literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
domingo, 29 de outubro de 2017
Refeição diferenciada para pessoas diferenciadas
p/ o Renato
Nosso voo saiu depois do meio dia, e teria duração de mais
de três horas. Como os procedimentos no balcão de bagagens, na polícia, na aduana,
etc. em geral são demorados (e de fato demoraram), foram iniciados bem antes do
horário do almoço. Por isso, quando embarcamos, ninguém tinha almoçado. Alguns se
anteciparam ao voo, servindo-se com algum sanduíche vendido a preço de ouro em
lanchonetes do aeroporto, instaladas na área do embarque. Assim, já durante a
viagem, quando os comissários de voo começaram a servir o lanche, que consistia
num sanduíche com recheio de presunto e queijo e um copo de algum suco de
caixinha, a maior parte dos passageiros alegrou-se, apesar do menu precário.
Mas, à minha frente, uma senhora esperou calmamente todos
serem servidos. Buscou, então, em sua bagagem, uma sacolinha de papel, de onde
retirou uma cenoura crua. Sentada em sua poltrona, com ares de meditação,
passou a degusta-la. Cada mordida era seguida de longas e incontáveis
mastigadas. Concentrada em sua atividade, comeu duas cenouras cruas inteiras. A
certa altura, até pegou o sanduíche que lhe fora entregue. Abriu-o, e eu
cheguei a pensar que a cenoura teria sido apenas um aperitivo. Ela iria ceder
ao chamado do sanduíche! Enganei-me. Fez um discreto gesto de repulsa, e largou
o sanduíche sobre a mesinha, retornando ao último pedaço de cenoura entre os
dedos.
Depois amassou a sacolinha e a descartou enquanto os comissários
de voo recolhiam copos e plásticos e outros restos deixados pelos demais pobres
mortais passageiros, tão susceptíveis ao chamado de sanduíches feitos com produtos
processados, e sucos enlatados carregados com açúcares tão nocivos à saúde.
O gesto da senhora da cenoura tinha um traço de
distanciamento. Flutuava além dos vícios alimentares terrenos, tão afeitos à
sociedade industrial do sistema capitalista.
Ora, dizei-me o que comeis, e direi que, a despeito das
diferenças e divergências, eu ainda prefiro a diversidade de possibilidades!
Bom apetite!
terça-feira, 24 de outubro de 2017
terça-feira, 10 de outubro de 2017
Sobre a experiência estética
Foi ao Centro Cultural Caixa Econômica,
para ver a exposição Êxodos, com fotografias de Sebastião Salgado. As 60
lâminas em preto e branco estavam dispostas ao longo de duas salas contíguas,
organizadas em sequências que se referiam a refugiados de guerra, à condição humana nas grandes cidades,
a disputas pelo direito à terra. Eu o vi observando longamente cada fotografia, e lendo as
informações respectivas. Demorou-se diante de cada uma. Sua emoção transbordou
no gesto e no silêncio. Comoveu-se com os rostos sofridos, com as cenas e os
ambientes nos quais crianças, mulheres e velhos teimavam em continuar vivendo.
Saiu dali profundamente tocado.
Mais tarde, em casa, falou de sua comoção ante as
condições de quantas mulheres e crianças em situação de risco e miséria, e da ignorância de todos nós no tocante às
circunstâncias nas quais vivem milhares de pessoas nos quatro cantos do
planeta. Falou como se fosse testemunha presencial das condições de dor e sofrimento vividas por aquelas pessoas fotografadas.
A experiência deixou-lhe marcas indeléveis.
A experiência deixou-lhe marcas indeléveis.
Salvo engano, se é que a arte serve para alguma coisa, deve
ser para isso...
sábado, 7 de outubro de 2017
De pirilampos e cigarras
Não estou certa se primeiro se foram os pirilampos ou as
guaviras. O fato é que seus ciclos e presença entrelaçavam-se com as nossas
próprias vidas. Estavam ali, conosco, como tudo o mais que tomava parte daquele
pequeno mundo. Em novembro, o gosto doce das frutinhas redondas e esverdeadas
era tão certo quanto as luzinhas piscando-piscando dos pirilampos à frente da
casa, no cair da tarde.
Um dia começaram a chegar os tratores às fazendas vizinhas. Ajudariam
a ampliar a produção na lavoura. Melhorariam o pasto para o gado. Aos poucos, a
vegetação dos campos foi sendo modificada. Quando nos demos conta, já não havia
pirilampos. Tampouco guaviras. Hoje nem eu posso pisar aquele chão vermelho-tinta.
Mas essa é já outra história.
Quando vim de lá, um dos assuntos recorrentes durante a
primavera, na capital federal, eram as cigarras. Amadas por uns, odiada por
outros, compunham, obrigatoriamente, a trilha sonora dos meses de setembro,
outubro, novembro. Umas com trinados mais agudos, outras graves e compassadas. Algumas
cantavam noite adentro, outras na madrugada, e todas em pleno calor do dia.
Um dia, apareceram os pássaros pretos. Andavam rente ao
chão, à espreita, prontos para saborear cabeças de cigarras desavisadas. Começaram
a ser vistos corpos decapitados dos insetos cantantes. Os pássaros aprenderam
rapidamente a esperar que elas emergissem da terra e passaram a devorá-las
antes mesmo de deixarem suas cascas nos troncos das árvores.
Em 2017, outubro adentro, ainda não ouvi um trinado sequer de
cigarra.
Buscando informações, descobri que um número enorme de
insetos está na lista da fauna em risco de extinção: borboletas, abelhas,
grilos, gafanhotos, pirilampos... e as cigarras... Efeitos do avanço das
cidades, e da agricultura intensiva. Uma tragédia ambiental da qual não temos
ainda noção das dimensões.
E eu pergunto: quem chamará as chuvas?
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
sábado, 23 de setembro de 2017
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