvão Buarque de Holanda à frente do governo distrital. Na universidade, a mobilização estudantil tentava se reerguer, sem muito fôlego.

Em 2002, finalmente, Luís Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da república. Iniciava-se ali um período de negociações e conciliação, de vida que segue em frente, com muito trabalho, mas também alento. Um tempo de crescimento. Em 2004, passei a integrar o corpo docente efetivo da Universidade Federal de Goiás, que experimentou um processo de expansão sem precedentes, bem como as demais universidades federais em todo o país.

Apesar do alinhamento com o governo federal, especialmente com as políticas do ministério da educação, havia questões a serem levantadas, tópicos a serem debatidos. Deparei-me então com um sindicato de docentes do ensino superior totalmente desconectado dessa pauta, interessado tão somente em assegurar território onde houvesse demarcações de poder. Foi a partir desse contexto que, em 2010, experimentei uma situação ímpar: o corpo docente da universidade decretou greve sem o reconhecimento por parte do sindicato. O movimento grevista precisou abrir frentes de discussão e uma mobilização ainda mais intensa para que o próprio sindicato reconhecesse a paralização e tomasse as providências necessárias para abrir frentes de negociação. E o fez sob algumas condições bem comprometedoras.

Em 2014 os estudantes se levantaram em mobilização intensa novamente, envolvendo tanto discentes do ensino médio quanto das universidades. Nossa faculdade foi ocupada pelo movimento. Mas havia uma ambiguidade naquela mobilização. Ao mesmo tempo que reacendia a força jovem para reivindicar seus direitos, abria portas para o avanço de frentes conservadoras e reacionárias para o enfraquecimento do governo instalado. À época, Dilma era a presidenta, a primeira mulher a assumir o mais alto cargo do poder executivo, destinatária de toda sorte de misoginias e discriminações.

Ainda hoje penso que precisamos aprender a manter as mobilizações, o pensamento crítico, quando os governos mais alinhados à esquerda estão em vigência, mas sem correr o risco de abrir brechas para que as correntes conservadoras e a ultradireita ganhem espaço. Ainda não sabemos fazer isso de modo mais amadurecido.

As mobilizações de então marcaram o início da fragilização do governo de Dilma, que abriu a vereda pela qual chegaria ao impeachment, tendo sido sucedida por seu vice, o Temer, que preparou o terreno para a extrema direita assumir o poder. Desde então, vive-se entre sobressaltos. Em 2022, quando Lula foi eleito, com uma diferença estreita de votos, foi um alívio. Acompanhei, dígito a dígito, o andamento da apuração pelo aplicativo do TSE. Mas neste ano de 2026, quando tudo parecia orquestrado (e de fato estava) para a volta do representante da família miliciana, o sobressalto foi aumentado exponencialmente. Não tive fôlego para acompanhar a apuração desde o início. Engajei-me apenas ao final, já incrédula com o que estava acontecendo.

Agora vamos acompanhando as repercussões dentro e fora do país quanto a esse resultado, e às dinâmicas que levaram a ele. Tenho a certeza de que há duas lições para casa, advindas de todo esse percurso: 1) precisamos aprender a manter viva a capacidade de participar ativamente na vida política do país mas preservando a integridade dos governos com perfil social, que defendem políticas públicas voltadas para a população mais vulnerável; 2) é preciso antecipar as gestões em ciclos, o que significa pensar na formação de pessoas que possam assumir a sucessão, sem serem submissas aos projetos em andamento, mas sem rompimentos com seus princípios basilares.

Nenhum regime democrático está dado por princípio, precisa ser defendido todo o tempo. Nenhum direito que se refira a pessoas vulneráveis ou discriminadas está assegurado desde sempre, a luta é incessante para que seja defendido e fortalecido. Lembro, aqui, as palavras de Eduardo Galeano, no livro A pedra arde: a luta pela liberdade é uma luta que nunca acaba. Para dar continuidade a ela, é preciso lembrar. Não podemos esquecer, nem apagar as marcas das lutas que já foram travadas.

