quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

LP do Ennio Morricone


 

Fui, com minha irmã, almoçar num sebo de livros que é também café e restaurante. Livros novos e usados, espaço para eventos, auditório, souvenires, mesas postas para saborear delícias. Minha irmã escolheu um prato com iscas de filé e salada servida num aro de massa folhada delicioso. Eu escolhi iscas de filé com salada e purê de batatas. Atrás da varanda, a vegetação verde da quadra se movia com a brisa. O frescor do comecinho da tarde era tempero que tornava ainda mais especial aquela refeição. Quando o garçom, um querido, retirou os pratos, me detive a identificar o disco de vinil, um LP, que servia como sousplat. Fiquei surpresa quando identifiquei a trilha sonora do filme A Missão, composição de Ennio Morricone. O filme, lançado em 1986, dirigido pelo britânico Roland Joffé, aborda a missão dos padres jesuítas na catequização das comunidades indígenas, especialmente entre pessoas da nação Guarani.

Fiquei ali, às voltas com o disco. Ele estava preservado, quase sem arranhões, em perfeito estado. Olhando os vincos fiquei imaginando as músicas das quais não me esqueci. 

O garçom acabou por me presentear o disco. Voltei para casa ainda mais feliz.

 

 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Padeiro

Toda terça-feira à tarde, vou à padaria do supermercado próximo à minha residência. Nesse dia, eles montam um balcão de pães artesanais, de fermentação natural, com diversos sabores. Todos são deliciosos. Muitas pessoas vão até lá, em busca dos pães. Quase todos são vendidos. Os que sobram são embalados com a informação da data de fabricação e vendidos nos dois dias seguintes, a preços mais baratos. 

De modo geral, os pães e bolos e outras guloseimas produzidas ali são muito saborosos. Como também é saboroso o sorriso da senhora que atende, ao balcão, pesando, embalando, opinando, conversando sobre vários assuntos. 

Na última terça-feira, fiquei observando o balcão. Não havia pães expostos. Ela percebeu e me falou: Não teremos os pães nem nesta nem na próxima semana! Fiquei preocupada, perguntei se tinha acontecido alguma coisa com o padeiro. Ela respondeu: Não! Ele está participando de um congresso e vai aproveitar para fazer um curso. Havia orgulho nos olhos dela, informando sobre seu colega de trabalho. Que maravilha! Sorri também. Mas, daqui a duas semanas você já pode vir, que estaremos com os pães novamente, ela completou. 

Senti alegria por contar com os serviços de pessoas como aquela senhora e poder comer pães feitos por um profissional que não só participa de congressos e cursos, mas que tem uma assinatura intransferível. Ele cuida da fermentação natural, ele prepara as misturas para a massa, ele faz os pães, cada um, como quem escreve um poema, ou alinhava um conto. 





sábado, 6 de setembro de 2025

Sulear

 

América Invertida. Joaquín Torres-García.1943.

A professora de Valença comentou seu encantamento com a palavra ‘nortear’, usada na língua portuguesa. No espanhol valenciano, não há. Fala-se ‘orientar’, palavra que se refere ao Oriente, à rota da seda, observou ela, para assentar o sentido de direção, direção correta. Ou seja, orientar-se, em última instância, é uma disposição para não perder a direção correta para um mercado de exploração, a seda, produzida no Oriente, durante os processos de colonização. Por isso, para a professora, a palavra ‘nortear’ parecia ter uma conotação mais interessante, por referir-se de modo mais explícito a um dos pontos cardeais, o Norte, que, nas bússolas, é o norte magnético, quando se deseja identificar posições e rotas. Para a professora, europeia, com raízes no Hemisfério Norte, essa referência ao ponto cardeal pareceu inocente.

A etimologia da palavra ‘orientar’ evoca a direção onde nasce o sol. Ou seja, refere-se ao ponto cardeal leste, indicando o caminho a seguir, em direção ao sol nascente. Mas a professora está correta no tocante ao fato de que foi atrelado a esse sentido o de cunho comercial e exploratório, da rota da seda chinesa.

