No último dia 25 de outubro de 2026, me levantei logo no início da manhã e fui votar. Na minha sessão, observava as pessoas. Muitas usando roupas vermelhas, com adesivos. Outras usavam roupas amarelas, camisetas da seleção brasileira. Estas estavam divididas entre o meu candidato, Lula, e o outro. Havia pessoas efusivas, mas a maior parte estava mais contida. Eu também. O medo me continha. Senti mais medo do que nas eleições anteriores, em 2022 e em 2018. Minha pele não desenvolveu calosidades a partir dessas ocasiões.
Depois de votar, fui ter com minha irmã, almoçamos, e logo
no início da tarde segui para Goiânia, onde cumpriria jornada de trabalho na
manhã da segunda-feira.
Pretendia não acompanhar os noticiários nem as apurações.
Mas tinha expectativas em relação à manhã seguinte: como eu estaria me
sentindo? O que teria ocorrido?
Eu comecei a me compreender como um ser político ativo
quando ingressei na universidade para o primeiro curso de graduação, em 1980.
Estávamos, ainda, em plena ditadura militar. O reitor da universidade era
militar da marinha, tendo sido indicado pelo presidente da república há muitos
anos. O primeiro semestre do curso era constituído por disciplinas do núcleo
básico, tais como língua portuguesa, língua inglesa, estudos dos problemas
brasileiros 1, introdução à sociologia, educação física. Estudantes de todos os
cursos estavam juntos em grandes grupos que tinham aulas nos anfiteatros do
Instituto Central de Ciências, o ICC, popularmente conhecido como minhocão,
dada sua extensão.
Logo no primeiro semestre, indo para a aula deparei-me com
uma barricada de carteiras à porta do anfiteatro. Constatei que todas as portas
de salas de aula estavam interditadas. Os estudantes estavam em greve. Caloura,
ainda não tinha ideia sobre como se davam essas dinâmicas. Busquei pelo
professor responsável pela aula daquele dia. Estava em sua sala,
tranquilamente, lendo algum livro. Respondeu que os estudantes não tinham
vindo, estavam em greve. Que ele registraria falta para todos. Mas também
avisou que, mesmo que eu quisesse aula, não ministraria aulas.
Saí dali meio confusa. Mas entendi que eu também eu estava
em greve.
Aquela mobilização não teve longa duração. Mas depois, nos
semestres seguintes, se repetiriam várias mobilizações, e eu passaria a me
integrar não só aos estudantes ligados ao curso que eu estava fazendo, mas aos
centros acadêmicos e ao diretório central dos estudantes, vinculado ao qual
montamos um grupo de teatro.
Foram anos ativos, com muitas assembleias das quais tomavam
parte milhares de estudantes, vigiados por policiais e seus cães. As greves
envolviam passeatas, ocupações da reitoria, instalações no campus da
universidade, idas ao ministério da educação. As assembleias muito concorridas
contavam com a presença de políticos que atuavam na oposição.
Quando terminei a graduação, comecei a dar aulas numa escola
da iniciativa privada. Era 1984, ano quando foram deflagradas as mobilizações
pelas “diretas já”. Havia manifestações em todos os lugares. O voto direto para
eleger quem assumiria a presidência da república compareceu como reivindicação nas
ruas com força crescente. O amarelo foi escolhido como a cor que representou
esse pleito. Eu dava aulas com uma fita amarela do lado do coração, ou amarrada
no braço.
Aquele ano foi agitado. Negociou-se, então, um governo
civil, de transição, eleito ainda pelo voto indireto. Tancredo Neves compareceu
como liderança capaz de conciliar a voz que vinha das ruas e as demandas do
congresso, àquele momento. Sarney era seu vice. A chapa foi eleita. Mas, em
1985, um dia antes da posse, tarde da noite, eu estava no ponto de ônibus,
esperando para voltar para casa depois de dar aulas numa escola no Guará 1. Um
rapaz chegou com o rádio ligado. Ouvi o noticiário sobre o estado grave de
saúde em que se encontrava o Tancredo, internado às pressas no Hospital de Base
de Brasília. Senti um frio percorrer o corpo todo. No dia 21 de abril
oficializou-se a sua morte. Fontes de dentro do hospital dizem que ele teria
morrido de fato no dia 20, mas aguardaram o dia 21 para anunciar, por ser uma
data simbolicamente importante para o país. Meu pai também morrera no dia 21 de
abril, alguns anos antes.
O que seria agora?
Negociações de poder em curso, Sarney assumiu e governou o
país por 5 anos, num período tumultuado do ponto de vista econômico e também
político.
Naquele mesmo ano de 1985, ante as dificuldades para
conseguir trabalho com salário minimamente decente, acabei fazendo concurso
para a FUNAI. Para a prova escrita, li o livro “Vítimas do milagre: o
desenvolvimento e os índios do Brasil”, do antropólogo norte-americano Shelton
H. Davis. Não me lembro como esse material me chegou às mãos, àquela época. O
fato é que cheguei para a seleção munida de uma discussão interessante sobre
como a política desenvolvimentista, o chamado milagre econômico protagonizado
pela ditadura militar, repercutiu entre as comunidades indígenas brasileiras,
resultando em mortes e destruição as quais ainda hoje não somos capazes de
dimensionar.
