sexta-feira, 24 de julho de 2026

Valquíria e o psicólogo


Minha máquina de lavar roupas já completou 22 anos de trabalho, tendo dado poucos problemas nessas duas décadas. A última vez que tinha sido necessário conserto foi há mais de 10 anos. Mas desta vez ela mostrou-se prostrada, sem força para bater a roupa. Liguei para a empresa que faz a manutenção. Veio o técnico, um rapaz jovem, sorriso largo, grandão, cuidadoso. Depois de verificar tudo, explicou-me que seria necessário levar a máquina para a empresa, para trocar o mecanismo dela. Disse também que colocaria um conjunto de pés novos para ela ficar mais alta. No mesmo dia, algum tempo depois, veio um senhorzinho e levou a máquina.

No dia seguinte, foram iniciadas as obras de recapeamento na minha rua. Na data prevista para a devolução da máquina, o acesso ao meu prédio estava comprometido. Passaram-se uns 4 dias até que pude avisar à equipe que o caminho estava livre para trazerem a máquina. Algumas horas depois, ela voltou. Mas não vieram os pés. E quando, à noite, fui trabalhar com ela, apresentou um barulho muito forte na batida da roupa, além de outros detalhes que chamaram a atenção.

Liguei para a empresa. No mesmo dia, o técnico sorridente voltou. Examinou a máquina. Conversou um pouco. Constatou que o mecanismo novo tinha problema. Ele trocaria o mecanismo e faria alguns ajustes na loja. Quando o senhor veio buscar a máquina, trouxe outra, de reserva, para eu usar enquanto a minha estava no conserto.

Na semana seguinte, minha máquina retornou. No mesmo dia, ao testar, constatei que a cesta estava solta e girava, fazendo um barulho forte, enquanto a roupa era batida. Filmei o funcionamento e enviei para a empresa. No mesmo dia, o técnico veio, alegre. Montou, desmontou, ajustou parafusos, mediu, equilibrou. E foi contando histórias. Contou como se encantou por consertar máquinas de lavar roupas, falou de seu casamento, dos estudos até o ensino médio. Contou também que cada máquina de lavar roupas, de acordo com o modelo, é portadora de um problema crônico congênito. Mas aquela não tinha nenhum desses problemas, apenas estava ficando velhinha. Brincou com a máquina, enquanto ia verificando as peças e seu funcionamento. Fez os testes. Ele mesmo não ficou muito satisfeito com a sonoridade dela. Considerou a possibilidade de ser necessário trocar um capacitor. Pediu que eu fizesse o ciclo completo de lavagem, observando. Se o defeito aparecesse novamente, eu o avisaria diretamente, pelo telefone, sem precisar da mediação da empresa. Depois brincou, dizendo que eu precisava conversar com a máquina, que ela gostava de ouvir histórias. Rimos muito.

Depois que ele foi embora, deixei a máquina lavando um pouco de roupas, cumprindo um ciclo completo. No enxágue, manifestou o defeito. Filmei e enviei para ele. Fiz o comentário: acho que não estou conversando direito com ela... risos. Ele logo me respondeu: amiga, amanhã meio-dia eu levo o capacitor! No dia seguinte, pontualmente, ele chegou, trazendo o capacitor e um sorriso largo. Me cumprimentou, cumprimentou a máquina, perguntou a ela: você estava sentindo falta das minhas histórias, amiga? Rimos. Ele me explicou que tinha ligado para a fábrica da máquina, buscando orientações sobre o seu modelo. Contou, com os olhos brilhando, que tinha conversado com um senhor idoso que integrou a equipe de criação daquela máquina. Estava bem inteirado de seu funcionamento.

Enquanto desmontava a parte traseira, contou-me que era filho de família quilombola, de uma região onde há um terreno com um buraco sem fim. Nessa mesma região, está a casa onde D. Pedro teria passado algumas temporadas, com túneis à volta para fugas estratégicas. Falou com carinho sobre a mãe, a avó, as tias, as irmãs, a esposa. Sentei-me no chão, para ouvi-lo, enquanto ele cuidava da máquina. A moça da faxina viu a cena, distanciou-se, para depois comentar comigo que sentiu vontade de rir pelo inusitado. Comentou que ele não era técnico, mas psicólogo da máquina de lavar roupas. Rimos.

Depois de trocar o capacitor, de testar a máquina nas várias etapas, meu novo amigo seguiu. Deixou recomendações. Pediu que eu o avisasse sobre qualquer problema. Despediu-se da máquina e repetiu a sugestão de que eu conversasse com ela e lhe contasse histórias.

Decidi colocar um nome nela. Depois de considerar algumas possibilidades, escolhi Valquíria, pronunciado sílaba a sílaba, com a cabeça girando para um lado e outro, imitando a batida da roupa: Val-quí-ria!

Valquíria está bem. O capacitor novo lhe deu novo fôlego e força. Cheguei a considerar a possibilidade de solicitar um capacitor novo também para mim. Depois desisti. As conversas com o psicólogo-técnico fizeram bem a ela. Fizeram bem a mim também.

 


 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

LP do Ennio Morricone


 

Fui, com minha irmã, almoçar num sebo de livros que é também café e restaurante. Livros novos e usados, espaço para eventos, auditório, souvenires, mesas postas para saborear delícias. Minha irmã escolheu um prato com iscas de filé e salada servida num aro de massa folhada delicioso. Eu escolhi iscas de filé com salada e purê de batatas. Atrás da varanda, a vegetação verde da quadra se movia com a brisa. O frescor do comecinho da tarde era tempero que tornava ainda mais especial aquela refeição. Quando o garçom, um querido, retirou os pratos, me detive a identificar o disco de vinil, um LP, que servia como sousplat. Fiquei surpresa quando identifiquei a trilha sonora do filme A Missão, composição de Ennio Morricone. O filme, lançado em 1986, dirigido pelo britânico Roland Joffé, aborda a missão dos padres jesuítas na catequização das comunidades indígenas, especialmente entre pessoas da nação Guarani.

Fiquei ali, às voltas com o disco. Ele estava preservado, quase sem arranhões, em perfeito estado. Olhando os vincos fiquei imaginando as músicas das quais não me esqueci. 

O garçom acabou por me presentear o disco. Voltei para casa ainda mais feliz.

