domingo, 18 de outubro de 2020

Da dádiva e da gentileza


Nestes tempos tão obtusos (e me pergunto o que eu teria, de fato, contra os ângulos obtusos? O que seria, afinal, dos ângulos agudos não existissem os obtusos?...), o desalento muitas vezes nos toma de assalto, e permanece, sem querer nos deixar. Das questões macro às relações interpessoais quotidianas, não faltam sustos, inquietações e preocupações a desestabilizar quaisquer projetos de calma.

Mas também é nesses tempos tão obtusos que pequenos gestos ganham uma dimensão particular, assegurando a ancoragem de sentidos possíveis aos nossos dias. Foi assim quando a vizinha deixou uma abóbora no batente da porta de casa, e ligou avisando. Ou quando a outra vizinha deixou dependurada uma sacolinha com doces jabuticabas e, na semana seguinte, uma sacola com pequi. E o pão caseiro deixado por um casal de amigos queridos, que já haviam deixado, anteriormente, um bolo. E o outro bolo com sabor e cheiro de laranja trazido por um amigo e uma amiga, com um livro de poemas, e eu ainda não sei qual é mais doce: o bolo, o livro, o afeto, ou tudo junto... E o que falar da caixinha com torrõezinhos de chá de erva-cidreira? E da camiseta com o anjo da história? E do bolo de jatobá, feito a seis mãos, quatro das quais tão pequeninas e sábias? E o bolo de maçã, assado numa forma que mais parece uma mandala? E a azaleia cor de rosa florida, parceira da orquídea lilás? E as mudinhas de onze horas vicejando na chaleira que virou vaso de plantas sobre a mesa? E a pombinha que, na varanda, cuida já de sua segunda ninhada de filhotes? 

Pois ontem foi dia de mais um gesto de dádiva e gentileza: recebi, de presente, um CD com o encarte e uma máscara que integram um projeto belíssimo realizado pelo Frederico Carvalho. Com direito também a um sorriso fraterno, num fim de tarde com alguma chuva, e algum frescor.

Por vezes, tendo a me alinhar aos discursos que argumentam ter sido, este, um ano perdido. Mas quando me aninho com esses gestos de afeto tão especiais, porque são necessários tanto quanto água e ar, entendo que não tenho o direito de ser injusta. Nas travessias mais duras encontram-se também as manifestações mais potentes daquilo que nos dá ânimo para não desistir.

Se, a cada gesto de dádiva de que somos destinatários, nos cabe acolher e retribuir (na velha equação que diz: dar, receber, retribuir), neste ano tenho visto ampliar-se o rol das minhas responsabilidades de partilha, para corresponder à possibilidade de manifestações de afeto que dizem: estamos aqui, somos melhores se estivermos juntos, se formos capazes de multiplicar gestos de gentileza.

Obrigada Mary Elza, Ivones, Renato, Lorena, Juan, Bruno, Naras, Rafael, Mariana, Denilson, Julia, Marcelo, Alices, Maitê, Alzira, Iana, Leda, Bráulio, Fred, Cátia, Jossier, Carol, Carla, Bárbara, Aline, Matheus, Gabrielas, Adriane, Henrique, Zaldo, Emile, César, Anai, Nilo, Jota, Ruth, Marias, Néia, Yunna, António, Márcias, Maurício, Muniz, Vagna, Adalto, Iria, Helô, Josés, Anas, Adrianas, Esau, Sofía, Fernandos, Gonzalo, Diana, Rubén, Norberto, Wanderley, Mara, Tony, Reginaldo, Cleuzinha, Vi, Lara, Hélio, Antonella, Katia, Vanessas, Lauras, Gabriéis, Taísa, Luti, Paulo, Ro, Juliana, Márcio, Lu, Talita, Renata, Neila, Aristein, Dheniffer, Ayme, Valéria, Lilian, Noeli...

 


domingo, 27 de setembro de 2020

Breves apontamentos sobre Vilém Flusser e Walter Benjamin


Passados 80 anos da morte de Walter Benjamin (26 de setembro de 1940), enquanto tentava cruzar a fronteira entre a França e a Espanha, também são cumpridos 80 anos da migração de Vilém Flusser para o Brasil, tendo saído de Praga no ano anterior. E, neste mesmo ano de 2020, Vilém Flusser completaria 100 anos (ele nasceu em 20 de outubro de 1920, 5 anos depois de meu pai, que nascera em 20 de outubro de 1915).