 

 



domingo, 18 de outubro de 2026

Sobre o exercício de escrever e a proclamada inteligência artificial


Desde ser iniciada nas primeiras letras, sempre gostei de escrever. Ainda menina, contava histórias em pequenos textos, e escrevia poemas. Escrevia reflexões sobre o que vivia. Reunia cadernos, papeis avulsos, com uma caligrafia que ia se transformando, no tempo, enquanto eu também me modificava e me deslocava entre lugares, fazeres, pensares.

Já adulta, atuando profissionalmente, publicar textos acadêmicos passou a fazer parte do rol de atividades regulares. Depois, passei também a organizar livros, chegando às publicações de livros autorais. Todos escritos, palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo. Tudo lido e relido, reescrito de diferentes formas, revisado. Mesmo assim, sempre estive ciente de que, quando a publicação estivesse efetivada, encontraria pequenos erros que passaram despercebidos. Escrever me ajuda a organizar o que penso-sinto-faço em relação às temáticas que escolho abordar. Escrevendo, eu me organizo, me revejo e reposiciono em relação às questões que esteja vivendo.

Também acompanho outras pessoas que se dedicam à escrita, algumas acadêmicas, outras literárias, outras escrevem para si, como exercícios que não têm a pretensão da publicação. Mais recentemente, com o advento da proclamada inteligência artificial, no contexto das tecnologias digitais, muitas pessoas começaram a delegar, de modo cada vez mais extenso, o papel da escrita às plataformas generativas. Argumentam que não abrem mão de definir o que deve ser escrito, tampouco da revisão final. Contudo, tem me cabido emitir pareceres sobre artigos e capítulos de livros submetidos para publicação que, por certo, não passaram por essa revisão final depois de terem sido gerados pelas plataformas digitais. Tal percepção decorre de repetições insistentes de frases fixas. Também ressalta a ausência de qualquer erro gramatical ou ortográfico, ao mesmo tempo que falta ao texto uma certa tensão, ou pulso, apresentando-se resolvido, redondo.

Recentemente finalizei a escrita de um livro de ensaios. Depois de ler e reler muitas vezes, de submeter à leitura crítica de pessoas que trabalham com revisão, decidi encaminhar ao escritório de direitos autorais da Biblioteca Nacional, para proceder ao registro. Feito todo o procedimento, fui informada de que a previsão era de até 90 dias para que eu recebesse o documento. No entanto, findo esse prazo, a solicitação continuava “em análise”, com o mesmo status do dia em que foi submetida. Alguns dias depois, entrei em contato, por telefone, para saber se estaria faltando alguma informação para que o processo pudesse ter andamento. A moça que me atendeu, muito gentil, explicou que a comissão responsável pela análise está sobrecarregada com o número enorme de submissões. Àquela época, eles estariam ainda analisando as submissões feitas em maio. Desse modo, a previsão era de que só no mês seguinte eles chegassem ao período quando eu encaminhei a solicitação.

Questionei, então, a validade da informação relativa ao prazo anunciado no próprio processo. Então a moça sorriu e desabafou: A senhora não pode imaginar! Com essa história de inteligência artificial, todo mundo decidiu que vai publicar livro... e essa é uma informação que, agora, precisa ser verificada por nós, par a emissão do registro. Para a senhora fazer uma ideia, só no mês de setembro deste ano, houve mais solicitações de direito autoral do que no ano passado inteiro! E a nossa equipe continua com o mesmo número de pessoas. A gente não teve nem tempo de pensar em qual deve ser o prazo estabelecido agora para se cumprir a análise de cada livro submetido...

Na ponta de cá da chamada telefônica, fiquei em silêncio, impressionada com a informação. Passou-me pela cabeça um grupo de senhoras que escrevem e, recentemente, contrataram um jovem para ensiná-las a operar com a inteligência artificial para agilizar a produção de seus textos.

Por outro lado, quando vou acompanhando o esforço de discentes na escrita de seus trabalhos, entre dúvidas, inseguranças, com cada palavra sendo pensada, reposicionada para assegurar os sentidos articulados, sinto uma alegria especial, por saber que essas pessoas persistem no exercício da autonomia em suas produções.