 

 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Padeiro

Toda terça-feira à tarde, vou à padaria do supermercado próximo à minha residência. Nesse dia, eles montam um balcão de pães artesanais, de fermentação natural, com diversos sabores. Todos são deliciosos. Muitas pessoas vão até lá, em busca dos pães. Quase todos são vendidos. Os que sobram são embalados com a informação da data de fabricação e vendidos nos dois dias seguintes, a preços mais baratos. 

De modo geral, os pães e bolos e outras guloseimas produzidas ali são muito saborosos. Como também é saboroso o sorriso da senhora que atende, ao balcão, pesando, embalando, opinando, conversando sobre vários assuntos. 

Na última terça-feira, fiquei observando o balcão. Não havia pães expostos. Ela percebeu e me falou: Não teremos os pães nem nesta nem na próxima semana! Fiquei preocupada, perguntei se tinha acontecido alguma coisa com o padeiro. Ela respondeu: Não! Ele está participando de um congresso e vai aproveitar para fazer um curso. Havia orgulho nos olhos dela, informando sobre seu colega de trabalho. Que maravilha! Sorri também. Mas, daqui a duas semanas você já pode vir, que estaremos com os pães novamente, ela completou. 

Senti alegria por contar com os serviços de pessoas como aquela senhora e poder comer pães feitos por um profissional que não só participa de congressos e cursos, mas que tem uma assinatura intransferível. Ele cuida da fermentação natural, ele prepara as misturas para a massa, ele faz os pães, cada um, como quem escreve um poema, ou alinhava um conto. 





sábado, 6 de setembro de 2025

Sulear

 

América Invertida. Joaquín Torres-García.1943.

A professora de Valença comentou seu encantamento com a palavra ‘nortear’, usada na língua portuguesa. No espanhol valenciano, não há. Fala-se ‘orientar’, palavra que se refere ao Oriente, à rota da seda, observou ela, para assentar o sentido de direção, direção correta. Ou seja, orientar-se, em última instância, é uma disposição para não perder a direção correta para um mercado de exploração, a seda, produzida no Oriente, durante os processos de colonização. Por isso, para a professora, a palavra ‘nortear’ parecia ter uma conotação mais interessante, por referir-se de modo mais explícito a um dos pontos cardeais, o Norte, que, nas bússolas, é o norte magnético, quando se deseja identificar posições e rotas. Para a professora, europeia, com raízes no Hemisfério Norte, essa referência ao ponto cardeal pareceu inocente.

A etimologia da palavra ‘orientar’ evoca a direção onde nasce o sol. Ou seja, refere-se ao ponto cardeal leste, indicando o caminho a seguir, em direção ao sol nascente. Mas a professora está correta no tocante ao fato de que foi atrelado a esse sentido o de cunho comercial e exploratório, da rota da seda chinesa.

No entanto, tampouco a referência ao norte pode ser considerada inocente. Enquanto a ouvia, pensei na frase do artista uruguaio Joaquín Torres-García, Nosso Norte é o Sul, em relação à sua obra América Invertida, de 1943. Nas discussões de que tenho tomado parte, mais recentemente, com ênfase nos processos de colonização, um marco é muito importante: os colonizadores atuam desde o Hemisfério Norte. As guerras mais devastadoras estão no Hemisfério Norte ou são financiadas por países e povos ali situados. Os impérios econômicos estão construídos no Hemisfério Norte embora exerçam influência em todos os continentes. Resulta que ‘nortear’ é uma palavra tão comprometida quanto ‘orientar’: contemporaneamente, ambas transitam por processos de dominação, colonização, exploração.

Numa referência a Torres-Garcia, proponho o verbo ‘sulear’. Situada desde o Sul, posso me deslocar em todas as direções, para, ao final, sempre voltar para casa, entre afetos e alegrias, com algumas preocupações, mas com a força necessária para saber que o norte não é a única referência, tampouco o oriente ou o ocidente.

Um amigo querido, que vive na Patagônia chilena, relata que ali, a expressão "está de norte", ou "está norteando" refere-se a dias quando há temporal, tormenta de chuva e vento. Por outro lado, quando "está de sul" há bom clima, sol, ainda que venha o frio polar da Antártica. 

Pois que possamos sulear nossos passos por caminhos que nos levem a searas profícuas. E que o clima seja bom.


Planalto Central do Brasil, ao Sul do Equador






terça-feira, 26 de agosto de 2025

Livros pássaros que também são livros travesseiros


No domingo, deixei o primeiro grupo de livros na Praça Universitária, dentro do projeto Livros Pássaros. Só retornei lá hoje, dois dias depois, para buscar rastros do que pudesse ter ocorrido desde então, e deixar o segundo grupo de livros.

No banco onde deixei um pequeno totem de livros, um morador de rua estava dormindo. Quando me aproximei, percebi que ele usava quatro livros para apoiar a cabeça. Sorri. Comecei a organizar os livros no canteiro onde ficam os totens feitos com pedaços de tijolo e cimento. Estavam todos derrubados. Montei quatro grupos de livros, e apoiei um pequeno pedaço de cimento sobre cada um, para proteger do vento.

Outro morador de rua, curioso, me perguntou sobre os livros. Respondi que eram para quem gostasse de ler. Você gosta de ler? Que sim, respondeu. Olhou, de longe, e seguiu. O rapaz que dormia no banco espreguiçou-se. Sem pressa, levantou-se, pegou sua mochila e foi embora. Fui verificar quais eram os quatro livros deixados no banco. Só então percebi que havia, no chão, alguns dos bilhetes que deixei dentro dos livros.

Fui me distanciando. Um rapaz sentou-se no banco, olhou os livros, depois seguiu na direção oposta à minha.

Seguimos todos: eu, o rapaz, os moradores de rua, os livros... quem sabe dos nossos destinos?












domingo, 24 de agosto de 2025

Livros pássaros




Comecei a executar o projeto Livros Pássaros. A bem da verdade, no último período da seca, eu já havia iniciado, mas de forma precária, sem sistematização. Eu apenas deixei alguns livros numa praça, sem mensagem, sem voltar depois para saber se teriam alçado voos ou não. 

Do que se trata? Minha casa é habitada por muitos livros. A maior parte dos quais, depois de terem sido lidos, depois de terem integrado pesquisas diversas, já não são usados. Os temas de pesquisa mudaram. Os referenciais teóricos também. As interlocuções passaram a reivindicar outros pontos de vista. Por isso, decidi libertar esses livros das gaiolas de armários e prateleiras, onde ficam, hibernados, sem encontrar com quem conversar.