Não por acaso, há tantos elementos que se entrecruzam na vida e na obra desses dois pensadores tão instigantes, Benjamin e Flusser. Ambos de origem judia, transitaram entre os horrores do nazismo. Vilém Flusser sobreviveu graças à fuga com a família de seu amor de infância, Edith Barth, que se tornaria sua esposa. Saíram de Praga em 1939, passaram pela Inglaterra e França. Deixaram uma Europa em escombros para trás, e chegaram ao Brasil, onde constituiu família, trabalhando com o sogro numa empresa de importações e exportações. Sem deixar a atividade intelectual, dedicou-se a indagar sobre a vida, se ela mereceria ou não ser vivida. Isso porque, já em terras brasileiras, teve informações sobre a morte dos pais, irmã e avós, que fariam parte da trágica história de Auschwitz.

Algum tempo depois, deixou as atividades comerciais para atuar como professor de filosofia da linguagem e da ciência, e teoria da comunicação. Entre o final dos anos 50, a década de 1960 e o início dos anos 70, produziu a primeira etapa de sua obra densa e múltipla. No trato com a palavra encontrara a estratégia na qual investiria todos os seus esforços, buscando compreender o incompreensível: os caminhos pelos quais a cultura ocidental resultou em Auschwitz, tendo o campo de concentração como uma de suas obras máximas, ao lado da bomba atômica e dos computadores.

É de se notar que, se Vilém Flusser considerou sua condição de estrangeiro uma das bases existenciais e de articulação de seu pensamento, ele também foi um outsider em relação à sua formação intelectual. Tendo estudado filosofia na Universidade Carolina, em Praga, entre 1938 e 1939, seu percurso transcorreu, sobretudo, refratário aos rituais protocolares das instituições acadêmicas.

Entre os anos 1960, 1970 e 1980, o Brasil também atravessou territórios de horrores. E, constatando que a esperança se encolhia à sua volta, bem como sua expectativa em torno do “novo homem” possível, Vilém Flusser decidiu migrar de volta para a Europa, instalando-se na França. Contudo, manteve os vínculos com o Brasil, para onde continuou vindo com regularidade. Esse período foi marcado por sua produção mais profícua, e também passou a ganhar maior repercussão. O tema das imagens técnicas passou a figurar em seus escritos, de modo que ganhou a alcunha de filósofo das mídias (o que acaba por ser um reducionismo em relação à complexidade e abrangência de sua produção).

Walter Benjamin nasceu em 1892, em Berlin. E, no ano do nascimento de Flusser, ele já defendera seu doutorado havia um ano, na Universidade de Berna. Em meados da década de 1920, aproximou-se da Escola de Frankfurt. Contudo, sua produção também se caracterizou por uma certa autonomia em relação às instituições acadêmicas e seus protocolos. Talvez autonomia não seja a melhor palavra atribuída ao seu trabalho, considerando-se que a universidade e demais instituições acadêmicas não acolheram a produção de Benjamin. Um desses indicadores pode ser constatado na rejeição de sua tese de livre docência pela Universidade de Frankfurt. Talvez possamos também notar que suas relações com o grupo de intelectuais da Escola de Frankfurt, do mesmo modo, frequentemente deparavam-se com dissenções (o que, ressalte-se, não alterou a estreita relação entre ele e Theodor Adorno). 

No início dos anos 1930, com a ascensão do regime nazista, Walter Benjamin migrou para a França, onde viveu e produziu parte importante de sua obra. No entanto, não demorou para que jornais e revistas alemãs começassem a se recusar a publicar seus escritos. Como a maioria dos judeus, perdeu a cidadania alemã. Na tentativa de fuga para a Espanha, de onde supostamente poderia seguir para os Estados Unidos da América do Norte, foi barrado na fronteira, morrendo em 26 de setembro de 1940.