No entanto, tampouco a referência ao norte pode ser considerada inocente. Enquanto a ouvia, pensei na frase do artista uruguaio Joaquín Torres-García, Nosso Norte é o Sul, em relação à sua obra América Invertida, de 1943. Nas discussões de que tenho tomado parte, mais recentemente, com ênfase nos processos de colonização, um marco é muito importante: os colonizadores atuam desde o Hemisfério Norte. As guerras mais devastadoras estão no Hemisfério Norte ou são financiadas por países e povos ali situados. Os impérios econômicos estão construídos no Hemisfério Norte embora exerçam influência em todos os continentes. Resulta que ‘nortear’ é uma palavra tão comprometida quanto ‘orientar’: contemporaneamente, ambas transitam por processos de dominação, colonização, exploração.

Numa referência a Torres-Garcia, proponho o verbo ‘sulear’. Situada desde o Sul, posso me deslocar em todas as direções, para, ao final, sempre voltar para casa, entre afetos e alegrias, com algumas preocupações, mas com a força necessária para saber que o norte não é a única referência, tampouco o oriente ou o ocidente.

Um amigo querido, que vive na Patagônia chilena, relata que ali, a expressão "está de norte", ou "está norteando" refere-se a dias quando há temporal, tormenta de chuva e vento. Por outro lado, quando "está de sul" há bom clima, sol, ainda que venha o frio polar da Antártica. 

Pois que possamos sulear nossos passos por caminhos que nos levem a searas profícuas. E que o clima seja bom.


Planalto Central do Brasil, ao Sul do Equador






terça-feira, 26 de agosto de 2025

Livros pássaros que também são livros travesseiros


No domingo, deixei o primeiro grupo de livros na Praça Universitária, dentro do projeto Livros Pássaros. Só retornei lá hoje, dois dias depois, para buscar rastros do que pudesse ter ocorrido desde então, e deixar o segundo grupo de livros.

No banco onde deixei um pequeno totem de livros, um morador de rua estava dormindo. Quando me aproximei, percebi que ele usava quatro livros para apoiar a cabeça. Sorri. Comecei a organizar os livros no canteiro onde ficam os totens feitos com pedaços de tijolo e cimento. Estavam todos derrubados. Montei quatro grupos de livros, e apoiei um pequeno pedaço de cimento sobre cada um, para proteger do vento.

Outro morador de rua, curioso, me perguntou sobre os livros. Respondi que eram para quem gostasse de ler. Você gosta de ler? Que sim, respondeu. Olhou, de longe, e seguiu. O rapaz que dormia no banco espreguiçou-se. Sem pressa, levantou-se, pegou sua mochila e foi embora. Fui verificar quais eram os quatro livros deixados no banco. Só então percebi que havia, no chão, alguns dos bilhetes que deixei dentro dos livros.

Fui me distanciando. Um rapaz sentou-se no banco, olhou os livros, depois seguiu na direção oposta à minha.

Seguimos todos: eu, o rapaz, os moradores de rua, os livros... quem sabe dos nossos destinos?












domingo, 24 de agosto de 2025

Livros pássaros




Comecei a executar o projeto Livros Pássaros. A bem da verdade, no último período da seca, eu já havia iniciado, mas de forma precária, sem sistematização. Eu apenas deixei alguns livros numa praça, sem mensagem, sem voltar depois para saber se teriam alçado voos ou não. 

Do que se trata? Minha casa é habitada por muitos livros. A maior parte dos quais, depois de terem sido lidos, depois de terem integrado pesquisas diversas, já não são usados. Os temas de pesquisa mudaram. Os referenciais teóricos também. As interlocuções passaram a reivindicar outros pontos de vista. Por isso, decidi libertar esses livros das gaiolas de armários e prateleiras, onde ficam, hibernados, sem encontrar com quem conversar.

Na Praça Honestino Guimarães, popularmente conhecida como Praça Universitária, há um bom tempo, um senhor organiza pequenos totens de pedra, pedaços de tijolos ou cimento. Os totens se encontram em toda a extensão da praça, debaixo de árvores, nos canteiros, ao lado das esculturas de artistas reconhecidos. De aparência frágil, muitas pessoas passam, desmontando os totens. Mas, no dia seguinte, eles estão lá, reconstituídos, ocupando outros espaços. Se a estrutura dos totens é frágil, podendo ser facilmente desmontada, a capacidade de reconstrução demonstrada pelo senhor que os organiza é enorme, bem como a força sutil que o move nesse projeto.