Na Praça Honestino Guimarães, popularmente conhecida como Praça Universitária, há um bom tempo, um senhor organiza pequenos totens de pedra, pedaços de tijolos ou cimento. Os totens se encontram em toda a extensão da praça, debaixo de árvores, nos canteiros, ao lado das esculturas de artistas reconhecidos. De aparência frágil, muitas pessoas passam, desmontando os totens. Mas, no dia seguinte, eles estão lá, reconstituídos, ocupando outros espaços. Se a estrutura dos totens é frágil, podendo ser facilmente desmontada, a capacidade de reconstrução demonstrada pelo senhor que os organiza é enorme, bem como a força sutil que o move nesse projeto.

Decidi, então, dialogar com os totens de cimento, construindo totens com os livros nas mesmas áreas por eles ocupadas. Dentro de cada um dos livros, deixo uma mensagem para quem os venha a encontrar:



Quando terminei de organizar o segundo grupo de livros, na praça, e fui me afastando, uma jovem passou por perto, diminuiu o passo, ficou olhando. Depois seguiu. Perguntei se ela tinha se interessado pelos livros. De longe, respondeu que tinha achado curioso. Falei que ela poderia olhar e tomar algum que lhe interessasse, se quisesse. Ela voltou, olhou os livros enquanto conversamos. Tinha interesse por livros de literatura. Eu não tinha deixado nenhum, nessa leva. Prometi que, no próximo grupo, levaria alguns de literatura. Contou que é estudante de medicina, que passa por ali todos os dias. Disse também que já viu o senhor organizando os totens de tijolos, mas nunca lhe ocorreu conversar com ele. Da próxima vez, vai conversar.

Seguimos, cada uma, nossos caminhos. Os livros pássaros já começaram a produzir efeitos. Que sigam livres em seus voos.








 

 

  

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Tartarugas

Há alguns anos, a professora comprou um carro novo, que tinha airbag. Andava feliz pela cidade, dirigindo a novidade. Numa noite de muita chuva, algumas ruas alagaram. Num cruzamento cheio de água, ela seguiu em linha reta onde precisava contornar uma rotatória demarcada com peças de concreto com a forma de uma esfera cortada ao meio, carinhosamente chamadas de tartarugas. A professora não as viu, pois estavam imersas na água. Como resultado, bateu o carro contra uma delas. No impacto, o airbag foi acionado e explodiu, espalhando material químico e causando queimaduras na pele da professora, em várias partes do corpo.

 

Ela foi à delegacia registrar o ocorrido, para responsabilizar a fábrica do carro pela explosão do airbag. O funcionário preencheu o formulário: “a vítima informa que bateu com o carro contra uma tartaruga...” A professora, atenta, pediu que ele completasse a informação adequadamente: “escreva aí, bateu com o carro contra uma tartaruga de cimento!”. Não queria problemas com as sociedades protetoras dos animais.

 

Algum tempo depois, noite adentro, um carro, depois de ter contornado corretamente uma rotatória demarcada por tartarugas de cimento, bateu com violência contra algum objeto que ele não percebera, danificando a roda e o pneu. O motorista parou o carro adiante, olhou a rua meio transtornado, sem avistar nada que pudesse ter atingido seu veículo. Ficou, por algum tempo, ali, sem compreender o ocorrido. Um passante ofereceu ajuda, que o motorista recusou, entre receios. O passante seguiu sua caminhada, lentamente, observando à distância o carro danificado. E pôde testemunhar o segundo carro também colidindo com alguma coisa, a mesma coisa, que até então ninguém conseguira identificar. O segundo motorista também parou o carro adiante e foi se solidarizar com o primeiro, ambos com a roda e o pneu direito traseiro do carro danificado.

 

Enquanto isso, com calma, o passante chegou mais próximo do cruzamento e identificou uma tartaruga de cimento na rua, deslocada da rotatória, próxima da calçada. À noite, todos os gatos são pardos. As tartarugas de cimento também: pardas e da mesma cor do asfalto e da calçada. Talvez tivesse saído fazer uma caminhada. Assim, disfarçada, ela atingira os dois carros sem ser percebida.

 

Pensando por outro lado, pobre tartaruguinha, mal saíra para um breve passeio, acabou atropelada por dois carros seguidos...

 

Há poucos dias, outra professora relatou que sofrera uma queda, em razão da qual precisou ficar em licença médica por alguns dias. Indagada pela gravidade da queda, ela explicou que, atravessando a rua, tropeçara numa tartaruga... Na queda, bateu com o rosto em outra tartaruga, quebrara um dente, além de escoriações em todo o corpo, resultando em vários hematomas.

 

Tartarugas de cimento: prefiro tê-las minhas amigas... melhor não arriscar!

 

 

 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Perfume de flores e a perda do olfato


 Para Rutinha, meu amor

Logo que minha mãe faleceu, há pouco mais de um ano, eram frequentes os episódios quando eu sentia cheiro de flores. Então eu perguntava a quem estivesse por perto se também sentia o perfume. Só eu sentia.

Fala-se que quando sentimos perfume de flores, sem que haja flores por perto, sua origem está na presença de anjos ou de boas almas a nos protegerem. Quando comentava o perfume que sentia, em geral as pessoas atribuíam à possível presença da minha mãe, a nos proteger. Era um alento para a falta que ela fazia. Eu acolhia a explicação com muito afeto, embora pairasse sempre alguma dúvida sobre a efetiva origem da sensação.

Aos poucos, os episódios com o perfume de flores foram ficando espaçados entre si, até que não me lembro quando teria ocorrido pela última vez. Parei de sentir o perfume de flores. E parei de sentir os demais odores: perdi o olfato. Demorei um pouco para me dar conta do que ocorrera.

Eu sempre tive o olfato muito aguçado. Preparando o almoço, por exemplo, eu me orientava muito mais pelo olfato para perceber o ponto de cozimento dos alimentos, do pelo tempo, ou pelo olhar. Eu sabia quando o arroz já estava pronto pelo cheiro. Nem olhava para decidir desligar o fogo a panela ou não. Do mesmo modo, eu sabia quando a dama-da-noite se abria, na varanda, mesmo sem ter avistado a planta nos últimos dias. Seu perfume eclodia pela casa, e eu sentia alegria ao percebê-lo.

Experimento agora uma sensação estranha. É como se o mundo à volta tenha ficado silencioso do ponto de vista dos odores.