Há quem diga que a morte o poupou de testemunhar os campos de concentração (ou talvez de sucumbir a eles), bem como a bomba atômica, e também a derrocada da modernidade. Vilém Flusser não só testemunhou isso tudo como sofreu com a perda dos seus. E esforçou-se por inventar modos de digerir cada fragmento dessa experiência, em seus escritos. Talvez em razão da tragédia, mesmo tendo retornado para a Europa no início dos anos 1970, e viajado por vários países para ministrar palestras e cursos, demorou-se muito para voltar à sua cidade natal. Em novembro de 1991, foi convidado para proferir uma palestra no Goethe-Institut de Praga. Ao lado de Edith, só então foi reencontrar-se com as ruas, os prédios, os lugares de sua infância e juventude. Esse relato está em seus últimos escritos. Na viagem de volta, ambos sofreram um acidente, fatal para ele. Foi enterrado no Novo Cemitério Judeu de Praga. Em 2014, o corpo de Edith foi sepultado no mesmo túmulo. Na lápide consta a seguinte inscrição: “Não morreremos conjugados. “Nós” nunca morreremos, porque apenas eu e tu, a solidão é para a morte”.

No alto de uma colina, no cemitério de Portbou, na Espanha, de frente para o oceano e para as ruinas do bunker alemão, há um túmulo com a inscrição do nome de Walter Benjamin. No entanto, seu corpo não está enterrado ali. Quando ele morreu, foi enterrado naquele cemitério, num jazigo pago para um período de 5 anos. Ao final desse desse prazo, seus restos mortais foram jogados numa vala comum. O túmulo, construído pela prefeitura de Portbou, é simbólico.

 




 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Sobre ser gorda... ou ser um monstro... ou ser um carro da Fórmula 1...


Desde criança, sempre fui considerada gorda. Tanto ouvi que era gorda, afinal acreditei no que me falavam. Hoje, vejo fotos antigas minhas... e dou-me conta do absurdo de que fui convencida. Nessa perspectiva, vivi muitas situações discricionárias, desrespeitosas, violentas. Mas esse é um assunto sobre o qual a maior parte das pessoas se cala. Inclusive nós, as mulheres gordas.

Duas circunstâncias envolvendo profissionais da saúde foram especialmente marcantes. Sobretudo porque as interlocutoras eram mulheres... 

Na primeira, eu tinha por volta de 22 anos, vestia manequim 44, fazia aulas de dança, era professora, em plena atividade. Por ter ouvido excelentes referências, fiz consulta de rotina com uma médica, clínica geral que também era homeopata. No retorno à consulta, levei-lhe os exames solicitados. Os resultados eram todos excelentes. Ela os leu, anotou, disse que estava tudo muito bem, mas eu tinha uma questão urgente a tratar. Foi incisiva: eu tinha um rosto angelical, mas meu corpo era de um monstro. Eu precisava tomar providências urgentes para emagrecer. Aquilo me impactou de tal forma, que saí meio zonza do consultório. Não retornei mais.

Mas, no decurso do tempo, a acusação de ser gorda (sim, é sempre uma acusação, uma culpa) vinha acompanhada do apontamento de uma possibilidade de redenção: restrição alimentar para o emagrecimento. Basta fechar a boca! Ou fazer o bom uso de medicamentos... Não, senhoras e senhores, não é bem assim!

Minha alimentação sempre foi muito cuidada, sempre fui ativa, envolvida com várias práticas corporais que passavam pelo teatro e pela dança. Tive várias doenças, sobretudo as virais e também infecções por bactérias. Mas, no geral, minha saúde sempre esteve bem melhor do que a saúde de minhas colegas mais magras, algumas magérrimas.

Já perto dos 40 anos, conheci uma nutricionista que me ajudou a equacionar algumas coisas da minha alimentação. Sem maiores mirabolâncias, tudo foi feito de modo muito simples. Ela trabalhava num hospital público. Durante um ano, estive com ela poucas vezes, umas quatro, no máximo. Mas havia outros vetores envolvidos. De modo que, naquele período, tudo parece ter convergido para uma estabilização do meu peso, e eu me senti um pouco melhor. O que significa eu ter me sentido melhor? Sobretudo, eu tinha a aprovação das pessoas que me olhavam e diziam coisas que poderiam ser traduzidas para "agora sim, finalmente você não está mais tão gorda!"