Não tenho qualquer pretensão de criticar ou excluir as possibilidades oferecidas pelas tecnologias digitais nos processos de escrita e tanto mais. Ao contrário. Todavia, não abro mão da autonomia na estruturação do pensamento, na organização das experiências, na produção de conhecimento em texto, imagens visuais, produções artísticas.

Enquanto isso, sigo aguardando o encaminhamento, pela Biblioteca Nacional, do registro do meu livro.



 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Valquíria e o psicólogo


Minha máquina de lavar roupas já completou 22 anos de trabalho, tendo dado poucos problemas nessas duas décadas. A última vez que tinha sido necessário conserto foi há mais de 10 anos. Mas desta vez ela mostrou-se prostrada, sem força para bater a roupa. Liguei para a empresa que faz a manutenção. Veio o técnico, um rapaz jovem, sorriso largo, grandão, cuidadoso. Depois de verificar tudo, explicou-me que seria necessário levar a máquina para a empresa, para trocar o mecanismo dela. Disse também que colocaria um conjunto de pés novos para ela ficar mais alta. No mesmo dia, algum tempo depois, veio um senhorzinho e levou a máquina.

No dia seguinte, foram iniciadas as obras de recapeamento na minha rua. Na data prevista para a devolução da máquina, o acesso ao meu prédio estava comprometido. Passaram-se uns 4 dias até que pude avisar à equipe que o caminho estava livre para trazerem a máquina. Algumas horas depois, ela voltou. Mas não vieram os pés. E quando, à noite, fui trabalhar com ela, apresentou um barulho muito forte na batida da roupa, além de outros detalhes que chamaram a atenção.

Liguei para a empresa. No mesmo dia, o técnico sorridente voltou. Examinou a máquina. Conversou um pouco. Constatou que o mecanismo novo tinha problema. Ele trocaria o mecanismo e faria alguns ajustes na loja. Quando o senhor veio buscar a máquina, trouxe outra, de reserva, para eu usar enquanto a minha estava no conserto.

Na semana seguinte, minha máquina retornou. No mesmo dia, ao testar, constatei que a cesta estava solta e girava, fazendo um barulho forte, enquanto a roupa era batida. Filmei o funcionamento e enviei para a empresa. No mesmo dia, o técnico veio, alegre. Montou, desmontou, ajustou parafusos, mediu, equilibrou. E foi contando histórias. Contou como se encantou por consertar máquinas de lavar roupas, falou de seu casamento, dos estudos até o ensino médio. Contou também que cada máquina de lavar roupas, de acordo com o modelo, é portadora de um problema crônico congênito. Mas aquela não tinha nenhum desses problemas, apenas estava ficando velhinha. Brincou com a máquina, enquanto ia verificando as peças e seu funcionamento. Fez os testes. Ele mesmo não ficou muito satisfeito com a sonoridade dela. Considerou a possibilidade de ser necessário trocar um capacitor. Pediu que eu fizesse o ciclo completo de lavagem, observando. Se o defeito aparecesse novamente, eu o avisaria diretamente, pelo telefone, sem precisar da mediação da empresa. Depois brincou, dizendo que eu precisava conversar com a máquina, que ela gostava de ouvir histórias. Rimos muito.

Depois que ele foi embora, deixei a máquina lavando um pouco de roupas, cumprindo um ciclo completo. No enxágue, manifestou o defeito. Filmei e enviei para ele. Fiz o comentário: acho que não estou conversando direito com ela... risos. Ele logo me respondeu: amiga, amanhã meio-dia eu levo o capacitor! No dia seguinte, pontualmente, ele chegou, trazendo o capacitor e um sorriso largo. Me cumprimentou, cumprimentou a máquina, perguntou a ela: você estava sentindo falta das minhas histórias, amiga? Rimos. Ele me explicou que tinha ligado para a fábrica da máquina, buscando orientações sobre o seu modelo. Contou, com os olhos brilhando, que tinha conversado com um senhor idoso que integrou a equipe de criação daquela máquina. Estava bem inteirado de seu funcionamento.