Provavelmente não fosse a presença mágica de minha mãe à minha volta que tenha provocado a distorção da percepção olfativa, fazendo-me sentir perfume de flores. Suspiro aliviada. Se era uma distorção do olfato, agradeço ao organismo por ter trazido perfume de flores e não cheiros desagradáveis de material orgânico em decomposição.

Penso nas tantas sequelas deixadas pela pandemia provocada pela COVID, sequelas de ordem social, coletiva, de ordem individual, tanto comportamental quanto orgânica, somática. Embora eu tenha tomado todas as vacinas, tive dois episódios leves da virose. Uma das possibilidades é que a perda do olfato seja uma das sequelas da doença. Anosmia é o nome da perda total do olfato, com consequências também no paladar. Fantosmia qualifica a distorção olfativa, quando a pessoa sente um odor que não está presente. O perfume de flores que eu sentia, por exemplo.

Esse quadro requer atenção, implicando em questões de segurança. Quase sempre subestimamos a importância das informações olfativas com que lidamos correntemente.

Agora preciso aprender a me relacionar com um mundo do qual não consigo perceber os odores, embora seus odores estejam todos por aí, sinalizando, informando, alertando... Isso apresenta riscos, muitos, com os quais ainda vou descobrir como lidar.

 




domingo, 19 de janeiro de 2025

Duas Brasílias: uma, de Oscar Niemayer; outra, de Lúcio Costa


Em geral, estando fora da capital federal, quando se fala sobre Brasília, a imagem de que se lembra, de pronto, é a da Esplanada dos Ministérios, ou os palácios, monumentos que carimbaram a imagem da cidade e que abrigam a vida política na esfera federal. Essa é a imagem que se tem de Brasília desde fora de seus territórios. Mas essa não é exatamente a Brasília que eu vivenciei e vivencio na condição de habitante desde o final dos anos 1970. Os caminhos que percorro, as imagens da cidade que ficaram tatuadas em minha experiência não têm monumentos, negociações políticas em gabinetes, disputas em púlpitos de palácios. Eu até vivenciei muitas manifestações políticas populares, mas fora dos monumentos e dos gabinetes: ganhando as avenidas largas, os gramados verdes, o céu cor azul-oceano.

No quotidiano, a vida se desenvolve entre uma paisagem tomada por árvores, plantas de várias escalas de altura, frutíferas, ornamentais, todas habitadas por pássaros os mais diversos, desde os pequeninos beija-flores até curicacas e araras barulhentas. As pessoas se encontram nos comércios locais, de pequeno porte. Crianças brincam nos parques locais, enquanto as mães conversam sobre amenidades.

Lembro da primeira vez que vim a Brasília, em 1976, e fiquei espantada, pois não avistava os prédios, tal a densidade da vegetação. Cadê a cidade? Àquela altura, a cidade ainda não tinha tantos prédios, mas os que existiam já se ocultavam entre árvores e plantas diversas. Ainda hoje tenho a mesma sensação atravessando a cidade. E essa sensação vem tomada por encantamento.

Desde a minha chegada, a cidade cresceu muito, o fluxo de automóveis é muitas vezes um problema para o deslocamento, apesar das vias largas e do desenho que tem em vista facilitar a movimentação. Foram criadas muitas novas vias, fazendo geometrias nem sempre fáceis de serem decifradas. Mas para alguém que habita uma das superquadras do Plano Piloto, gerir a vida quotidiana não é algo complicado, ao contrário. Sempre há um comércio local, onde podem ser buscados itens de emergência, em segurança. O deslocamento de pedestres é mais seguro que na maioria das capitais e outras grandes cidades, onde caminhar a pé pode ser sinônimo de rally, ou aventura arriscada.

Voltando a Brasília, em se tratando de sua criação, o nome mais referido é o do arquiteto Oscar Niemayer. De fato ele assinou boa parte dos projetos dos monumentos da cidade, dos edifícios referenciais. As imagens dessas construções constituem uma espécie de conjunto de marcas referenciais. Contudo, não chegam a integrar a vida quotidiana dos habitantes da cidade. Ninguém vai à Catedral todos os dias, nem ao Congresso Nacional, ou à Praça dos Três Poderes, a menos que trabalhe ali, ou de passagem, ou levando alguém para passear.

Dou-me conta, então, que a Brasília de Oscar Niemayer é a dos monumentos, mais visíveis para quem não habita a cidade: para as matérias jornalísticas, para o turismo, para os grandes eventos.

Por outro lado, sinto-me acolhida de modo especial ao perceber que a cidade por mim habitada foi pensada por Lúcio Costa, o mestre Lúcio Costa, a respeito de quem pouco se fala, poucos sabem, sequer lembram quando o assunto é Brasília. É dele o desenho, o plano urbanístico. É dele a concepção do Plano Piloto em quatro escalas: a monumental, a residencial, a gregária e a bucólica. 

Ou seja, Niemayer assinou as obras de apenas uma dessas escalas, a monumental. As demais foram assinadas pelo discreto e genial urbanista Lúcio Costa, e asseguram a qualidade de vida de quem vive numa cidade pensada tendo em vista a melhor gestão do quotidiano.

Quando Brasília foi elevada à condição de Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO, o que se registrou foi a articulação dessas escalas. Vamos a elas:

Escala Monumental – localizada ao longo do Eixo Monumental, concentra as principais atividades administrativas e políticas da unidade federativa e nacionais. Inclui a Praça dos Três Poderes, o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional, a Esplanada dos Ministérios, o Palácio Itamaraty, a Catedral, o Teatro Nacional e o Museu Nacional da República.

Escala Residencial – localiza-se ao longo do Eixão (oficialmente, Eixo Rodoviário), organizada nas chamadas Unidades de Vizinhança, cada qual formada por um conjunto de quatro superquadras. As superquadras, além dos prédios residenciais, incluem escolas, clubes, bibliotecas, igrejas, comércio local, dentre outros.

Escala Gregária – situa-se no cruzamento do Eixo Monumental com o Eixão. Ali estão vários setores, como o bancário, o hoteleiro, o comercial e o de diversões. No ponto zero do cruzamento, encontra-se a rodoviária urbana, de onde parte boa parte dos ônibus urbanos e se encontra a estação final do metrô.

Escala Bucólica – está presente nas outras três escalas, formada por áreas livres e arborizadas. Ela confere à capital federal o caráter de cidade-parque.