O concurso estava organizado em três etapas extensas. A
primeira, com prova escrita e psicológica; a segunda, um curso-treinamento,
quando tivemos aulas de antropologia, história, geografia, políticas públicas,
primeiros socorros, linguística, dentre outros tópicos. Foram dois meses com
aulas o dia todo. Nesse percurso, conheci Berta Ribeiro, Carmem Junqueira, Ivar
Busato, Carlos Rodrigues Brandão, Sydney Possuelo.
Aprovada nessa etapa de treinamento, fui encaminhada para a
última etapa, estágio de três meses a ser realizado já em área. Pretendia-se
que o estágio fosse realizado no território onde o estagiário pudesse ser
alocado quando se efetivasse a contratação. Assim, com algumas poucas roupas na
mochila, segui para o vale do Guaporé, onde encontrei o indigenista Sílbene de
Almeida, no posto indígena Manairisu, junto ao povo hahaintesu.
Naquele ano, o primeiro ano de gestão do Sarney na
presidência, a FUNAI teve designados 6 presidentes. A instabilidade era muito
grande naquela área, sob a ameaça de garimpeiros, madeireiros e fazendeiros,
todos inimigos declarados das comunidades indígenas. Por consequência, eram
também inimigos de quem os defendesse.
Ante a insegurança da própria FUNAI com as quantas trocas na
presidência, e a falta de perspectiva efetiva de contratação, retornei. De
volta a Brasília, assumi a vaga de um concurso na rede pública de ensino, para
o qual eu havia sido aprovada, mas não tinha sido contratada à época da
primeira convocação por um encaminhamento de má fé do funcionário que me
atendeu, em relação ao qual não soube me defender. Enfim. Passava a ser
professora da rede pública, enquanto aguardava os encaminhamentos da FUNAI. Ao
mesmo tempo, filiei-me ao sindicado dos professores. Não demorou para que eu
tomasse parte ativa dos movimentos grevistas em curso.
Não tendo sido contratada pela FUNAI, transcorri a segunda
metade dos anos 1980 atuando como docente e assumindo o papel político de quem
debate entre os pares, com estudantes e a comunidade em geral os papéis sociais
de cada qual, as estruturas hierárquicas que aprofundam desigualdades, as
precariedades salariais, as condições de trabalho, dentre outras temáticas
caras ao ofício docente.
As assembleias reuniam milhares de professores no gramado
diante do congresso nacional, ou na sombra do estádio Mané Garrincha. Ao final,
sempre seguíamos, em passeata, até o ministério da educação, ou até a sede do
governo do Distrito Federal. Os governadores ainda eram indicados pelo
presidente. Entre 1985 e 1988, os embates foram com o governador José
Aparecido. Depois, os embates se aprofundaram com o governador Joaquim Roriz,
com projetos mais ambiciosos de permanência no poder.
Quando se iniciou a campanha para presidente, o primeiro a
ser eleito por voto direto desde a instauração da ditadura militar, em 1964, alinhei-me
à campanha de Luís Inácio Lula da Silva, diante do delírio do outro candidato,
Collor de Melo, e sua vociferação contra os marajás. Lembro de um final de
tarde, quando estacionei meu fusca à frente de um supermercado, um menino que
vivia por ali veio me perguntar se eu votaria no Lula. Respondi que sim. Ele sorriu
e me abraçou. Sentia-se representado. Mas a população em geral teve medo do
operário sindicalista. Preferiu o playboy delirante que já cometera tantas
insanidades em anos anteriores, certo da impunidade. Collor foi eleito.
Congelou os dinheiros de toda a população. A inflação subiu a patamares
assustadores. Os jovens foram para as ruas, com o rosto pintado de verde e
amarelo, bradar contra ele. Eram os caras-pintadas. Eu estava lá, entre eles,
empunhando uma bandeira totalmente negra, em contraste com as cores da
bandeira.
Collor deixou a presidência, que foi assumida por Itamar. Antes
disso, Roriz havia saído do governo do Distrito Federal, integrando a equipe de
Collor, para poder se candidatar novamente ao DF, tendo sido eleito pelo voto
direto. As tensões entre a classe docente e ele continuaram, até que, em 1994,
foi substituído por Cristóvão Buarque, professor da Universidade de Brasília e
primeiro reitor eleito, depois de deposto o reitor que era militar da marinha.
A essa época, decidi retomar os estudos, tendo sido aprovada
para fazer o mestrado em educação. Quando voltei à universidade, na condição de
estudante de pós-graduação, fiquei muito impressionada ao constatar que o
diretório central dos estudantes estava totalmente desarticulado. Até houve a tentativa
de eleição de uma diretoria, quando um cãozinho de estimação dos estudantes
recebeu mais votos que qualquer outra candidatura. Além disso, chamou-me a
atenção o fato de que, em meados dos anos 1990, eram os docentes que faziam
greve, muitas vezes criticados pelos estudantes por interromperem as atividades
em aula.
