Desde ser iniciada nas primeiras letras, sempre gostei de escrever. Ainda menina, contava histórias em pequenos textos, e escrevia poemas. Escrevia reflexões sobre o que vivia. Reunia cadernos, papeis avulsos, com uma caligrafia que ia se transformando, no tempo, enquanto eu também me modificava e me deslocava entre lugares, fazeres, pensares.
Já adulta, atuando profissionalmente, publicar textos
acadêmicos passou a fazer parte do rol de atividades regulares. Depois, passei
também a organizar livros, chegando às publicações de livros autorais. Todos escritos,
palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo. Tudo lido e relido, reescrito
de diferentes formas, revisado. Mesmo assim, sempre estive ciente de que, quando a publicação
estivesse efetivada, encontraria pequenos erros que passaram despercebidos. Escrever
me ajuda a organizar o que penso-sinto-faço em relação às temáticas que escolho
abordar. Escrevendo, eu me organizo, me revejo e reposiciono em relação às
questões que esteja vivendo.
Também acompanho outras pessoas que se dedicam à escrita,
algumas acadêmicas, outras literárias, outras escrevem para si, como exercícios que não têm a pretensão da publicação. Mais recentemente, com o advento da proclamada
inteligência artificial, no contexto das tecnologias digitais, muitas pessoas
começaram a delegar, de modo cada vez mais extenso, o papel da escrita às
plataformas generativas. Argumentam que não abrem mão de definir o que deve ser
escrito, tampouco da revisão final. Contudo, tem me cabido emitir pareceres
sobre artigos e capítulos de livros submetidos para publicação que, por certo,
não passaram por essa revisão final depois de terem sido gerados pelas
plataformas digitais. Tal percepção decorre de repetições insistentes de frases
fixas. Também ressalta a ausência de qualquer erro gramatical ou ortográfico,
ao mesmo tempo que falta ao texto uma certa tensão, ou pulso, apresentando-se
resolvido, redondo.
Recentemente finalizei a escrita de um livro de ensaios. Depois de ler e reler muitas vezes, de submeter à leitura crítica de pessoas
que trabalham com revisão, decidi encaminhar ao escritório de direitos autorais
da Biblioteca Nacional, para proceder ao registro. Feito todo o procedimento,
fui informada de que a previsão era de até 90 dias para que eu recebesse o
documento. No entanto, findo esse prazo, a solicitação continuava “em análise”,
com o mesmo status do dia em que foi submetida. Alguns dias depois, entrei em
contato, por telefone, para saber se estaria faltando alguma informação para
que o processo pudesse ter andamento. A moça que me atendeu, muito gentil,
explicou que a comissão responsável pela análise está sobrecarregada com o número
enorme de submissões. Àquela época, eles estariam ainda analisando as submissões
feitas em maio. Desse modo, a previsão era de que só no mês seguinte eles
chegassem ao período quando eu encaminhei a solicitação.
Questionei, então, a validade da informação relativa ao
prazo anunciado no próprio processo. Então a moça sorriu e desabafou: A
senhora não pode imaginar! Com essa história de inteligência artificial, todo
mundo decidiu que vai publicar livro... e essa é uma informação que, agora, precisa ser verificada por nós, par a emissão do registro. Para a senhora fazer uma ideia, só no
mês de setembro deste ano, houve mais solicitações de direito autoral do que no
ano passado inteiro! E a nossa equipe continua com o mesmo número de pessoas. A
gente não teve nem tempo de pensar em qual deve ser o prazo estabelecido agora
para se cumprir a análise de cada livro submetido...
Na ponta de cá da chamada telefônica, fiquei em silêncio,
impressionada com a informação. Passou-me pela cabeça um grupo de senhoras que
escrevem e, recentemente, contrataram um jovem para ensiná-las a operar com a inteligência
artificial para agilizar a produção de seus textos.
Por outro lado, quando vou acompanhando o esforço de discentes
na escrita de seus trabalhos, entre dúvidas, inseguranças, com cada palavra
sendo pensada, reposicionada para assegurar os sentidos articulados, sinto uma
alegria especial, por saber que essas pessoas persistem no exercício da autonomia em suas produções.
Não tenho qualquer pretensão de criticar ou excluir as
possibilidades oferecidas pelas tecnologias digitais nos processos de escrita e
tanto mais. Ao contrário. Todavia, não abro mão da autonomia na estruturação do
pensamento, na organização das experiências, na produção de conhecimento em
texto, imagens visuais, produções artísticas.
Enquanto isso, sigo aguardando o encaminhamento, pela
Biblioteca Nacional, do registro do meu livro.