Caminho entre árvores e pássaros, grata a Lucio Costa por ter pensado uma cidade com essas feições. É essa a cidade que habito, não a cidade em sua escala monumental.

  





domingo, 29 de dezembro de 2024

Chegada do trem à estação, ou, mais de um século depois, os sustos provocados pela IA


 Multiplicam-se os relatos sobre a primeira sessão coletiva em Paris, quando os irmãos Lumière apresentaram os brevíssimos registros em filme do trem chegando à estação e de operários saindo da fábrica ao final do expediente. Sempre se destaca o susto das pessoas, especialmente ante a possibilidade de serem atropeladas pelo trem vindo em sua direção. Tal impressão repetiu-se em incontáveis sessões posteriores. E na medida em que os recursos técnicos e tecnológicos para a produção fílmica se ampliaram, as sessões no cinema ganharam potência nos filmes de ficção e não ficção, conduzindo seus públicos a sensações intensas, surpresas, sustos, vertigens.


A grande questão está na ideia, recorrente ainda hoje entre a maioria das pessoas, de que a imagem em movimento projetada no cinema tem potência de registro de verdade. O que é um equívoco, mesmo quando se tratem das assim nomeadas produções documentais. Estas, apesar de serem produzidas seguindo um protocolo diferenciado em relação às ficcionais, não são prova de verdade, mas discurso construído a partir de pontos de vista muito específicos sobre determinadas questões. Muitas vezes, os filmes documentais dizem menos de seus contextos do que filmes ficcionais, até os filmes fantásticos, de ação ou de ficção científica, que, embora não tenham pretensão de provar quaisquer verdades, acabam sendo testemunhos potentes das circunstâncias nas quais são concebidos e realizados.


Assim, tem-se em conta que vídeos e outras peças do audiovisual compartilhados à larga nas mídias mais diversas não têm, no ponto de partida, o pressuposto de prova de verdade. Nem o pressuposto, nem o compromisso. São discursos, defendem certos pontos de vista, e para tanto fazem uso dos elementos constituidores das imagens em movimento sonorizadas. Quase sempre, contudo, reivindicam a condição de verdade, como parte do esforço de convencimento de suas argumentações.


Nesses termos, os recursos propiciados pelas plataformas de inteligência artificial, disponibilizadas para usos os mais diversos, incluindo produção audiovisual, provocam surpresas e impressionam na mesma escala que a projeção dos filmes dos irmãos Lumière no final do século XIX. E a base dessa capacidade de impressionar está, sobretudo, assentada na constatação de que imagem em movimento como prova de verdade pode ser uma farsa produzida por estruturas cada vez mais complexas da tecnologia digital. Tais estruturas podem produzir os discursos que quiser, à disposição de usuários com os mais diversos propósitos, ou, até quem sabe, à disposição das próprias máquinas, reiterando o sobressalto, também antigo, de a humanidade ser suplantada, ou mesmo extinta por suas criações.


Parece, mesmo, que ainda estamos ali, naquele 28 de dezembro de 1895, sem sair do Salon Indien do Grand-Café de Paris desde então, sob os efeitos da projeção dos breves filmes realizados por Auguste e Louis Lumière, fazendo uso de sua invenção, o cinematógrafo.

 



segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Sobre linguagem neutra e outras considerações

Ah, a língua que falamos, quantos mistérios guarda, de quantas histórias é entrelaçada, de que modos sistematiza nossos valores e nosso imaginário!

O modo como uma língua se organiza sistematiza as formas de pensamento da comunidade que dela faz uso para se comunicar. Mais do que se comunicar: para sistematizar o pensamento, para organizar aquilo que conhece, que sabe sobre o mundo, e para estruturar o mundo em que cada qual se encontra. As relações entre a língua, os modos como se faz uso dela e a comunidade falante são dinâmicas, em transformações mútuas e contínuas. Uma mesma língua falada num determinado momento histórico, por uma comunidade, estará modificada duas décadas depois, assim como também estará sua comunidade.

Pensar numa cultura, numa comunidade ou numa língua fixadas no tempo, sem modificações, é pensá-las mortas.

Como soe ser com as culturas de um modo geral, as dinâmicas de transformações se dão nas tensões estabelecidas entre forças que tendam à conservação do que já está posto e as forças que busquem instaurar o novo. A instauração do novo, sem resistência, causa tantos danos quanto a manutenção do já posto sem renovação. Em meio a tais tensões, a vida em sociedade se institui, em efervescência.

As diferentes línguas propiciam diferentes percepções e concepções de realidade, que não são passíveis de tradução entre si. Ou seja, cada língua oferece ferramentas específicas para organizar o pensamento e a percepção do mundo de modos específicos.

Tendo isso em conta, e considerando a língua portuguesa falada no Brasil, podemos buscar algumas especificidades e forças transformadoras observadas nas últimas décadas. Por exemplo, o fato de que o modo subjuntivo da conjugação verbal vai caindo em desuso na mesma medida em que avançamos no aprofundamento das tecnologias para a organização das informações, do pensamento e, mais recentemente, dos textos. O modo subjuntivo apresenta uma possibilidade em grande medida inacessível para máquinas que operam na linguagem binária. Por exemplo, entre o que foi e o que não foi, o subjuntivo apresenta possibilidades, naquilo que poderia ter sido, ou teria sido, ou seria...

Fico sempre impressionada como não há quem se levante em defesa do subjuntivo. Não raro, percebo expressões de estranhamento ante a própria terminologia: de que trata o subjuntivo? Avançamos, afinal, para um mundo sem as nuances temporais que essa modalidade verbal permite. Quem sente falta, a propósito?

Curiosamente, se, no tocante aos modos e tempos verbais, o uso da língua portuguesa no Brasil tende a essa simplificação, traduzida no desuso do subjuntivo, que resulta na redução às escolhas entre a afirmação e a negação diretas, por outro lado, ultimamente se tem testemunhado o debate a respeito da definição de gênero, delimitado na perspectiva binária, conforme as referências normativas dominantes em nossa sociedade: ele ou ela, homem ou mulher, macho ou fêmea.

Algumas línguas contemporâneas abrem algumas brechas para o eventual uso de pronomes neutros, muitos desses, contudo, destinados à referência de objetos e outras formas substantivas que não pessoas: it, no inglês, por exemplo. Ao mesmo tempo, ganham força as discussões sobre as orientações de gênero na sociedade contemporânea ocidental, abrindo flancos para a manifestação de orientações outras que se situam fora da clássica orientação homem-mulher, masculino-feminino, atrelada às formas biológicas de formação.