Decidi, então, dialogar com os totens de cimento, construindo totens com os livros nas mesmas áreas por eles ocupadas. Dentro de cada um dos livros, deixo uma mensagem para quem os venha a encontrar:



Quando terminei de organizar o segundo grupo de livros, na praça, e fui me afastando, uma jovem passou por perto, diminuiu o passo, ficou olhando. Depois seguiu. Perguntei se ela tinha se interessado pelos livros. De longe, respondeu que tinha achado curioso. Falei que ela poderia olhar e tomar algum que lhe interessasse, se quisesse. Ela voltou, olhou os livros enquanto conversamos. Tinha interesse por livros de literatura. Eu não tinha deixado nenhum, nessa leva. Prometi que, no próximo grupo, levaria alguns de literatura. Contou que é estudante de medicina, que passa por ali todos os dias. Disse também que já viu o senhor organizando os totens de tijolos, mas nunca lhe ocorreu conversar com ele. Da próxima vez, vai conversar.

Seguimos, cada uma, nossos caminhos. Os livros pássaros já começaram a produzir efeitos. Que sigam livres em seus voos.








 

 

  

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Tartarugas

Há alguns anos, a professora comprou um carro novo, que tinha airbag. Andava feliz pela cidade, dirigindo a novidade. Numa noite de muita chuva, algumas ruas alagaram. Num cruzamento cheio de água, ela seguiu em linha reta onde precisava contornar uma rotatória demarcada com peças de concreto com a forma de uma esfera cortada ao meio, carinhosamente chamadas de tartarugas. A professora não as viu, pois estavam imersas na água. Como resultado, bateu o carro contra uma delas. No impacto, o airbag foi acionado e explodiu, espalhando material químico e causando queimaduras na pele da professora, em várias partes do corpo.

 

Ela foi à delegacia registrar o ocorrido, para responsabilizar a fábrica do carro pela explosão do airbag. O funcionário preencheu o formulário: “a vítima informa que bateu com o carro contra uma tartaruga...” A professora, atenta, pediu que ele completasse a informação adequadamente: “escreva aí, bateu com o carro contra uma tartaruga de cimento!”. Não queria problemas com as sociedades protetoras dos animais.

 

Algum tempo depois, noite adentro, um carro, depois de ter contornado corretamente uma rotatória demarcada por tartarugas de cimento, bateu com violência contra algum objeto que ele não percebera, danificando a roda e o pneu. O motorista parou o carro adiante, olhou a rua meio transtornado, sem avistar nada que pudesse ter atingido seu veículo. Ficou, por algum tempo, ali, sem compreender o ocorrido. Um passante ofereceu ajuda, que o motorista recusou, entre receios. O passante seguiu sua caminhada, lentamente, observando à distância o carro danificado. E pôde testemunhar o segundo carro também colidindo com alguma coisa, a mesma coisa, que até então ninguém conseguira identificar. O segundo motorista também parou o carro adiante e foi se solidarizar com o primeiro, ambos com a roda e o pneu direito traseiro do carro danificado.

 

Enquanto isso, com calma, o passante chegou mais próximo do cruzamento e identificou uma tartaruga de cimento na rua, deslocada da rotatória, próxima da calçada. À noite, todos os gatos são pardos. As tartarugas de cimento também: pardas e da mesma cor do asfalto e da calçada. Talvez tivesse saído fazer uma caminhada. Assim, disfarçada, ela atingira os dois carros sem ser percebida.

 

Pensando por outro lado, pobre tartaruguinha, mal saíra para um breve passeio, acabou atropelada por dois carros seguidos...

 

Há poucos dias, outra professora relatou que sofrera uma queda, em razão da qual precisou ficar em licença médica por alguns dias. Indagada pela gravidade da queda, ela explicou que, atravessando a rua, tropeçara numa tartaruga... Na queda, bateu com o rosto em outra tartaruga, quebrara um dente, além de escoriações em todo o corpo, resultando em vários hematomas.

 

Tartarugas de cimento: prefiro tê-las minhas amigas... melhor não arriscar!