Em 1998, acompanhei um movimento docente naquela
universidade, quando um grupo de professores fez greve de fome em protesto
contra a política salarial de Fernando Henrique Cardoso, então presidente da
república. Dentre esses docentes, havia uma professora de quem fui aluna,
durante o mestrado. No início dos anos 2000, iniciei o doutorado em sociologia,
ainda tendo Fernando Henrique Cardoso na presidência da república, em seu
segundo mandato, e novamente Joaquim Roriz como governador do Distrito Federal,
que respondeu por quatro mandatos, sendo os dois últimos consecutivos, entre
1999 e 2006. O movimento sindical dos professores sofrera também uma
desarticulação iniciada durante a gestão do professor Cristóvão Buarque de
Holanda à frente do governo distrital. Na universidade, a mobilização
estudantil tentava se reerguer, sem muito fôlego.
Em 2002, finalmente, Luís Inácio Lula da Silva foi eleito
presidente da república. Iniciava-se ali um período de negociações e
conciliação, de vida que segue em frente, com muito trabalho, mas também alento.
Um tempo de crescimento. Em 2004, passei a integrar o corpo docente efetivo da
Universidade Federal de Goiás, que experimentou um processo de expansão sem
precedentes, bem como as demais universidades federais em todo o país.
Apesar do alinhamento com o governo federal, especialmente
com as políticas do ministério da educação, havia questões a serem levantadas,
tópicos a serem debatidos. Deparei-me então com um sindicato de docentes do
ensino superior totalmente desconectado dessa pauta, interessado tão somente em
assegurar território onde houvesse demarcações de poder. Foi a partir desse
contexto que, em 2010, experimentei uma situação ímpar: o corpo docente da
universidade decretou greve sem o reconhecimento por parte do sindicato. O movimento
grevista precisou abrir frentes de discussão e uma mobilização ainda mais
intensa para que o próprio sindicato reconhecesse a paralização e tomasse as
providências necessárias para abrir frentes de negociação. E o fez sob algumas
condições bem comprometedoras.
Em 2014 os estudantes se levantaram em mobilização intensa
novamente, envolvendo tanto discentes do ensino médio quanto das universidades.
Nossa faculdade foi ocupada pelo movimento. Mas havia uma ambiguidade naquela
mobilização. Ao mesmo tempo que reacendia a força jovem para reivindicar seus
direitos, abria portas para o avanço de frentes conservadoras e reacionárias
para o enfraquecimento do governo instalado. À época, Dilma era a presidenta, a
primeira mulher a assumir o mais alto cargo do poder executivo, destinatária de
toda sorte de misoginias e discriminações.
Ainda hoje penso que precisamos aprender a manter as
mobilizações, o pensamento crítico, quando os governos mais alinhados à
esquerda estão em vigência, mas sem correr o risco de abrir brechas para que as
correntes conservadoras e a ultradireita ganhem espaço. Ainda não sabemos fazer
isso de modo mais amadurecido.
As mobilizações de então marcaram o início da fragilização
do governo de Dilma, que abriu a vereda pela qual chegaria ao impeachment, tendo
sido sucedida por seu vice, o Temer, que preparou o terreno para a extrema
direita assumir o poder. Desde então, vive-se entre sobressaltos. Em 2022,
quando Lula foi eleito, com uma diferença estreita de votos, foi um alívio. Acompanhei,
dígito a dígito, o andamento da apuração pelo aplicativo do TSE. Mas neste ano
de 2026, quando tudo parecia orquestrado (e de fato estava) para a volta do
representante da família miliciana, o sobressalto foi aumentado
exponencialmente. Não tive fôlego para acompanhar a apuração desde o início. Engajei-me
apenas ao final, já incrédula com o que estava acontecendo.
Agora vamos acompanhando as repercussões dentro e fora do
país quanto a esse resultado, e às dinâmicas que levaram a ele. Tenho a certeza
de que há duas lições para casa, advindas de todo esse percurso: 1) precisamos
aprender a manter viva a capacidade de participar ativamente na vida política
do país mas preservando a integridade dos governos com perfil social, que
defendem políticas públicas voltadas para a população mais vulnerável; 2) é
preciso antecipar as gestões em ciclos, o que significa pensar na formação de pessoas
que possam assumir a sucessão, sem serem submissas aos projetos em andamento,
mas sem rompimentos com seus princípios basilares.
Nenhum regime democrático está dado por princípio, precisa
ser defendido todo o tempo. Nenhum direito que se refira a pessoas vulneráveis ou
discriminadas está assegurado desde sempre, a luta é incessante para que seja
defendido e fortalecido. Lembro, aqui, as palavras de Eduardo Galeano, no livro
A pedra arde: a luta pela liberdade é uma luta que nunca acaba. Para dar
continuidade a ela, é preciso lembrar. Não podemos esquecer, nem apagar as
marcas das lutas que já foram travadas.