As pressões e as demandas sociais tomam a frente. Logo atrás encontram-se as normas sociais, seguida da legislação, que tentam dar respostas às demandas. A língua vem depois, se reordenando continuamente, para traduzir em palavras e estruturação frasal esses modos de viver. Nesses processos todos, forças divergentes de debatem, entre conservar e transformar, entre manter e mudar.

É nesse contexto que, há algum tempo, começou-se a questionar, em primeiro lugar, o fato de a língua portuguesa (não só a portuguesa, mas essa é a minha língua materna, por isso penso a partir dela) fazer uso do masculino para incluir todos os gêneros, e a palavra homem como termo universal que inclui homens, mulheres, crianças, velhos e todos quantos mais. Tal regra persiste, mas tem sido contestada em quase todas as frentes, restando poucos usuários que insistem em sua manutenção. 

Junto aos questionamentos e à constatação da necessidade de se rever essa questão, começou-se a buscar formas alternativas de representação dessas demandas nos textos escritos. Assim, houve quem fizesse uso dos indicativos dos gêneros feminino e masculino para a escrita de substantivos, adjetivos, pronomes etc., em referências sempre a homens e mulheres, professores e professoras, pais e mães, meninos e meninas, entre outros. Apareceram também escritas com frases tais como: Ele/a é bonito/a. Um pouco além, houve quem utilizasse o sinal @ em lugar da indicação de gênero: El@ é bonit@. Estas estratégias representam projetos de inclusão, mas com algumas limitações. As duas primeiras são estritamente binárias do ponto de vista de gênero. O uso do sinal @, embora pareça mais aberta, é excludente em outras instâncias, especialmente no tocante às pessoas surdas e cegas, por apresentar obstáculos à tradução e à compreensão seja na língua de sinais, seja no braile. Além disso, o uso do @ resolve, parcialmente, a escrita, mas não resolve a fala. Do mesmo modo, o uso da barra é um problema para a língua falada.

Como desdobramento dessas tentativas, alguns segmentos sociais passaram a inserir uma terceira forma de articulação de gênero na escrita e fala, esta, referente às orientações não binárias. Ao lado de ela e ele, acrescentou-se a forma elo. A frase então passou a poder ter as seguintes construções: ela é bonita, em referência a uma pessoa de orientação feminina; ele é bonito, referindo uma pessoa de orientação masculina; elo é bonite, que inclui pessoas de orientação não binária. É importante ressaltar que a forma neutra não inclui todas as orientações, como seria o caso de @, mas refere-se à orientação não binária. Ou seja, ao cumprimentar a todes aqui presentes, não cumprimento todas as pessoas presentes, mas as pessoas de orientação não binária.

A adoção dessa terceira referência de gênero na língua não é consensual, e estabelece territórios de disputa entre as mais diferentes bandeiras.

Pessoalmente, tenho me proposto o exercício de forçar a ampliação dos recursos já disponíveis pela língua na direção do seu uso de modo neutro. Por exemplo, em lugar de escrever: Você, leitor, leitora, leitore deste texto sobre linguagem neutra, escolho escrever: Você que lê este texto sobre linguagem neutra. Assim, pretendo manter a interlocução com qualquer substância viva que, de alguma forma, e a seu modo, se aproxime do texto em pauta. Tal exercício não é simples, e tem apresentado desafios na estruturação do pensamento, a cada linha escrita, a cada argumento construído. Por outro lado, apesar do rigor no tocante à construção de uma perspectiva includente radical, no mais das vezes, em sua leitura, esse demarcador passa despercebido por quem faça a leitura. Ou seja, recorrentemente, quem o leia não se dá conta da indistinção não só de gênero, mas de qualquer outro marcador social, cultural, de gênero, biológico, enfim.

Nesses termos, entendo que, muitas vezes, o uso da terceira forma, na definição da orientação não binária, cumpre sobretudo a função de ressaltar, inevitavelmente, tal necessidade. Trata-se de uma bandeira erguida.

Por isso mesmo, sem abrir mão do exercício continuado de uso da língua de modo includente radical, quando solicitada, não me recuso a fazer o uso da linguagem neutra, especialmente naquelas situações que concorram à defesa de direitos legítimos, da ética, do respeito à pluralidade, por mais desafiador que isso seja.

Mas continuo exercitando as possibilidades da língua conforme posta, empurrando seus limites para mais além, traçando outros mapas, tentando redesenhar horizontes, para, dentro dela, fazer outros usos, disponível para as possibilidades de transformar os meus modos de pensar, de ser e de estar no mundo.

 

 

 

 

 


domingo, 15 de setembro de 2024

Mundo da arte

 Para Rafael

O jovem inquieto e metódico planeja e, passo a passo, vai executando seu caminho cujo destino é o mundo da arte. É artista respeitado. Seu trabalho é meticuloso, disciplinado, tem potência, pulsa em permanente ebulição. Ele faz, desfaz, refaz, com crivo e critérios até mesmo mais rigorosos do que os de curadores e comissões de julgamento.

Mas sua produção fílmica enfrenta resistências para ser aceita nos festivais regionais e nacionais. Ele se pergunta sobre as dissonâncias entre seu trabalho e as expectativas dos júris e dos organizadores dos eventos. Transforma essas questões em assunto de investigação. Sua indagação ganha força, sobretudo, quando tem a mesma produção aceita em festivais no exterior, alguns de grande porte e extensão internacional. Do mesmo modo, experimenta acolhida em salões de arte. Dos salões regionais aos nacionais, passa a experimentar a alegria de ver seus trabalhos aceitos, expostos, admirados por diferentes públicos e segmentos do mundo da arte. Passa, então, a ter reconhecimento, a ter o próprio estilo reconhecido, nominado. Colecionadores desejam adquirir exemplares de seu trabalho.

Naquela noite, seria aberta uma grande exposição, resultado de um edital público, que chegou à escolha de um seleto conjunto de obras completas para serem produzidas e mostradas com destaque, além de outros trabalhos. A proposta dele estava entre as obras a serem apresentadas completas. Assim, logo à vista de quem ingressasse no grande salão, estavam expostas suas fotografias inquietantes. Todos os curadores, membros do júri, jornalistas, estudantes de artes, digital influencers passaram por ali, conversaram com ele, fizeram perguntas, tiraram fotos. Não havia dúvidas de que ele se tornara referência notória no circuito artístico.