Mas, em seguida, iniciei novo percurso profissional, em outra cidade, e o corpo retomou também a linha lenta e continuamente ascendente no peso. Por indicação e insistência de pessoas próximas, acabei agendando consulta com uma médica nutróloga que me recebeu já advertindo: eu precisaria cortar a cerveja, a coca cola e o guaraná. Brinquei com ela dizendo que o desafio dela era ainda maior, pois eu não usava nenhuma dessas bebidas. Fiz todos os exames solicitados. Ela surpreendeu-se com os resultados excelentes. Disse-me que eu tinha um carro da Fórmula 1 (referindo se ao meu organismo como uma máquina), mas me apontou o dedo dizendo que eu estava tratando mal esse super carro. Em nenhum momento ela considerou o fato de que os exames mostravam bons resultados exatamente porque eu me cuidava. Ou seja: ser gorda não era um indicador de falta de saúde, mas um traço biotípico. Ao contrário, ela me acusava de ter a sorte de ser proprietária de uma máquina invejável, e de trata-la de modo negligente, sendo gorda.

Também a esse consultório não retornei. 

Situações como essa se repetiram algumas vezes, com diversos profissionais que deveriam cuidar da saúde...

O contexto cultural em que vivemos padece de uma espécie de esquizofrenia sistêmica. Nossos corpos se esgarçam entre demandas contraditórias, assimétricas. Precisam responder a exigências estapafúrdias, cobranças, culpas e acusações. O corpo é tido como coisa, objeto, natureza a ser dominada por um projeto de sociedade cheio de fissuras, fraturas, mortes... Nesse contexto, o corpo é propriedade, mas não me pertence. E eu, que sou tudo junto, sou corpo-afetos-pensamento-percepção-mundo, preciso desenvolver estratégias de sobrevivência, jogando entre as culpabilizações (no mais das vezes silenciosas, mas nem por isso menos contundentes) e as possibilidades de me encontrar plena nos territórios e caminhos por onde transito, nos contextos de meu pertencimento, sendo mulher, sendo o que sou.

 

 

 


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Cindidos















imagem de arquivo pessoal



 imagem encontrada aqui


imagem encontrada aqui

Nasci na fronteira. A fronteira é parte constituinte do que sou. Eu não glamourizo a fronteira: ela é sempre tensa, prenhe de conflitos, mas também nos ensina a transitar entre as diferenças, na diversidade. Na fronteira se formam trincheiras, em tempos de guerra. Mas também se constroem as feiras de compras e vendas, as trilhas que levam a encontros, a falares de muitas línguas.

A fronteira, de onde eu vim, é marcada pela guerra. A guerra mais perversa impetrada na América do Sul, que resultou num genocídio do qual não se pode olvidar. As memórias da guerra pulsam em territórios insuspeitados. Mas sobre ela constroem-se, ou buscam-se construir relações outras, capazes de cultivar esperanças e alegrias.

Na minha infância, uma das alegrias tinha o nome de coquito: um biscoito redondo, crocante, comprado no Paraguai, numa padaria que ficava muito próxima da nossa casa, do lado brasilense.

Muitos anos mais tarde, já na adolescência, habitante do Planalto Central, caminhava pela Esplanada dos Ministérios, com a sensação de mergulho nos verdes e azuis daquela paisagem imensa. Avistar os edifícios logo ali adiante, e descobrir que tinham enganado minha visão no tocante às lonjuras dava uma sensação de liberdade embriagante. De deslimite. Não por acaso a capital federal também foi escola de encontro com o outro: todos não éramos dali, e experimentávamos esses deslimites, em nossas diferenças.

De algum tempo para cá, isso tudo ficou fraturado. A dor que sinto hoje, provocada por essa fratura, sequestra qualquer esperança de que, em algum momento, se possa recuperar a possibilidade do encontro na diversidade pautado pela ética, pelo respeito, pela civilidade.

Visualmente, posso localizar essa fratura em dois momentos.