Enquanto desmontava a parte traseira, contou-me que era filho de família quilombola, de uma região onde há um terreno com um buraco sem fim. Nessa mesma região, está a casa onde D. Pedro teria passado algumas temporadas, com túneis à volta para fugas estratégicas. Falou com carinho sobre a mãe, a avó, as tias, as irmãs, a esposa. Sentei-me no chão, para ouvi-lo, enquanto ele cuidava da máquina. A moça da faxina viu a cena, distanciou-se, para depois comentar comigo que sentiu vontade de rir pelo inusitado. Comentou que ele não era técnico, mas psicólogo da máquina de lavar roupas. Rimos.

Depois de trocar o capacitor, de testar a máquina nas várias etapas, meu novo amigo seguiu. Deixou recomendações. Pediu que eu o avisasse sobre qualquer problema. Despediu-se da máquina e repetiu a sugestão de que eu conversasse com ela e lhe contasse histórias.

Decidi colocar um nome nela. Depois de considerar algumas possibilidades, escolhi Valquíria, pronunciado sílaba a sílaba, com a cabeça girando para um lado e outro, imitando a batida da roupa: Val-quí-ria!

Valquíria está bem. O capacitor novo lhe deu novo fôlego e força. Cheguei a considerar a possibilidade de solicitar um capacitor novo também para mim. Depois desisti. As conversas com o psicólogo-técnico fizeram bem a ela. Fizeram bem a mim também.

 


 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

LP do Ennio Morricone


 

Fui, com minha irmã, almoçar num sebo de livros que é também café e restaurante. Livros novos e usados, espaço para eventos, auditório, souvenires, mesas postas para saborear delícias. Minha irmã escolheu um prato com iscas de filé e salada servida num aro de massa folhada delicioso. Eu escolhi iscas de filé com salada e purê de batatas. Atrás da varanda, a vegetação verde da quadra se movia com a brisa. O frescor do comecinho da tarde era tempero que tornava ainda mais especial aquela refeição. Quando o garçom, um querido, retirou os pratos, me detive a identificar o disco de vinil, um LP, que servia como sousplat. Fiquei surpresa quando identifiquei a trilha sonora do filme A Missão, composição de Ennio Morricone. O filme, lançado em 1986, dirigido pelo britânico Roland Joffé, aborda a missão dos padres jesuítas na catequização das comunidades indígenas, especialmente entre pessoas da nação Guarani.

Fiquei ali, às voltas com o disco. Ele estava preservado, quase sem arranhões, em perfeito estado. Olhando os vincos fiquei imaginando as músicas das quais não me esqueci. 

O garçom acabou por me presentear o disco. Voltei para casa ainda mais feliz.

 

 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Padeiro

Toda terça-feira à tarde, vou à padaria do supermercado próximo à minha residência. Nesse dia, eles montam um balcão de pães artesanais, de fermentação natural, com diversos sabores. Todos são deliciosos. Muitas pessoas vão até lá, em busca dos pães. Quase todos são vendidos. Os que sobram são embalados com a informação da data de fabricação e vendidos nos dois dias seguintes, a preços mais baratos. 

De modo geral, os pães e bolos e outras guloseimas produzidas ali são muito saborosos. Como também é saboroso o sorriso da senhora que atende, ao balcão, pesando, embalando, opinando, conversando sobre vários assuntos. 

Na última terça-feira, fiquei observando o balcão. Não havia pães expostos. Ela percebeu e me falou: Não teremos os pães nem nesta nem na próxima semana! Fiquei preocupada, perguntei se tinha acontecido alguma coisa com o padeiro. Ela respondeu: Não! Ele está participando de um congresso e vai aproveitar para fazer um curso. Havia orgulho nos olhos dela, informando sobre seu colega de trabalho. Que maravilha! Sorri também. Mas, daqui a duas semanas você já pode vir, que estaremos com os pães novamente, ela completou. 

Senti alegria por contar com os serviços de pessoas como aquela senhora e poder comer pães feitos por um profissional que não só participa de congressos e cursos, mas que tem uma assinatura intransferível. Ele cuida da fermentação natural, ele prepara as misturas para a massa, ele faz os pães, cada um, como quem escreve um poema, ou alinhava um conto.