domingo, 18 de outubro de 2026

Sobre o exercício de escrever e a proclamada inteligência artificial


Desde ser iniciada nas primeiras letras, sempre gostei de escrever. Ainda menina, contava histórias em pequenos textos, e escrevia poemas. Escrevia reflexões sobre o que vivia. Reunia cadernos, papeis avulsos, com uma caligrafia que ia se transformando, no tempo, enquanto eu também me modificava e me deslocava entre lugares, fazeres, pensares.

Já adulta, atuando profissionalmente, publicar textos acadêmicos passou a fazer parte do rol de atividades regulares. Depois, passei também a organizar livros, chegando às publicações de livros autorais. Todos escritos, palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo. Tudo lido e relido, reescrito de diferentes formas, revisado. Mesmo assim, sempre estive ciente de que, quando a publicação estivesse efetivada, encontraria pequenos erros que passaram despercebidos. Escrever me ajuda a organizar o que penso-sinto-faço em relação às temáticas que escolho abordar. Escrevendo, eu me organizo, me revejo e reposiciono em relação às questões que esteja vivendo.

Também acompanho outras pessoas que se dedicam à escrita, algumas acadêmicas, outras literárias, outras escrevem para si, como exercícios que não têm a pretensão da publicação. Mais recentemente, com o advento da proclamada inteligência artificial, no contexto das tecnologias digitais, muitas pessoas começaram a delegar, de modo cada vez mais extenso, o papel da escrita às plataformas generativas. Argumentam que não abrem mão de definir o que deve ser escrito, tampouco da revisão final. Contudo, tem me cabido emitir pareceres sobre artigos e capítulos de livros submetidos para publicação que, por certo, não passaram por essa revisão final depois de terem sido gerados pelas plataformas digitais. Tal percepção decorre de repetições insistentes de frases fixas. Também ressalta a ausência de qualquer erro gramatical ou ortográfico, ao mesmo tempo que falta ao texto uma certa tensão, ou pulso, apresentando-se resolvido, redondo.

Recentemente finalizei a escrita de um livro de ensaios. Depois de ler e reler muitas vezes, de submeter à leitura crítica de pessoas que trabalham com revisão, decidi encaminhar ao escritório de direitos autorais da Biblioteca Nacional, para proceder ao registro. Feito todo o procedimento, fui informada de que a previsão era de até 90 dias para que eu recebesse o documento. No entanto, findo esse prazo, a solicitação continuava “em análise”, com o mesmo status do dia em que foi submetida. Alguns dias depois, entrei em contato, por telefone, para saber se estaria faltando alguma informação para que o processo pudesse ter andamento. A moça que me atendeu, muito gentil, explicou que a comissão responsável pela análise está sobrecarregada com o número enorme de submissões. Àquela época, eles estariam ainda analisando as submissões feitas em maio. Desse modo, a previsão era de que só no mês seguinte eles chegassem ao período quando eu encaminhei a solicitação.

Questionei, então, a validade da informação relativa ao prazo anunciado no próprio processo. Então a moça sorriu e desabafou: A senhora não pode imaginar! Com essa história de inteligência artificial, todo mundo decidiu que vai publicar livro... e essa é uma informação que, agora, precisa ser verificada por nós, par a emissão do registro. Para a senhora fazer uma ideia, só no mês de setembro deste ano, houve mais solicitações de direito autoral do que no ano passado inteiro! E a nossa equipe continua com o mesmo número de pessoas. A gente não teve nem tempo de pensar em qual deve ser o prazo estabelecido agora para se cumprir a análise de cada livro submetido...

Na ponta de cá da chamada telefônica, fiquei em silêncio, impressionada com a informação. Passou-me pela cabeça um grupo de senhoras que escrevem e, recentemente, contrataram um jovem para ensiná-las a operar com a inteligência artificial para agilizar a produção de seus textos.

Por outro lado, quando vou acompanhando o esforço de discentes na escrita de seus trabalhos, entre dúvidas, inseguranças, com cada palavra sendo pensada, reposicionada para assegurar os sentidos articulados, sinto uma alegria especial, por saber que essas pessoas persistem no exercício da autonomia em suas produções.

Não tenho qualquer pretensão de criticar ou excluir as possibilidades oferecidas pelas tecnologias digitais nos processos de escrita e tanto mais. Ao contrário. Todavia, não abro mão da autonomia na estruturação do pensamento, na organização das experiências, na produção de conhecimento em texto, imagens visuais, produções artísticas.

Enquanto isso, sigo aguardando o encaminhamento, pela Biblioteca Nacional, do registro do meu livro.