O primeiro, ocorrido em 2016, quando, em razão das manifestações populares durante as votações para o afastamento da Presidenta da República, foi erguida uma parede longitudinal ao meio da Esplanada dos Ministérios. Tinha o objetivo de evitar o enfrentamento corporal de manifestantes enraivecidos, já incapazes de encontrar o outro.

Ainda sem essa informação, passava distraída pelo lugar, quando me deparei com a parede. A parede fraturou a sensação de lonjuras, de deslimite, de possibilidades múltiplas. A parede fraturou minha relação com aquele lugar. Desde então, entendi que éramos gentes cindidas, e que talvez sequer tivéssemos uma ideia de como resolver esta cisão. Talvez muitas gentes prefiram mesmo continuar cindidas...

Quatro anos depois, nos encontramos em meio a uma guerra que vai muito além de fronteiras geopolíticas, e da qual depende nossa sobrevivência. Uma pandemia provocada por um vírus sobre o qual quase nada se sabe. E voltamos ao cenário político local, em que nos deparamos com uma política nacional construída a partir da cisão. Assim, em estado de guerra em razão da pandemia, precisamos nos salvar, mas nos encontramos num cenário com aprofundamento das fraturas visualizadas desde a construção daquela parede em plena Esplanada nos Ministérios.

Assustamo-nos diante da publicação de cada novo relatório do número de mortos. "No hay muerto que no me duela", cantarola Jorge Drexler, "No hay un bando ganador... No hay nada más que dolor, y otra vida que se vuela..." Superamos já todos os países em número de mortes diárias. Subimos ao podium. Nossas feições são de medo, desalento, desamparo. Recebo mensagens de amigos de outros países. Querem nos fortalecer. Querem dizer que vamos superar. Que somos fortes. E eu já não estou certa disso.

Então me deparo o segundo momento, também traduzido em imagem para compor a narrativa da fratura. O governo paraguaio fechou as fronteiras. Entre as duas cidades de onde eu venho, foi aberta uma vala, foram estendidos fios de arames farpados e colocados pneus nas passagens. Guardas armados garantem a preservação da integridade de seus cidadãos, evitando que brasilenses os contaminem com o novo vírus, tendo em conta, sobretudo, o modo caótico com que a questão tem sido tratado do lado de cá das fronteiras.

Vale notar que boa parte dos meus conterrâneos costumava buscar atendimento de saúde do lado paraguaio, dada a precariedade do atendimento público brasilense, e o caráter mercantil das instituições médicas e hospitalares de natureza privada. Dentre os inumeráveis exemplos, estão os quantos brasilensezinhos trazidos à luz em hospitais paraguaios.

Eu não poderia imaginar, no pior dos pesadelos, ou na mais imaginativa distopia, uma cena assim traçada. Nela, já não me seria dado comprar coquitos do outro lado da rua.

Em tempo 1: a palavra diabo chegou ao português contemporâneo por via do latim diabolus, do grego clássico διάβολος ‎(diábolos), vocábulo constituído pelo prefixo διά ‎(diá) e por βάλλω ‎(bállō), «atirar». O referido prefixo exprime separação, divisão, pelo que diabo, literalmente, indica aquele que desune, que inspira ódio ou inveja. (informações buscadas em Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)

Em tempo 2: a palavra brasilense resulta do topônimo Brasil+ense, significando a nacionalidade de quem nasce no Brasil. É uma opção intencional em substituição à palavra brasileiro, ou brasileira, usada amplamente e tomada, quase sempre, como única possibilidade. A respeito dessa escolha na escrita, você pode buscar esta postagem: Sobre ser brasilense 











terça-feira, 12 de maio de 2020

De pitahayas, mimos e afetos (para o Bruno, meu sempre querido Bruno)



Tempos estranhos, estes. Lembro-me de ter ido à universidade numa quinta-feira. Dei aulas a manhã toda, almocei, e à tarde encontrei com alguns orientandos, resolvi questões administrativas de rotina, preenchi relatórios. Acabei desmarcando um encontro agendado para a sexta-feira. Havia outro agendado para a segunda-feira seguinte, mas confirmaríamos durante o final da semana. Voltei para casa no final da tarde. E não retornei mais à universidade, há mais de 70 dias, mês de maio adentro. 