Em meio à intensa movimentação, depois de muitas fotos e comentários e cumprimentos, incluindo autoridades políticas locais, ele constatou que duas das suas fotos estavam de ponta-cabeça. Os montadores, igualmente encantados com seu trabalho, não se deram conta de que as duas fotos estavam viradas, com as posições invertidas, enquanto as fixavam, cuidadosamente. Ele ficou inquieto, não conseguiu mais se concentrar nas conversas, evitou fazer fotos diante do trabalho. Procurou pela pessoa responsável pela montagem, para pedir ajuda. Não encontrou. Voltou. Entre receios, tirou, ele mesmo, as fotografias da posição inicial, reposicionando-as, agora corretamente. Este lado para cima.

Respirou aliviado. Ninguém percebeu o movimento ágil de troca. Tampouco perceberam que havia sido feita a troca. Nem os admiradores, nem os críticos, nem os curadores... Nem o próprio responsável pela montagem da exposição percebeu a alteração. Para eles, pareceu não fazer lá muita diferença, mesmo...

Goiânia, 13 de julho de 2024

 

domingo, 25 de agosto de 2024

Sobre ser brasilense


A palavra brasileira, ou brasileiro, para definir quem nasce no Brasil, talvez seja a única forma em que a definição da nacionalidade faz uso de um sufixo que indica uma ocupação profissional: ferreiro, sapateiro, coveiro... Indica, também, um recipiente ou depósito: braseiro, bueiro, esterqueiro...

Dentre as palavras para definir outras nacionalidades, em língua portuguesa, encontram-se aquelas formadas com vários sufixos, dentre os quais -aio: uruguaio, paraguaio; -es: português, inglês, francês, escocês; -ano: italiano, norte-americano, indiano, peruano, mexicano, venezuelano, iraniano, sul-africano... Em relação ao Brasil, esse sufixo define campos de conhecimento a partir de centros de estudos em geral estrangeiros: encontram-se aquelas pessoas que se dedicam aos estudos brasilianos em literatura, política, cultura, cinema, etc. O sufixo -ense também figura para a definição de nacionalidade, é o caso de canadense. No Brasil, esse sufixo é usado para definir a naturalidade em relação tanto à unidade federativa ou ao município onde as pessoas tenham nascido: catarinense, paranaense, maranhense, goianiense, brasiliense. 

O sufixo -ense apresenta uma vantagem dentre os demais, por sua natureza inclusiva, ao abrigar femininos, masculinos e todas as demais variações possíveis dos seres nascidos naquele território: país, unidade federativa, distrito, município, vila...

Também no caso do Brasil, a língua portuguesa prevê outras duas palavras, desconhecidas da maior parte das pessoas, para definir nossa nacionalidade: brasiliano e brasilense. 

Isso posto, escolho me assumir brasilense, e não mais brasileira, nem brasiliana. Note-se a ausência da letra i em meio à palavra, o que a diferencia de brasiliense, em referência a alguém que tenha nascido em Brasília.

Cidadã brasilense, habitante do Brasil Central.




terça-feira, 11 de junho de 2024

O professor quer dar aula... mas o que ensina o professor?

 

foto: Jossier Boleão

Naquela terça-feira, pela manhã, o professor iniciou o dia determinado a dar sua aula. Logo cedo dirigiu-se ao prédio de sua faculdade, que não ficava muito longe, mas também não muito perto de sua casa. No dia anterior, tinha enviado mensagem eletrônica aos alunos de sua disciplina, confirmando as atividades do dia. Estava certo de que estariam esperando por ele (a propósito, era um professor movido por muitas certezas!).

Contudo o movimento grevista discente ainda estava em curso. Os estudantes da universidade vinham assumindo posições cada vez mais consistentes e coerentes em suas reivindicações e na crítica feita tanto à gestão institucional quanto ao orçamento destinado às universidades federais. Em suas reivindicações, apontavam desde a falta de papel higiênico nos sanitários, à falta de segurança nos campi, vários problemas em relação ao refeitório, a redução no financiamento de bolsas para permanência de estudantes de renda inferior, até a necessidade de discussão sobre os ajustes do calendário acadêmico considerando as circunstâncias atuais da comunidade universitária.

O movimento grevista estudantil foi reconhecendo sua própria força, ganhando fôlego e visibilidade. Os estudantes aprenderam e ensinaram em sua mobilização. Na manhã daquela terça-feira, o comando de greve do movimento estudantil teria reunião com a reitora, finalmente, para as negociações.

Ao mesmo tempo, a greve dos servidores das áreas administrativa e técnica também tinha continuidade, com poucos avanços na negociação em âmbito federal. Apesar disso, a reitoria escolhera dar prosseguimento às atividades na universidade como se não se ressentisse da ausência desses servidores. Em contrapartida, os estudantes, fortalecidos em suas relações de pertencimento, reforçavam tanto a importância da greve quanto a importância das funções institucionais por eles exercidas.

Mas o professor não abria mão de sua missão: dar aula. A greve dos docentes fora encerrada e ele estava determinado a dar prosseguimento aos conteúdos de sua disciplina. Chegando à faculdade, contudo, encontrou todas as salas fechadas, bloqueadas com cadeiras, painéis, armários e toda sorte de mobiliário. Os alunos o aguardavam, no corredor, temerosos de serem prejudicados com faltas ou avaliações caso não comparecessem. Cioso de seu exercício docente, ele os conclamou para ajudarem a liberar o acesso, desfazendo o bloqueio montado pelo comando de greve do movimento estudantil. Assim, retiraram as cadeiras, o armário, o painel. Ele abriu a sala e todos se acomodaram nas carteiras reorganizadas. O professor começou a aula abordando conteúdos imprescindíveis à formação daqueles estudantes, tinha certeza disso. Sentia-se forte, o professor, fortalecidas suas convicções. Os estudantes aprendiam com ele.

Aprendiam o quê? O que aprendiam, com ele, de modo que não esqueceriam, que passariam a compartilhar, como convicção? Aprendiam o conteúdo desenvolvido durante aquela aula? Provavelmente sim, mas com alguma chance de, pouco tempo depois, dele já terem se esquecido. Por outro lado, não se esqueceriam, porquanto teriam incorporado a aprendizagem, os ensinamentos sobre um posicionamento que minimiza, ou desconsidera, ou mesmo confronta o pertencimento a uma categoria em mobilização política, o pertencimento a um movimento de estudantes que questiona, que levanta sua voz para perguntar sobre as condições políticas e econômicas da educação e seus agentes, e sua comunidade como um todo.