Tampouco saí da universidade: docentes, estudantes, técnicos e gestores, todos continuamos a trabalhar, desde nossas casas, pelas vias digitais. E já vamos ficando exaustos nesse exercício de compressão de todas as nossas atividades acadêmicas nas janelas dos aparatos tecnológicos das redes digitais de comunicação...

Saudades de encontrar as pessoas queridas pelos corredores, dos debates em sala de aula, dos abraços fraternos... Ah, os abraços!

Dia desses recebi uma mensagem por uma das redes digitais de relacionamento social: tem uma coisa para você na portaria do seu prédio. Seu Walmir, o porteiro, confirmou: um rapaz deixou uma coisa aqui para a senhora.

Coloquei a roupa e o calçado destinados para as breves saídas (cada vez mais raras), deixei o álcool próximo à porta para a desinfecção no retorno, coloquei a máscara de algodão duplo, e desci. Numa sacola, uma pitahaya rosa, enorme. Sorri. Pitahaya é a outra palavra com que, agora, posso nominar o gesto do abraço. Abraço grande, adocicado, que aquece o coração.

Demorei para decidir saboreá-la. Queria que a pitahaya permanecesse ali, no tempo. Afeto que fica.

Para quem ainda não experimentou seu sabor: pitahaya, ou pitaya, ou ainda pitaia, velha conhecida da cultura asteca, é o fruto de algumas espécies de cactos nativos da América Latina. A palavra pitahaya significa “fruta escamosa”, e pertence à língua taína, da família linguística macroarahuacana, que se estende desde a América do Sul, até o Caribe. Sua flor, branca e intensamente perfumada, abre-se apenas durante a noite. Por isso é chamada de rainha da noite.





sexta-feira, 8 de maio de 2020

Dos que habitam esta casa, e sobre um filhote de lagartixa, mais especificamente.




Em fala comum, recorrente, eu diria que sou dona desta casa. "A minha casa" é uma expressão que traduz bem esse sentimento de posse e pertencimento. Ela foi adquirida há pouco mais de 13 anos, desde quando eu a habito. Sou portanto, sua proprietária...

Quanto engano, o meu!

Uma miríade de vidas habita estes aposentos. Algumas passíveis de serem percebidas pela minha visão, quantas outras não! Podemos pensar sobre essas vidas por escalas. Comecemos pelas plantas, muitas das quais eu sou a responsável pelo plantio, mas várias outras vieram sem serem trazidas por mim. Embora, em escala de percepção imediata ao olhar eu possa dizer que são facilmente constatáveis, seu comportamento não, conquanto observem outras escalas temporais. Ou seja, seus movimentos, suas reações seus avanços e recuos não são facilmente observáveis na medida em que exijam outra noção de ciclos temporais. Estão ali, e eu as vejo. Só que não...

Já entre elas, miríades de pequenos seres coabitam, entre os galhos, as terras, os vasos, as flores: desde formigas e pequenos seres voejantes, até os micro-organismos inalcançáveis à minha visão. E eu nem saí da varanda...

Pela casa adentro, mais minúsculas formigas coabitam a casa, mesmo quando eu julgue tê-las extinguido. Pequenos besouros, borboletinhas, insetos de toda sorte, além de mais miríades de micro-organismos... tão ou mais proprietários destes territórios do que eu...

E as lagartixas domésticas constituem um caso à parte. Desde que aqui cheguei, já nem sei com quantas gerações delas terei compartilhado os aposentos, principalmente da sala e biblioteca. Vez ou outra, em períodos razoavelmente espaçados para a minha escala de tempo, deparo-me com uma delas, que foge, assustada. Em tempos de pandemia e distanciamento social, suponho que estejam incomodadas com nossa presença ininterrupta na casa. Perderam, em muito, a possibilidade de circular sem maiores riscos.

Sim, sempre há riscos... O convívio nem sempre é amigável, com consequências diversas, seja para as demais formas de vida, seja para as formas de vida da espécie humana...

Ainda ontem, entrei no sanitário, à noite. Quando acendi a luz, percebi o pequenino ser próximo à porta. Era um filhotinho de lagartixa. Como não fugia à minha presença, cheguei mais perto para observar. Eu esmagara seu rabo, e ela estava colada ao chão. Acho mesmo que não vou esquecer de seus olhos muito negros a saltar do pequeno corpo, fixos em mim. Exercitando, na medida do possível, alguma empatia, me imaginei em seu lugar, e pensei no pânico que estaria sentindo. Com cuidado, fui descolando do chão o rabo esmagado, enquanto a lagartixinha agitava as patinhas, tentando se desvencilhar de mim. Escapou, meio desequilibrada, saiu arrastando a cauda destruída. Parou entre a cesta de roupas e a parede. Ficou ali, paradinha, sem se mover. E eu parada a observá-la, querendo muito que ela sobrevivesse ao desastre provocado por mim.

Algum tempo depois, quando retornei para ver como estava a minha vítima, já não a encontrei. As lagartixas comportam-se assim: muitas vezes fazem-se de mortas, até passar o perigo. Depois fogem, para cuidar de si. Espero, sinceramente, que ela possa restaurar o rabo o mais prontamente! E possamos nos reencontrar em situações menos desastrosas, para ela e para mim...







sábado, 4 de abril de 2020

Afetos, abóbora e gratidão







O dia foi marcadamente mais angustiado do que tem sido até aqui. Acho que ter assistido ao filme O Poço, ontem, me deixou o pensamento com inquietudes extras. Some-se a isso a leitura de uma reportagem alertando para o fato de que São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Amazonas e Distrito Federal estariam enveredando, a estas alturas, já para a segunda fase do processo de contaminação pelo covid 19, chamada de “aceleração descontrolada”, a mais agressiva. O Distrito Federal destoa ainda mais nesse cenário, apresentando o coeficiente de incidência mais alto, de 13,2 infectados para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 4,3 infectados para cada 100 habitantes.

Aceleração descontrolada... Em algum momento houve algum tipo de controle no expoente multiplicador do processo de contaminação por esse vírus? Em algum momento, governantes, autoridades sanitárias, empresários, responsáveis pela saúde pública, e mesmo as populações em geral tiveram algum controle sobre a aceleração desse avanço?

Pela manhã, confeccionei uma máscara para mim, com algodão duplo, com estampas de flores. Não importa se são portadoras de humor, se são graciosas, se posso combinar com os óculos ou a roupa, são as novas burcas, de uso obrigatório: devem ser usadas toda vez que formos à rua. 

No final da tarde, recebi a mensagem de uma amiga contando que uma conhecida sua, técnica de enfermagem, jovem com 38 anos, morrera em decorrência do vírus, ainda hoje pela manhã. Pensei na sua morte, nas mortes em decorrência do covid 19: mortes solitárias, sem afagos, sem alento. Funerais aligeirados, sem testemunhas...

Sem conseguir me desfazer de sustos e indagações, tentei dar curso a algumas atividades inadiáveis: relatórios, projetos, textos, cuidados com a casa, e me perdi no tempo, sem me aperceber.

Já passava das 20 horas, quando ouvi a campainha tocar. Fui tomada de sobressalto. Quem, em tempo de isolamento social, tocaria a campainha de casa num sábado à noite, sem se anunciar? Algum morador do prédio precisando de ajuda? Ouvi uma voz de mulher, chamando pelo meu nome. Reconheci a voz de uma vizinha muito querida. Abri a porta rapidamente, enquanto ela me dizia: Só uma palavrinha, mas de longe! Ela estava apoiada na parede oposta à da porta, olhos afetuosos, um sorriso que eu podia adivinhar por trás da máscara. No batente da porta, uma abóbora. “Trouxe da roça, acabei de chegar de lá! Está bem lavada, higienizada!”. Contou-me dela, contei-lhe de mim, em breves palavras trocadas, entre alegrias contidas. Perguntou se eu gostava de abóbora. Que sim, respondi, adoro! Disse-me que gosta de assar. Eu já pensava mesmo em assá-la com outros legumes. Sentia-lhe já o cheiro do assado.

Queria tê-la abraçado. Tentei fazê-lo com meu olhar. Recolhi a abóbora que terá sabor de afeto.