Para aquele professor, a greve não passava de um ruído, uma perturbação momentânea, que logo passaria. Foi isso que seus estudantes aprenderam.

 




sexta-feira, 31 de maio de 2024

Estrelinhas lilases

 




 

Pouco tempo depois que eu cheguei a Goiânia, atuando como docente do ensino superior, ocorreu de uma petrea cruzar meu caminho, assim, num repente.

Eu vinha caminhando desde o auditório da faculdade, em direção à rampa que me levaria às salas de aula, fazendo o percurso pelo jardim interno. Passei por um trecho sem calçada, que tinha um pouco de musgo seco, num tom de verde muito escuro. Naquele dia, o chão estava coberto por pequeninas estrelas lilases. A visão do lilás sobre o musgo verde escuro me tirou da rota. As estrelinhas ocupavam a área em grande número. Delicadas e leves, deixavam-se oscilar com a brisa. Fiquei ali, parada, em êxtase, observando-as. Depois percebi um caule não muito grosso que se retorcia, subindo pela parede de alvenaria. Fui seguindo seu desenho, até chegar ao último piso, de onde se derramava em cachos de flores, de onde elas se lançavam, em breves danças aéreas, até repousar sobre o chão aveludado do musgo verde escuro.

Se a experiência da ordem da aesthesis refere-se ao momento em que algo afeta os sentidos de tal forma que cause uma espécie de suspensão, por certo, ali, não foi outra a experiência que me tomou.

Segui meu percurso, sem tirar os olhos nem das estrelinhas no chão, nem dos cachos aéreos na altura do último piso, nem do caule retorcido elevando-se em aderência à parede de alvenaria.

Demorei um pouco para saber o nome daquela planta, que quase ninguém conhecia. Aliás, poucos lhe haviam dado atenção. Petrea volubilis, assim é chamada no meio científico. Mas é popularmente conhecida como viuvinha, ou flor de São Miguel, dentre outros nomes.

Comecei a imaginar a possibilidade de ter um exemplar dela na varanda do apartamento. Embora soubesse que ela é uma planta de sol pleno, e numa varanda o tempo de contato direto com a luz solar é pequeno, resolvi tentar. Comprada a muda, acomodei-a num vaso que considerei de tamanho razoável. Ela cresceu, e não demorou para me presentear com as estrelinhas. Mais que isso, entre os galhos secos emaranhados, uma rolinha veio fazer seu ninho, há coisa de 4 anos. Desde então, muitos filhotinhos já nasceram ali, ensaiando seus primeiros voos entre as folhas da petrea.

Sem o sol pleno, as flores são ligeiramente mais claras e os cachos não têm tantas flores. Ainda e assim, o chão se cobre das pequenas estrelas e meu coração de alegrias.

Em tempo: quando uma florzinha cai, do caule fica uma gotícula, como uma lágrima. Talvez por isso ela também seja conhecida como viuvinha...





 

 



quinta-feira, 14 de março de 2024

Um livro de anatomia para a moça que faz a faxina. Ou, sobre a desesperança na poesia de Drumond.

  

Ela é jovem, pele negra, e trabalha como faxineira do prédio de 8 andares. Limpa o que os moradores sujam, recolhe o lixo dos apartamentos, molha as plantas do jardim.

Numa dessas idas e vindas, ela, que me descobriu professora, quis conversar um pouco. Falou-me, entre receios, “estou cometendo uma loucura: comecei a fazer o curso de Nutrição”. Aquela cumplicidade dela comigo me encheu de alegrias. Conversamos sobre o curso, sobre suas expectativas. Depois, me coloquei à sua disposição para contribuir no que ela necessitasse.

Dias depois, ela perguntou se por acaso nós teríamos algum livro de anatomia. Ela queria emprestado, para estudar.

Minha área de pesquisa é bem distante da área de nutrição. Então fizemos, eu e meu marido, uma rápida pesquisa de títulos, e encomendei um tratado de anatomia considerado bom mas não tão caro. Demorou umas duas semanas para que ele chegasse.

Ela, à porta de casa, recebeu o livro de muitas páginas. Passou a mão por algumas delas. Depois o abraçou. Ficou ali, abraçada com o livro de anatomia. Os olhos brilhavam. Foi contando sobre o quanto ela gostava de estudar, e de ler. Ela entendeu que o livro era emprestado. Disse-lhe que não, que era dela. Ela perguntou como iria pagar. Respondi que pagaria sendo uma ótima nutricionista. Ela sorriu e me disse que me traria as notas do semestre para eu ver.

No dia seguinte, retomamos a conversa. Ela já tinha lido parte do livro, estava feliz. E reiterou seu gosto pela leitura. “De que tipo de leitura você gosta mais?”, perguntei. Ela pensou... “Não gosto de romance... nem de poesia...” Fiquei surpresa. Ela achou por bem explicar “gosto da Clarice Lispector... e da poesia de Drummond...”. Que eu também gostava, comentei. Ela continuou “do Drummond eu gosto da melancolia...”. Aquela conversa ia me encantando cada vez mais. Então ela corrigiu “não é bem da melancolia... eu gosto é da falta de esperança... também não é isso, é da desesperança de Drummond que eu gosto”. E seus olhos brilhavam, apoiada no rodo, ao lado do balde com água suja.

Contou-me, então, que, depois de ter deixado a escola por alguns anos, voltou a estudar com o filho já adolescente. Terminaram o ensino médio juntos e entraram para a faculdade também ao mesmo tempo. Só que ele faz outro curso. Perguntei se ela já tinha lido Carolina de Jesus, ou Conceição Evaristo. Não tinha lido, mas conhecia, e sabia do teor de suas produções. Tinha interesse nesses escritos também. Mas gostava de livros que falassem sobre ciência, cientistas, e seu sonho foi alçando voo. Se ela gostava de ficção científica, perguntei. Que sim, respondeu, muito! Rimos juntas: "eu também gosto muito!"

Falou ainda um pouco sobre os filmes de que gosta. Citou alguns filmes sobre a vida de mulheres que a inspiram, referindo-se, sobretudo, a algumas mulheres cientistas.

Eu a abracei devagar, querendo voltar a sentir esperança. A esperança cuja falta era o que lhe causava encanto na poesia de Drummond.